Com a morte do rei Harald V nesta sexta-feira (28), aos 89 anos, sobe ao trono o príncipe herdeiro Haakon, de 53 anos, numa altura em que dois grandes escândalos que envolvem a mulher, a princesa Mette Marit e o enteado, Marius Borg Høiby, abalam a família real norueguesa.

Haakon é agora o quarto rei da Noruega na era moderna, iniciada em 1905, quando o país se tornou independente da Suécia e escolheu manter uma monarquia em vez de instaurar uma república.

Com a subida de Haakon ao trono, a princesa Ingrid Alexandra, de 20 anos, torna-se a nova herdeira da Coroa norueguesa. É a primeira mulher a ocupar essa posição em cerca de 600 anos, desde a rainha Margarida, que morreu em 1412. Filha mais velha de Haakon e Mette-Marit, Ingrid Alexandra passa assim a ser a primeira na linha de sucessão depois do pai.

Como será a chegada de Haakon ao trono

A Noruega prepara uma sucessão marcada pela sobriedade, em linha com o estilo discreto da família real. Ao contrário de outras monarquias europeias, Haakon não será coroado, uma vez que a Noruega já não tem coroações. A última coroação foi a de Haakon VII e da rainha Maud, em 1906, sendo que depois a disposição constitucional relativa à coroação foi posteriormente abolida.

Segundo a Reuters, o primeiro passo será uma reunião extraordinária do Conselho de Estado, que junta o novo rei e todo o governo, e que deverá acontecer ainda esta sexta-feira. Será nessa ocasião que Haakon comunicará formalmente a morte de Harald V ao executivo e anunciará o nome e o lema que adotará como monarca.

Como rei, Haakon escolheu ser conhecido como Haakon VIII da Noruega, mantendo a tradição e o lema que foi utilizado pelo pai, pelo avô e pelo bisavô – “Alt for Norge”, ou “Tudo pela Noruega”.

Alguns dias depois, o novo rei prestará juramento perante o Storting, o parlamento norueguês, comprometendo-se a governar o reino de acordo com a Constituição e as leis.

O novo monarca poderá, contudo, optar por realizar uma consagração na Catedral de Nidaros, em Trondheim, seguindo a tradição adotada pelos seus antecessores. Nesse caso, a coroa será exibida durante a cerimónia, mas não será usada pelo rei.

Tradicionalmente, a consagração é seguida por uma viagem do novo rei e da rainha pelo país, permitindo à nova família real apresentar-se aos noruegueses.

“Eu fazia parte da família real, mas não queria falar sobre isso”

Haakon nasceu a 20 de julho de 1973, em Oslo, é o segundo filho do rei Harald V e da rainha Sonja. Tornou-se príncipe herdeiro em 1991, após a subida do pai ao trono, e assumiu as funções de regente em várias ocasiões devido aos problemas de saúde do monarca.

Na vida privada, Haakon mantém a ligação ao mar que o acompanha desde a juventude. Na autobiografia, descreveu os momentos passados na água com a família como uma fonte de paz interior – um lugar onde pode simplesmente estar entre as ondas, longe do peso da coroa.

A adaptação ao papel de membro da família real nem sempre foi fácil. Na autobiografia publicada em 2023, Haakon recordou a ansiedade que sentiu quando frequentou uma escola pública nos anos 1980 e confessou que, enquanto criança, preferia manter-se afastado dos holofotes “porque foi aí que as coisas correram mal”.

“Sim, eu fazia parte da família real, mas não queria falar sobre isso… Na escola, isso deixava-me ansioso”, escreveu na sua autobiografia, citado pela Reuters.

Foi também por isso que decidiu estudar na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em vez de seguir os passos do pai e do avô e frequentar Oxford. Queria estar “o mais longe possível” de casa. Foi na Califórnia que descobriu a paixão pelo surf, que descreveu como um espaço onde “podia ser ele próprio”.

De regresso à Noruega, em 1999, conheceu Mette-Marit num festival de música. A relação provocou polémica devido ao facto de ela ser plebeia, mãe solteira e ter frequentado, durante a juventude, o circuito das discotecas de música eletrónica do país.

A controvérsia acabaria por perder força depois de Harald V receber publicamente Mette-Marit na família. Os dois casaram-se em 2001 e tiveram dois filhos, a princesa Ingrid Alexandra e o príncipe Sverre Magnus. Marius Borg Høiby, filho de Mette-Marit de uma relação anterior, passou também a fazer parte da família.

Agora, Haakon prepara-se para assumir a coroa ao lado de Mette-Marit. Mais de duas décadas depois do casamento do príncipe herdeiro, a coroa norueguesa enfrenta uma situação muito mais delicada.

Em janeiro, documentos divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano revelaram correspondência por email entre Mette-Marit e Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais. Depois de sete semanas sem se pronunciar publicamente, Mette-Marit deu uma entrevista à televisão pública norueguesa NRK, em março, com Haakon ao seu lado.

“A Mette é atenciosa, sensata e muito forte. E é por isso que a terei sempre na equipa quando acontecer algo difícil”, afirmou então o príncipe herdeiro.

Ao mesmo tempo, Marius Borg Høiby, enteado do novo rei, estava a ser julgado por acusações de violação e violência doméstica, que negou. Haakon afirmou que apoiava Marius, mas também manifestou solidariedade para com as alegadas vítimas.

“Apoiamos o Marius na situação em que se encontra. Também cuidamos das outras crianças. Para mim, o mais importante nestes últimos dias tem sido cuidar do rebanho”, disse o então príncipe aos jornalistas à margem de uma visita real.

Em junho, Marius foi condenado por duas acusações de violação e uma de violência doméstica, recebendo uma pena de quatro anos de prisão. Tanto a defesa como a acusação recorreram da decisão.