Em um café tranquilo popular por seu Wi-Fi gratuito e bom café, uma designer de interiores russa acessa uma rede privada virtual (VPN) para poder conversar com amigos no exterior usando o aplicativo de mensagens americano WhatsApp, que é bloqueado dentro da Rússia.
Mais tarde, ela desliga a VPN para comprar uma passagem no site da Ferrovia Russa, que impede o acesso de qualquer pessoa que use ferramentas para ocultar sua localização. Em seguida, ela pega um segundo celular para verificar mensagens de clientes no aplicativo controlado pelo Estado, MAX.
Desde que o Kremlin intensificou o controle sobre a internet neste ano, os russos têm recorrido a soluções técnicas cada vez mais complexas para contornar o monitoramento estatal e as restrições a aplicativos estrangeiros populares, como o WhatsApp, da Meta Platforms, e o mensageiro Telegram.
A maior repressão desse tipo sob o governo do presidente Vladimir Putin já chegou a interromper, em alguns momentos, serviços bancários, de transporte e comércio eletrônico, irritando a população antes de uma eleição parlamentar em setembro, segundo declarações de partidos de oposição próximos ao Kremlin, blogueiros influentes e líderes empresariais. Até mesmo alguns influenciadores de redes sociais, que geralmente evitam política, criticaram as restrições.
A frustração com as limitações — junto ao aumento dos preços, elevação de impostos e o cansaço da guerra — é amplamente considerada como um fator que contribuiu para a queda na popularidade de Putin, que passou de 75,1% em fevereiro para 65,6% em abril, segundo o instituto estatal VTsIOM, o menor nível desde que ele iniciou o conflito em larga escala na Ucrânia em 2022. Atualmente, está em cerca de 67%.
Autoridades têm incentivado os russos a usar alternativas estatais a aplicativos e sites estrangeiros em uma campanha por “soberania digital”. Mas alguns usuários demonstram cautela após alertas de críticos do Kremlin e de algumas empresas de tecnologia ocidentais de que o MAX poderia ser usado para rastreá-los — algo que a gigante de tecnologia VK, sua proprietária, nega.
Isolar o aplicativo em um segundo celular parece mais seguro, disse Irina, uma designer de interiores de 41 anos.
“Claro que tudo isso é uma enorme dor de cabeça, mas o que mais podemos fazer?”, disse ela, pedindo para ser identificada apenas pelo primeiro nome devido à sensibilidade do tema. “Você se acostuma e passa os dias ligando e desligando VPNs, alternando entre diferentes mensageiros e trocando entre diferentes países virtuais ou celulares para usar os aplicativos e sites de que precisa.”
A onda dos downloads por VPN
As VPNs funcionam roteando a conexão de internet do usuário por servidores privados fora da Rússia.
Apenas em março, houve 9,2 milhões de downloads dos cinco serviços de VPN mais populares na loja Google Play, 14 vezes mais do que no mesmo mês do ano passado, informou o jornal russo Kommersant, citando dados da Digital Budget, uma consultoria de Moscou que monitora o comportamento online.
“Nunca vimos esse tipo de taxa de adoção antes”, disse Sarkis Darbinyan, ativista russo pela liberdade na internet baseado em Lisboa.
Moscou classificou Darbinyan como “agente estrangeiro”, um termo usado para pessoas que o governo considera envolvidas em atividades anti-Rússia.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou repetidamente que o controle da internet é necessário enquanto a Rússia está envolvida no que autoridades descrevem como um confronto existencial com o Ocidente sobre a Ucrânia.
No entanto, Putin instruiu o governo em abril a agir com mais cautela, dizendo a parlamentares que era “contraproducente” “focar apenas em proibições e restrições”.
Autoridades do governo não responderam às perguntas para esta reportagem.
Embora muitos países autoritários imponham limites rígidos ao uso da internet, os russos haviam se acostumado a um certo grau de liberdade online.
Os serviços de segurança há muito tentam silenciar críticos internos, mas antes da guerra na Ucrânia as autoridades raramente interferiam na capacidade das pessoas de usar aplicativos estrangeiros ou acessar conteúdo da mídia ocidental.
Desde o ano passado, o serviço de segurança FSB, sucessor da antiga KGB soviética, vem ordenando que empresas de telecomunicações desliguem a internet móvel por dias seguidos em regiões da Rússia, alegando que drones de ataque ucranianos podem usá-la para navegação.
As autoridades também vêm bloqueando ou reduzindo a velocidade de conexão de uma lista crescente de aplicativos e sites, que o órgão regulador de comunicações Roskomnadzor afirma serem plataformas de conteúdo ilegal e extremista.
O WhatsApp e o Telegram acusaram a Rússia de tentar forçar os usuários a adotarem aplicativos menos seguros, controlados pelo governo.
As interrupções se intensificaram em março, com uma queda de conexão de quase três semanas em Moscou, o que irritou altos burocratas que dependem da internet e do Telegram para coordenar votos para o partido governista Rússia Unida, segundo duas fontes próximas ao Kremlin e analistas.
“O problema não é se o regime conseguirá garantir o resultado que deseja (conseguirá), mas se o processo eleitoral será tranquilo”, escreveu em abril Tatiana Stanovaya, pesquisadora sênior do Carnegie Russia Eurasia Center.

