A crise que vem atingindo as comercializadoras de energia ganhou mais um capítulo. A Safira Energia obteve na Justiça uma proteção de 60 dias contra execuções e cobranças para tentar renegociar cerca de R$ 357,5 milhões em dívidas com credores, em meio a uma deterioração de liquidez que já levou dezenas de outras empresas do setor a buscar mecanismos de reestruturação.
A decisão a qual a CNN teve acesso beneficia quatro empresas do núcleo de comercialização do grupo e suspende, durante o período, a exigibilidade dos créditos relacionados no processo e medidas de constrição patrimonial. A Safira tenta usar essa janela para avançar em uma mediação com credores e evitar, neste momento, um pedido de recuperação judicial ou extrajudicial.
A liminar foi concedida pela 2ª Vara Regional de Competência Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem do Tribunal de Justiça de São Paulo. A medida beneficia Safira Administração e Comercialização de Energia, Safira Artemis Comercialização de Energia, Safira Trading e Geração de Energia e Safira Varejo Comercialização de Energia. As empresas atuam no Ambiente de Contratação Livre e participam do mercado por meio da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica).
Na ação, a Safira alegou enfrentar uma crise econômico-financeira momentânea provocada por falta de liquidez no mercado, volatilidade dos preços de energia, mudanças nos parâmetros regulatórios de precificação e encarecimento do crédito. Segundo o grupo, esses fatores comprometeram o fluxo de caixa e colocaram pressão sobre a continuidade das operações.
A decisão judicial cita ainda uma deterioração expressiva das contas das empresas. As demonstrações financeiras apresentadas no processo mostram que as quatro sociedades passaram de resultados positivos em 2024 para prejuízo líquido em 2025. No mesmo período, o caixa e equivalentes de caixa do grupo caíram de cerca de R$ 27,5 milhões para R$ 14,2 milhões.
O juiz Luis Felipe Ferrari Bedendi afirmou que os dados contábeis dão suporte à crise de liquidez relatada pela Safira e considerou preenchidos, em análise preliminar, os requisitos necessários à concessão da tutela.
A decisão também aponta que a deterioração do crédito já havia se materializado. A Safira Administração aparece como protestada em quatro títulos apresentados pelo Banco Daycoval entre junho e agosto deste ano, por falta de pagamento, no valor conjunto de aproximadamente R$ 667,6 mil.
“Esse quadro indica que a deterioração do crédito já produziu atos formais de cobrança contra ao menos uma das requerentes, e que a ausência de proteção judicial tende a repetir esse cenário perante os demais credores relacionados no documento 9 do evento 1, com o agravamento das obrigações vincendas nos próximos meses e o esvaziamento da utilidade do procedimento de composição em curso”, diz o documento.
A liminar abre agora uma janela de dois meses para que o grupo tente chegar a um acordo. Ao final desse período, a Safira terá de apresentar um pedido principal, que poderá ser a homologação de um plano de recuperação extrajudicial ou um pedido de recuperação judicial. Caso isso não ocorra, a proteção concedida pela Justiça perderá eficácia.
A decisão ocorre em meio à sequência de dificuldades financeiras enfrentadas por empresas do segmento de comercialização de energia. Nos últimos anos, diferentes agentes recorreram à recuperação judicial ou a mecanismos de reestruturação diante de um ambiente marcado por menor liquidez, maior volatilidade de preços e aumento das exigências de crédito e garantias no mercado.
Um levantamento feito pela CNN mostrou que dezenas de empresas recorreram à Justiça para se protegerem de execuções de dívidas. A quebra de comercializadoras gerou um passivo de aproximadamente R$ 10 bilhões.
Procurada, a empresa ainda não retornou o contato.
