O longo mês de agosto é, tipicamente, uma das épocas mais movimentadas do ano para a polícia  britânica, com as escolas em férias de verão e muitos jovens sem ter o que fazer.

Desde as chamadas “invasões de adolescentes”, que levaram à imposição de toques de recolher em várias partes dos Estados Unidos, até o “desafio do apagão”, no qual usuários provocam o próprio sufocamento, desafios virais — e por vezes perigosos — impulsionados pelas redes sociais têm atraído alguns jovens.

No entanto, neste verão, surgiu uma tendência nova e perigosa no Reino Unido e na Irlanda. Ela envolve grupos, formados majoritariamente por homens jovens, que filmam vídeos dirigindo na contramão e os publicam na internet.

Na última segunda-feira (24), o governo britânico solicitou às empresas de redes sociais que removessem vídeos que glorificam a direção perigosa, após uma série de acidentes fatais no Reino Unido e na Irlanda envolvendo pessoas que dirigiam na contramão em vias importantes.

Como resultado, empresas de tecnologia passaram a ser alvo de escrutínio devido à circulação online de imagens virais que mostram direção de risco; autoridades locais alertam que as curtidas nas redes sociais estão sendo priorizadas em detrimento da segurança de pessoas inocentes.

As autoridades estão investigando as causas exatas dos acidentes mais recentes.

Em uma ocorrência do fim de semana passado, dois policiais e cinco jovens morreram perto de Middlesbrough, no norte da Inglaterra, depois que um veículo que trafegava na contramão colidiu com uma viatura policial caracterizada.

Os cinco ocupantes do carro — um Volkswagen Passat — tinham entre 17 e 23 anos, informou a polícia. Uma conta no TikTok, agora excluída e que se acredita pertencer a um dos adolescentes mortos no acidente, contém um vídeo publicado em março de 2025 mostrando o jovem e outros quatro rapazes envolvidos no que parece ser uma perseguição policial, segundo a BBC.

Outro vídeo compartilhado pelo mesmo perfil parece mostrar um velocímetro marcando 160 km/h, informou a BBC.

Houve rápidas homenagens à coragem dos dois policiais mortos: Matthew Blades, de 37 anos, e Tom Clough, de 38 anos.

Mais tarde, na última segunda, a polícia informou ter prendido 12 pessoas como parte de uma investigação sobre atividades criminosas ocorridas antes do acidente. Foram recebidos diversos relatos sobre dois veículos sendo dirigidos de forma perigosa; um deles teria, inclusive, colidido propositalmente contra imóveis, segundo a polícia.

Alerta às empresas de tecnologia

Na última segunda, o Ministro da Defesa britânico, Luke Pollard, pediu às empresas de redes sociais que removessem conteúdos que mostrassem direção de risco, incluindo carros trafegando na “mão errada da via”.

“Há muito conteúdo online, em plataformas de redes sociais, de pessoas celebrando a direção perigosa, celebrando a condução inadequada em nossas estradas — trafegando na mão errada — e comportando-se de maneira extremamente irresponsável”, disse Pollard à BBC.

“Já conversamos com essas empresas, na qualidade de governo, informando que utilizaremos os poderes previstos na Lei de Segurança Online, ou Online Safety Act, para garantir a remoção de conteúdos perigosos”, afirmou Pollard, referindo-se à legislação do Reino Unido que obriga as empresas de tecnologia a proteger os usuários contra conteúdos ilegais e prejudiciais.

O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, declarou posteriormente que as pessoas que compartilham imagens glorificando a direção perigosa estão “fazendo algo verdadeiramente condenável”.

Em resposta ao acidente mais recente, a gigante das redes sociais TikTok afirmou estar monitorando atentamente qualquer conteúdo online relacionado ao incidente e removendo vídeos e contas que violem as regras da empresa.

O site da Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, informa que conteúdos que promovem “desafios virais de alto risco” são removidos, enquanto imagens que retratam direção imprudente — capaz de causar ferimentos com risco de morte ou óbito — têm seu acesso restrito para menores de 18 anos, “exceto quando compartilhadas em contextos ficcionais ou profissionais”.

