O atacante do CD Tenerife Jesús de Miguel Alameda, de 30 anos, morreu nesta terça-feira (3) após uma parada cardíaca decorrente de um choque com o goleiro Jesús Owono, do FC Andorra, em partida pela segunda divisão espanhola no último domingo (1º).

Na jogada, Owono saiu da grande área para afastar uma bola longa e atingiu a região do peito de Jesús De Miguel com o joelho. O atacante caiu desmaiado no gramado e entrou em parada cardíaca.

Ele recebeu atendimento médico no campo por mais de cinco minutos e ficou cerca de dois dias internado, mas não resistiu. O clube comunicou a morte nas redes sociais por volta das 5h20 desta terça.

Impacto no tórax e um possível Commotio Cordis

Embora haja apenas a confirmação de parada cardíaca como causa da morte, o mecanismo do trauma na região frontal do peito de Jesús de Miguel aponta para a hipótese principal de concussão cardíaca (commotio cordis), segundo a análise de Ricardo Contesini, cardiologista do esporte.

De acordo com o especialista, um choque mecânico direto sobre o precórdio (superfície torácica acima do coração) pode provocar um colapso elétrico imediato no órgão.

“Muito provalvelmente foi uma pancada fechada no tórax, uma concussão cardíaca. Dependendo da força e do momento em que atinge a parede do coração, essa pancada pode evoluir com uma arritmia chamada fibrilação ventricular, que é uma parada cardíaca”, diz Contesini.

O médico destaca também que esse tipo de parada cardíaca em atletas jovens e saudáveis não decorre de uma doença prévia. 

“Aqui não é um problema de coração. O choque ocorre quando uma pancada em área pequena — como o joelho no futebol ou uma bola de beisebol — atinge o peito exatamente no momento da repolarização. Essa fração de segundos corresponde a apenas 1% do ritmo cardíaco (10 a 20 milissegundos) e gera um curto-circuito no coração”, explica o especialista.

Os perigos de colisões no futebol

As colisões de alta intensidade em velocidade durante as partidas representam sérios riscos a múltiplos órgão e sistemas do corpo humano.

Quando ocorrem choques diretos na cabeça ou movimentos bruscos, como o efeito “chicote”, o impacto pode provocar uma concussão cerebral.

A condição altera temporariamente as funções cognitivas e neurológicas do atleta. Protocolos médicos e diretrizes esportivas reforçam que a perda de consciência ocorre em menos de 10% dos casos de concussão cerebral. Por isso, a ausência de desmaio não descarta a gravidade da lesão.

“A concussão cerebral é a nossa principal preocupação nos traumas de cabeça, pois pode ser grave e levar a complicações neurológicas como acidentes vasculares cerebrais (AVC). Mas a concussão cardíaca (commotio cordis) é a mais trágica, pois atinge uma pessoa com o coração totalmente saudável e sem aviso prévio”, afirma Contesini.

O Protocolo de Concussões da FIFA (Federação Internacional de Futebol) ainda aponta que manter um jogador em campo após um impacto forte traz o risco da síndrome do segundo impacto, uma complicação rara e potencialmente fatal provocada por um novo choque antes da recuperação total do cérebro.

De acordo com o cardiologista, além das lesões cerebrais e da hipótese de commotio cordis, colisões torácicas violentas podem provocar inflamações cardíacas graves como o tamponamento cardíaco, que reduz a capacidade de bombeamento do coração.

Repercussão da morte de Jesús de Miguel

Em sinal de respeito, a RFEF (Real Federação Espanhola de Futebol) adiou partidas da Copa do Rei, da Copa da Rainha e cancelou a apresentação da seleção sub-21.

Grandes clubes como Barcelona e Real Madrid enviaram condolências, enquanto o goleiro Owono declarou estar “profundamente abalado” e precisou fechar os comentários em suas redes sociais devido aos ataques recebidos.

O jogador chegou a ser chamado de assassino por torcedores após o choque com De Miguel.