A senadora e ex-ministra da Segurança do governo de Javier Milei, Patricia Bullrich, defendeu o direito do presidente da Argentina de apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) no Brasil e pediu ao presidente Lula que envie o embaixador brasileiro Julio Bitelli de volta a Buenos Aires.
Em uma declaração ao Senado argentino nesta quinta-feira (6), Bullrich afirmou que Lula já demonstrou apoio a diversos candidatos na América Latina, incluindo Luis Arce, na Bolívia, Gustavo Petro, na Colômbia, e Yamandú Orsi, no Uruguai.
Ela também relembrou a relação entre o presidente brasileiro e o político argentino Sergio Massa, que disputou a presidência com Bullrich e Milei na eleição de 2023.
“Das primárias saíram quatro candidatos: eu, o atual presidente, Massa e (Myriam) Bregman. O que Lula fez? Recebeu Massa na porta do Palácio do Planalto, abraçando-o e dizendo: ‘Espero que você seja o próximo presidente da Argentina’. Então, quando o nosso presidente vai ao Brasil, com todo o direito político de apoiar quem ele acha que deve apoiar, isso é considerado uma interferência”, afirmou a senadora, sem citar diretamente o candidato à Presidência pelo PL (Partido Liberal).
Em agosto de 2023, Massa esteve no Brasil enquanto ministro da Economia da gestão do presidente Alberto Fernández e se reuniu com Lula para discutir detalhes de um novo mecanismo de financiamento ao comércio bilateral.
Lula não declarou apoio formal ao então candidato governista, mas, conforme apurou a CNN à época, uma equipe de marqueteiros do PT (Partido dos Trabalhadores) atuou na campanha de Massa na reta final das eleições.
Patricia Bullrich relembrou ainda a visita de Lula no ano passado à ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que está em prisão domiciliar.
“Somos democráticos e permitimos [a visita], o nosso país não disse uma palavra, o presidente não disse uma palavra, e a Justiça concedeu a possibilidade de ver Cristina Fernández de Kirchner em sua residência, na condição de detenta”, afirmou a ex-ministra.
“O mesmo não aconteceu com o presidente argentino, que pediu para se encontrar com Bolsonaro e não teve permissão”, acrescentou ela. A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro pediu autorização em julho ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), para que Milei visitasse Bolsonaro no local onde ele cumpre prisão domiciliar humanitária.
No entanto, horas após a solicitação, Moraes decidiu manter a prisão domiciliar do ex-presidente, mas suspendeu por 30 dias seu direito de receber qualquer tipo de visita, inclusive de familiares, com exceção de médicos, fisioterapeutas e advogados.
A aliada de Milei ainda disse que a Argentina não deve ser tratada como um país de “segunda categoria”: “A Argentina tem o direito, assim como o nosso presidente tem o direito, de apoiar quem quiser, tal como fez o presidente do Brasil.” No entanto, ela ponderou que é sempre preciso cuidar do tom e do vocabulário adotado.
Por fim, Bullrich enviou uma mensagem direta ao presidente Lula, pedindo que o embaixador Julio Bitelli retorne a Buenos Aires.
“É isso que queremos: separar a política das relações institucionais estratégicas que a Argentina e o Brasil sempre mantiveram. […] Considero muito importante que essas relações sejam restabelecidas e que a questão política seja separada. O Brasil está em período eleitoral, o que gera uma situação de maior tensão. Mas coloquemos os dois países no mesmo patamar, e os fatos também”, completou.
O governo brasileiro decidiu nesta semana não enviar Julio Bitelli de volta para a Argentina e rebaixar a relação diplomática com o governo de Javier Milei para o nível de encarregados de negócios.
Bitelli foi chamado para consultas um dia após o presidente argentino participar da Convenção Nacional do PL, em São Paulo, e chamar Lula de “presidiário” e o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca”. Milei repetiu e defendeu as ofensas em entrevistas posteriores a canais argentinos.
Após o rebaixamento das relações, a Argentina anunciou que não tomará medidas diplomáticas em resposta.
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