O proprietário de um restaurante com duas estrelas Michelin na Coreia do Sul enfrenta multas pesadas e até um ano de prisão por decorar uma sobremesa do tipo sorbet com formigas.
O problema não é o fato de insetos terem aparecido no cardápio. A questão, na verdade, reside nas leis alimentares específicas sul-coreanas, que regulamentam quais insetos podem ser servidos aos clientes.
Como é comum no país, a promotoria não divulgou o nome do restaurante nem o do proprietário. Autoridades informaram à CNN que o estabelecimento em questão vinha servindo formigas desidratadas, importadas dos EUA e da Tailândia, desde 2021.
A acusação sustenta que o restaurante serviu cerca de 49 mil formigas em 12.200 porções da sobremesa.
Embora tenha sido o chef quem preparou o prato e o incluiu no cardápio, a promotoria indiciou o proprietário do restaurante por violação da Lei de Saneamento Alimentar. Não está claro de imediato se o chef é o proprietário do restaurante.
Segundo o governo, o problema não era apenas a presença de formigas nos alimentos. O Ministério de Segurança de Alimentos e Medicamentos informou que os investigadores “constataram que as formigas desse restaurante continham níveis de metais pesados até 55 vezes superiores ao limite máximo permitido para outros insetos comestíveis”.
A promotoria solicitou ao tribunal a aplicação de uma multa de 20 milhões de wons (cerca de US$ 13.580) ao restaurante, citando um lucro de 120 milhões de wons (US$ 81.470) obtido nos últimos quatro anos.
A sentença está prevista para ser anunciada em setembro.
Consumo de insetos
Defensores na Coreia do Sul e em outros lugares têm argumentado, cada vez mais, que os insetos são uma fonte de proteína tão confiável quanto outros produtos de origem animal.
Dada a facilidade com que são criados e coletados — exigindo menos recursos do que a pecuária tradicional —, os insetos representam uma maneira eficaz de combater as mudanças climáticas.
A culinária sul-coreana não vê o consumo de insetos com maus olhos. O beondegi, por exemplo, é um petisco tradicional de pupas de bicho-da-seda cozidas no vapor, servido por vendedores ambulantes em copos de papel.
No entanto, segundo a Lei de Saneamento Alimentar do país, apenas 10 espécies de insetos — incluindo gafanhotos e bichos-da-seda — são permitidas para consumo humano. Servir qualquer outro inseto, como formigas, exige autorização especial das autoridades.
Advogados que representam o restaurante afirmaram que o chef utilizava formigas para conferir acidez ao prato, sem saber que a receita — que ele já havia preparado nos EUA e na Europa — é proibida por lei na Coreia do Sul, segundo a imprensa local.
Eles também declararam que o restaurante servia as formigas a apenas cerca de 60% dos clientes e que o ingrediente estava claramente identificado no cardápio como parte do prato.
De acordo com um relatório de 2013 da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, na sigla em inglês), pelo menos dois bilhões de pessoas em todo o mundo já consumiam insetos diariamente.
Segundo a FAO, os grupos de insetos mais consumidos mundialmente são formigas, besouros, abelhas, lagartas, cigarras, grilos, libélulas, moscas, gafanhotos, percevejos, gafanhotos migratórios, cochonilhas, cupins e vespas.
Essa tendência ganhou força na Europa e nos Estados Unidos nos últimos anos: um relatório da Global Market Insights projetou anteriormente que o mercado de informações comestíveis dos EUA cresceria para quase US$ 80 milhões até 2024, com a Europa também registrando crescimento.
Entre os que promovem com entusiasmo o consumo de insetos no Ocidente está o chef Joseph Yoon, radicado em Nova York e diretor executivo da Brooklyn Bugs — uma organização que busca mudar a percepção do público sobre esses pequenos animais.
Em sua atuação como chef convidado e defensor da causa, Yoon já preparou pratos como tempurá de tarântula e pipoca caramelizada com gafanhotos.
Em Copenhague, o Alchemist — restaurante com duas estrelas Michelin e atualmente o quinto colocado na lista *The World’s 50 Best Restaurants* — uniu-se a cientistas para fermentar laticínios utilizando formigas, tanto vivas quanto congeladas.
O resultado foi o popular “ant-wich”: um sorvete servido entre biscoitos em formato de formiga, acompanhado de um gel infusionado com o inseto.

