Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio a um impasse diplomático entre os dois países, confirmou o Itamaraty nesta terça-feira (4). Ao Hora H, o ex-embaixador do Brasil nos EUA Rubens Barbosa, e o analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna comentam o tema.
A medida é interpretada como uma retaliação americana à demora do governo brasileiro em conceder o agrément — autorização formal — ao embaixador indicado pelos EUA para atuar em Brasília, Daniel Pérez.
Para Rubens Barbosa, que já atuou como embaixador do Brasil em Washington, a situação representa o ponto mais grave de uma crise que já dura mais de um mês. “Eu acho que está criada já há mais de um mês uma crise política e diplomática em paralelo à crise comercial e econômica entre o Brasil e os Estados Unidos”, afirmou.
O analista de internacional Lourival Sant’Anna adotou uma leitura mais cautelosa sobre o episódio. Para ele, a medida americana não representa uma escalada, mas sim um aviso diplomático.
“É apenas um aviso dos Estados Unidos, não é uma escalada. Os Estados Unidos poderiam ter adotado medidas mais extremas, como declará-la persona non grata”, ponderou.
O impasse em torno do agrément
Lourival Sant’Anna detalhou os bastidores do impasse. Segundo ele, o nome de Daniel Pérez foi anunciado publicamente antes de ser comunicado pelos canais diplomáticos sigilosos, o que gerou desconforto no Itamaraty.
Além disso, o próprio perfil do indicado teria contribuído para a resistência brasileira.
“Deixou transparecer a informação de que ele vem para, de uma certa forma, fiscalizar as eleições brasileiras”, disse o analista, acrescentando que isso “criou muito incômodo no governo brasileiro”.
Rubens Barbosa reforçou que o processo foi conduzido de forma pouco ortodoxa pelos americanos. “Eles anunciaram o nome, começaram a examinar no Senado e depois disso, nem foi aprovado ainda no Senado, eles pediram o agrément”, relatou.
Risco de escalada e o papel do contexto eleitoral
Rubens Barbosa alertou que, em ano eleitoral, a resposta do governo brasileiro é imprevisível e pode aprofundar ainda mais a crise.
“Se houver declarações inflamadas, políticas para consumo interno, soberania, então você vai ter uma escalada ainda maior da crise”, advertiu. Para ele, a saída mais estratégica seria uma resposta moderada, com negociação direta com o Departamento de Estado e a concessão do agrément em breve prazo.
Lourival Sant’Anna, por sua vez, defendeu que a questão diplomática e a comercial devem ser tratadas como instâncias separadas. Ele argumentou que a revogação do visto é uma decisão do Departamento de Estado, distinta das disputas tarifárias e comerciais em curso.
“São quatro instâncias de decisão que são diferentes, as pessoas confundem”, afirmou.

