Nesta sexta-feira (7), é comemorado o Dia Internacional da Cerveja. A celebração foi criada em 2007 na cidade de Santa Cruz, na Califórnia, Estados Unidos, por um grupo de amigos, e o dia é celebrado em mais de 80 países ao redor do mundo. Em São Paulo, porém, o consumo de bebidas alcoólicas em estádios está proibido desde 1996.
Sob forte mobilização de clubes, Federação Paulista de Futebol (FPF), administradores de arenas e marcas do setor, o mercado vive a expectativa de derrubar uma restrição instituída pela Lei Estadual nº 9.470 após conflitos entre torcidas do Palmeiras e São Paulo no estádio do Pacaembu, na decisão da Supercopa São Paulo de Juniores .
O cenário atual é apontado por dirigentes e organizadores como um contrassenso: enquanto partidas de futebol mantêm a proibição e comercializam apenas cervejas sem álcool, as mesmas arenas vendem bebidas alcoólicas livremente durante shows, corridas de Fórmula 1 e partidas da NFL.
Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), a tramitação de um novo projeto de lei desponta como o caminho mais viável para a mudança, uma vez que o governador Tarcísio de Freitas já se declarou favorável à pauta — ao contrário do ex-governador João Doria, que vetou proposta semelhante em 2021.
Entre as propostas em discussão na Alesp, destaca-se o texto construído em grupo de trabalho com o governo estadual, Ministério Público, Defensoria Pública e polícias Civil e Militar. O texto proposto pela vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil) sugere limitar a graduação alcoólica em 14%, proibir a venda em partidas de categorias de base e exigir pontos fixos de comercialização.
Paralelamente, avança outro projeto de lei, de 2023, de autoria dos deputados Delegado Olim (PP), Itamar Borges (MDB), Dani Alonso (PL) e Carlão Pignatari (PSDB), que prevê liberação para bebidas com até 15% de teor alcoólico. A matéria já recebeu parecer favorável da Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR) e conta com o apoio formal assinado pelos presidentes de clubes das três primeiras divisões paulistas.
Neste longo período de veto, outra das ofensivas feitas pela liberação das bebidas alcoólicas nos estádios de São Paulo foi um projeto de lei de autoria de Guto Zacarias (União) e Lucas Bove (PL), que pedem a restrição da liberação de bebidas alcoólicas a estádios que possuem monitoramento por câmeras.
Impacto econômico e operacional
Estimativas do setor indicam que a liberação pode aumentar o faturamento das arenas em cerca de 30%, além de gerar postos de trabalho diretos para atendentes, operadores de caixa e ambulantes.
A segurança em ambientes controlados é um dos argumentos centrais dos defensores da medida. Léo Rizzo, CEO da Soccer Hospitality — empresa que atua em camarotes de arenas como Allianz Parque, Neo Química Arena, MorumBIS e Vila Belmiro —, ressalta a viabilidade do modelo:
Operamos camarotes em estados onde a venda de bebidas alcoólicas já é liberada, como na Bahia e no Rio de Janeiro, e nunca registramos ocorrências ligadas ao consumo. Em um ambiente controlado, com monitoramento e equipe treinada, a segurança é muito maior do que nas áreas externas, onde hoje o consumo ocorre sem qualquer fiscalização. Eventos como a Fórmula 1, que acontece em São Paulo, mostram isso claramente: oferecemos bebidas alcoólicas em uma operação de grande porte, altamente organizada, e tudo com absoluta normalidade. A liberação em São Paulo elevaria a experiência do torcedor e alinharia os estádios ao padrão já visto em outros mercados.Léo Rizzo, CEO da Soccer Hospitality
Apoio dos clubes e visão dos dirigentes
Os clubes paulistas manifestaram apoio unânime à mudança. O presidente do Santos, Marcelo Teixeira, destaca que o avanço tecnológico nos estádios garante maior controle e segurança:
