A empresária Andreia Vieira — que morreu poucas horas após realizar cirurgias plásticas em Goiânia (GO) — pagou, ao todo, R$118 mil pelos procedimentos realizados no rosto e pescoço. Segundo à irmã, Djiane Vieira, a equipe médica não realizou uma consulta antes da cirurgia.
De acordo com o relato de Djiane, entre os procedimentos realizados estavam ritidoplastia facial profunda, frontoplastia com redução de testa, mentoplastia óssea e blefaroplastia superior, combinadas a lipoaspiração e nanofat — técnica que utiliza a própria gordura do corpo da paciente.
Djiane Vieira ainda contou que Andreia permaneceu por cerca de oito horas no centro cirúrgico e apresentou complicações após o procedimento. A representação criminal apresentada pela família ao Ministério Público de Goiás registra que as cirurgias começaram na manhã de 11 de agosto e terminaram às 16h20. O óbito foi formalmente declarado às 4h15 do dia seguinte.
Os procedimentos foram realizados sob anestesia geral e incluíram cirurgias no rosto e procedimentos de contorno corporal. Segundo a representação, a intervenção ocorreu das 7h45 às 16h20, com indução anestésica às 8h10.
Djane disse que foi informada de que as cirurgias durariam por volta de seis horas, porém, depois desse prazo, começou a se preocupar. Ela relatou que quando a paciente saiu do centro cirúrgico, não conseguia fechar a boca porque a língua estava inchada. Segundo ela, o médico explicou que esse seria um processo normal do pós-operatório.
Durante o período em que as duas ficaram no quarto, Djiane contou que a irmã não foi atendida conforme a piora do estado de saúde. “O que houve com a Andreia foi negligência”, destacou.
Pré-operatório e negligência
A defesa da família da vítima, representada pelo advogado Fábio Ricardo, apresentou documentos que apontam que Andreia realizou exames pré-operatórios na Espanha em 18 de junho. Os resultados indicaram sorologia com anticorpos IgM reagentes para Borrelia burgdorferi, bactéria associada à Doença de Lyme, e Brucella. Os exames foram encaminhados à equipe médica em 23 de julho.
Segundo a representação, a sorologia indicava processo inflamatório ou infeccioso ativo ou recente. A peça afirma ainda que a equipe médica não teria realizado investigação complementar sobre as infecções ou relacionado os resultados a outros fatores de risco antes da cirurgia.
Djiane relatou que o médico responsável pela operação teria dito que os diagnósticos não seriam um problema no curso cirúrgico.
A representação também aponta que Andreia havia retornado de uma viagem transatlântica entre Madrid e o Brasil apenas oito dias antes da cirurgia. A viagem ao exterior constava no prontuário e no questionário de triagem hospitalar.
Andreia e o médico nunca teriam se encontrado pessoalmente em uma consulta antes da cirurgia, segundo Djiane. A primeira vez teria ocorrido no dia dos procedimentos. Ela teria conhecido o trabalho do cirurgião por meio das redes sociais.
De acordo com Djiane, durante o pré-operatório, foi criado um grupo da equipe do hospital com a paciente e com ela, que era acompanhante, em um aplicativo de mensagens para se comunicarem em relação ao quadro de saúde de Andreia.
Necrópsia e causa da morte
Após a morte, o corpo de Andreia foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) de Goiânia. A representação apresentada pela família questiona a atuação durante o exame necroscópico e afirma que o cirurgião teria acompanhado o procedimento no SVO.
De acordo com a peça, o exame do SVO registrou presença de secreção mucóide hemorrágica nas vias aéreas, infartos pulmonares nas bases pulmonares e trombose coronariana aguda no tronco da artéria coronária esquerda. A defesa afirma haver divergência entre esses achados e a causa da morte registrada em documento civil e pede investigação sobre o nexo entre os achados, a cirurgia e o pós-operatório.
A representação também solicita uma perícia médico-legal independente para esclarecer a causa definitiva e imediata da morte e avaliar se havia relação entre as condições clínicas anteriores, o procedimento cirúrgico e as complicações respiratórias apresentadas no pós-operatório.
No dia do enterro, Djiane disse que o médico a encontrou e comentou sobre “devolver” parte do dinheiro que teria recebido da cirurgia.
Pedidos ao Ministério Público
Além da instauração do procedimento investigatório, a família pede a preservação de prontuários, imagens de câmeras de segurança, registros eletrônicos, gravações, documentos médicos e outros elementos que possam contribuir para a apuração.
A defesa também solicita a oitiva dos profissionais envolvidos, a investigação das condições estruturais do hospital e a análise sobre a disponibilidade de leitos e suporte avançado de ressuscitação.
Segundo a representação, a família havia buscado esclarecimentos diretamente com o hospital e com o SVO. O hospital não teria respondido à notificação extrajudicial enviada, enquanto o SVO teria confirmado apenas o recebimento do expediente, sem confirmar a preservação dos registros e imagens solicitados. A própria peça ressalta que a ausência de resposta não constitui presunção de culpabilidade.
A representação foi encaminhada ao Ministério Público de Goiás para que os fatos sejam investigados e para que uma perícia independente esclareça as circunstâncias e a causa da morte.
A CNN Brasil procurou o médico e o hospital responsáveis pela cirurgia, além do Ministério Público de Goiás e do Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás. Até o momento, não obteve retorno. O espaço permanece aberto.