“Irresponsável e perigoso”

O incidente próximo a Middlesbrough não é um caso isolado; autoridades locais vêm discutindo os perigos dessa tendência nas redes sociais à luz de vários outros acidentes automobilísticos fatais.

No início de agosto, cinco adolescentes morreram em uma colisão envolvendo dois veículos na Irlanda, após dirigirem na contramão em uma rodovia. Três mulheres e um menino, que estavam no segundo veículo, foram hospitalizados com ferimentos graves.

O chefe da polícia irlandesa, o Comissário da Garda Justin Kelly, afirmou que o incidente demonstrou o quão “irresponsável e perigoso é dirigir na mão errada da rodovia”, ao mesmo tempo em que expressou solidariedade às vítimas feridas.

“O que torna esse comportamento imprudente ainda mais chocante é o fato de que, em alguns casos, ele é realizado em busca de curtidas nas redes sociais, sem levar em conta o impacto potencialmente devastador que pode ter sobre pessoas inocentes e sobre os próprios autores”, disse Kelly na ocasião.

Além disso, no início deste mês, a polícia irlandesa fez um apelo por testemunhas depois que um carro com oito jovens colidiu frontalmente com outro veículo enquanto trafegava no sentido norte pela pista sul de uma rodovia perto de Dublin, resultando em ferimentos graves.

A real dimensão dessa tendência nas redes sociais ainda não está clara, mas a emissora irlandesa RTÉ informou na última segunda-feira que 62 ocorrências de pessoas dirigindo na contramão em rodovias foram registradas na Irlanda até agora neste ano — citando o órgão responsável pelas estradas e redes de transporte público do país —, um aumento de 32% em relação ao mesmo período do ano passado.

A direção imprudente não é um comportamento novo, mas agora pode ser “registrada e transmitida para milhões de pessoas em busca de visualizações, curtidas e seguidores. Assim, o perigo se transforma em conteúdo”, disse Mary Aiken, professora de ciberpsicologia da Capital Technology University, em Washington, D.C.

Aiken disse à CNN acreditar que o ato de filmar a direção arriscada cria, para o motorista, uma “sensação de distanciamento do perigo real”. “Acredito que o que eles fazem começa a parecer um jogo ou uma apresentação ao vivo, e as curtidas, as visualizações e a contagem de seguidores proporcionam recompensas sociais visíveis e imediatas”, afirmou ela.

Ela disse que deveria ser “extremamente simples” para as empresas de redes sociais removerem conteúdos que glorificam esse “comportamento criminoso e de alto risco”.

O TikTok afirmou que remove conteúdos que glorificam a violência ou promovem crimes, utilizando diversas técnicas, incluindo moderação humana, tecnologias de detecção e denúncias feitas por usuários.

Entre janeiro e março deste ano, a empresa informou que, do conteúdo removido por violar suas políticas sobre comportamento violento e criminoso, 99,1% foi retirado do ar antes mesmo de ser denunciado à plataforma.

“Um filho e irmão adorado”

Embora Matt Storey, comissário de polícia de Cleveland — local onde ocorreu o acidente em Middlesbrough —, tenha dito que era muito cedo para comentar a causa da colisão, ele afirmou que qualquer filmagem feita enquanto se dirige é “absolutamente ridícula” e “idiota”.

“É uma situação preocupante se isso estiver se tornando mais comum, pois é incrivelmente perigoso”, disse ele à BBC Radio 4.

Pollard acrescentou que queria aguardar o resultado da investigação policial antes de poder “entender o que exatamente aconteceu nesta tragédia”. Em homenagens aos policiais mortos, divulgadas pela polícia, a família de Clough afirmou que ele era um “herói” que estava “sempre disposto a ajudar qualquer pessoa, por qualquer motivo”, enquanto a esposa de Blades o descreveu como “um filho e irmão adorado, um genro perfeito e o tio mais divertido”.