Essa medida certamente fortalece as relações e contratos com marcas de bebidas, além de abrir uma nova e importante fonte de receita com a comercialização direta nos estádios, algo que hoje acaba ficando nas mãos de ambulantes, bares e do comércio informal. Para além do aspecto comercial, também se trata de restabelecer o direito das pessoas e a liberdade de consumirem o que desejarem dentro dos estádios, desde que com responsabilidade e moderação. Atualmente, também contamos com mais estrutura, segurança, tecnologias como o reconhecimento facial e uma mudança gradativa no comportamento do torcedor, com mais conscientização.Marcelo Teixeira
Adalberto Baptista, gestor da Botafogo S.A. de Ribeirão Preto, avalia que a medida pode otimizar a receita de matchday e reduzir transtornos no acesso às arenas:
A possível liberação é positiva e pode criar uma fonte de receitas para os clubes. Em alguns casos, é até possível dobrar a receita com o matchday. De forma controlada, temos plenas condições de ter o retorno das bebidas alcoólicas aos estádios paulistas, medida que movimentará as arquibancadas, mas também pode ampliar o tíquete médio dos espaços premium nos estádios, ambientes que comercializam pacotes com comidas e bebidas inclusas no valor do preço do ingresso. Além disso, acredito ainda que haverá uma diminuição da violência e dos transtornos nas entradas aos estádios, já que hoje os torcedores ficam ingerindo bebidas alcoólicas fora do estádio até o momento do apito inicial, com todos querendo entrar nas arenas ao mesmo tempo.Adalberto Baptista
Conscientização e conjuntura nacional
Especialistas do setor reforçam que a liberação deve ser acompanhada de ações educativas. Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports, pondera:
“Trata-se de uma alternativa que seria rentável e benéfica para todas as partes envolvidas. Mas instruir o público com campanhas de conscientização também é fundamental caso isso aconteça”, aponta Fábio Wolff.
Para Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM, o modelo busca alinhar a experiência nacional aos padrões internacionais:
“Muito além da receita potencial com alimentos e bebidas nesse jogo específico, a ideia da liga de trazer o jogo para o Brasil vai muito além das 4 linhas. Existe uma preocupação em recriar da maneira mais fiel possível a experiência das arenas americanas, o tailgate, o entretenimento e sem dúvida a as opções de bebidas alcoólicas”, aponta Ivan Martinho.
Renê Salviano, CEO da agência Heatmap, também defende o alinhamento com outros eventos de entretenimento:
“Já acontece essa liberação para shows em São Paulo. Entendo que chegou o momento de ocorrer uma mudança em vários estados do país que ainda mantêm a regra de não liberar bebidas alcoólicas em jogos. Todos os grandes eventos de entretenimento são assim, e o jogo também é um entretenimento como o show. Ao mesmo tempo, entendo que a liberação deve vir obrigatoriamente acompanhada de campanhas de conscientização sobre o vício e consumo excessivo.”
Atualmente, São Paulo faz parte do grupo de quatro estados brasileiros que mantêm a proibição, ao lado de Rio Grande do Sul, Goiás e Alagoas. A restrição local é resguardada constitucionalmente, já que o Estatuto do Torcedor concede autonomia aos estados para definir regulamentações específicas.
Diante do consumo concentrado nas imediações dos estádios, Tironi Paz Ortiz, CEO da Imply ElevenTickets, destaca o impacto operacional da medida:
A comercialização da cerveja em estádios de futebol tem potencial para a geração de receitas aos clubes muito além das vendas da própria bebida em si. Hoje muitos dos torcedores ficam nas ruas até o último momento possível para consumir a cerveja fora do estádio. A ausência de parte do público no local das partidas nesse intervalo de tempo também representa uma lacuna no consumo do torcedor em outras frentes, seja com a compra de alimentos ou de produtos oficiais. Mas, independentemente da liberação da comercialização das bebidas ou não, é fundamental que os clubes adotem estratégias para ampliar o período do público nos estádios.Tironi Paz Ortiz
