Uma nova escalada de tensão no Oriente Médio faz os Estados Unidos olharem para um “elefante na sala” que vinham tentando evitar. No sábado (10), os rebeldes iemenitas Houthis voltaram a atacar com mísses a capital da Arábia Saudita, Riade.

A agressão deixou ao menos 12 mortos e mais de 300 feridos, informou a Autoridade de Aviação Civil do reino. Entre os mortos estão quatro sauditas, dois cidadãos de Bangladesh e uma pessoa de cada um dos seguintes países: EUA, Jordânia, Palestina, Síria, Sudão e Egito, informou a autoridade de aviação civil saudita.

“Podemos. Vamos analisar a situação. Acabamos de saber do ataque recente, então tomaremos uma decisão. Agimos muito rapidamente”, disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao ser questionado se Washington planejava se juntar aos ataques sauditas contra os Houthis.

Quem são os Houthis?

O movimento Houthi, também conhecido como Ansarallah (Apoiadores de Deus), é um dos lados da guerra civil no Iêmen. Ele surgiu na década de 1990, quando seu líder, Hussein al-Houthi, lançou a “Juventude Crente”, um movimento de renovação religiosa para uma antiga seita do islamismo xiita chamada zaidismo.

Os zaiditas governaram o Iêmen por séculos, mas foram marginalizados sob o regime sunita que chegou ao poder após a guerra civil de 1962.

O movimento de al-Houthi foi fundado para representar os Zaidis e resistir ao sunismo radical, particularmente às ideias Wahhabi da Arábia Saudita. Seus seguidores mais próximos ficaram conhecidos como Houthis.

Os rebeldes são apoiados pelo Irã, que começou a aumentar a sua ajuda ao grupo em 2014, à medida que a guerra civil escalava e a sua rivalidade com a Arábia Saudita se intensificava.

Por que o conflito com a Arábia Saudita?

Em julho, com a escalada de tensão na guerra dos Estados Unidos com o Irã, e o envolvimento de aliados norte-americanos – como a Arábia Saudita – no conflito, os Houthis anunciaram a imposição de um bloqueio naval ao reino.

O Irã vinha pressionando o grupo a fechar o Estreito de Bab el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho, caso os EUA continuassem a atacar a infraestrutura energética iraniana.

Em comunicado, as forças armadas Houthis declararam “um embargo marítimo contra o inimigo saudita criminoso, com base na lógica de ‘olho por olho’, com efeito imediato…”

Os iemenitas afirmaram ainda que a decisão foi uma resposta ao que classificaram como um “cerco injusto e opressor” imposto ao seu país pelos sauditas.

Então, iniciou-se a troca de disparos. Os Houthis realizaram uma série de operações militares “em grande escala” contra tropas sauditas, utilizando mísseis balísticos e drones em diversas áreas do país.

As ofensivas ainda tiveram como alvo instalações de energia e cidades próximas à fronteira entre os dois países. Os ataques provocaram uma interrupção temporária nas operações de algumas instalações da Aramco, estatal saudita de petróleo. Em resposta, a Arábia Saudita realizou ataques aéreos contra áreas do Iêmen controladas pelos Houthis.

Ao longo da escalada nesta frente do conflito, o grupo chegou a expandir seu domínio em áreas da costa do Mar Vermelho.

Novos bombardeios

No último domingo (4), os Houthis disseram que 60 ataques sauditas atingiram o Iêmen, inclusive a capital do país, Sanaa. O grupo afirmou ainda ter contra-atacado, lançando mísseis e drones contra a Arábia Saudita. Em paralelo, o governo do Iêmen anunciou o início de uma grande operação militar para conter os avanços dos Houthis no Mar Vermelho.

Na sequência, na quarta-feira (7), os rebeldes iemenitas atacaram o Aeroporto Internacional de Áden com mísseis balísticos e drones carregados com explosivos.

No dia seguinte, quinta-feira (8), quando os Houthis atacaram o Aeroporto Internacional Rei Khalid, na capital saudita Riad, com um míssil balístico. Horas antes, a Arábia Saudita havia informado que um ataque ocorrido no meio da semana contra o mesmo aeroporto havia deixado uma pessoa morta.

Neste sábado, o grupo voltou a atacar o aeroporto. Todos os voos foram desviados e governos ocidentais orientaram seus cidadãos a evitar a área.

Hospitais ficaram lotados com feridos transportados por ambulâncias e helicópteros, relataram fontes. Alguns pacientes estavam em estado crítico.

Resposta aos ataques

A coalizão liderada pela Arábia Saudita afirmou que o ataque foi um crime de guerra e que haverá retaliação. O major-general Turki Al-Malki, porta-voz do grupo militar, afirmou que a ofensiva é um crime de guerra e fere o direito internacional humanitário.

“Trata-se de um ato hediondo que contraria todos os princípios, valores e normas éticas. Portanto, o Comando das Forças Conjuntas da Coalizão responderá de forma decisiva a este ataque terrorista, em conformidade com o Direito Internacional Humanitário Consuetudinário”, comentou.

Desde o início, os EUA vinham evitando intervir nessa frente do conflito. Trump apontava como uma linha vermelha a participação direta em ataques cinéticos contra os Houthis. Até o momento, o apoio militar norte-americano tem se limitado ao fornecimento de informações de inteligência e dados para definição de alvos para os ataques sauditas.

O presidente norte-americano classificou o ataque deste sábado como “terrível” e destacou que pretende falar com Mohammed bin Salman, herdeiro saudita.

Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, também se pronunciou sobre o ocorrido, afirmando que os Estados Unidos condenam “veementemente” esta e outras ações recentes dos Houthis.

Ele também confirmou que um cidadão americano morreu neste sábado em decorrência do ataque.

“Esses ataques repreensíveis demonstram um flagrante desrespeito pela vida de civis inocentes. Eles devem parar agora”, alertou.

“Nós nos solidarizamos com o Reino da Arábia Saudita e seu povo e apresentamos nossas condolências às vítimas e suas famílias”, finalizou.

Com informações da CNN Internacional e de Reuters

O que é o Estreito de Bab el-Mandeb, alvo de bloqueio dos Houthis