Imagem de copo de brinde do maior evento do café em Minas, a SIC em novembro de 2026

Eu vinha tão empolgada aqui na coluna com as boas notícias do mundo dos livros que quase falei de novo no tema nesta edição do “Além da Xícara”, mas o café, como sempre, furou a fila. É que ele está prestes a completar 300 anos de Brasil, e aniversário desse tamanho não se organiza de última hora.

Faça as contas comigo: em 1727, o sargento-mor Francisco de Melo Palheta voltou da Guiana Francesa com as primeiras mudas de café e as plantou em Belém, no Pará. Quem acompanha a coluna lembra que, na edição da Copa, eu já tinha contado que o maior produtor de café do mundo começou com sementes… francesas. Pois bem: 1727 + 300 = 2027. Ou seja, estamos oficialmente na véspera da festa. E a primeira grande comemoração tem data e endereço marcados aqui em Minas. Acompanhe!

Um começo meio desajeitado

Os paraenses que me perdoem, mas o café não se deu muito bem com o clima amazônico. Foi preciso paciência e uma mudança de endereço: por volta de 1760, o cultivo desceu para o Rio de Janeiro. No início do século XIX, avançou pelo Vale do Paraíba, entre o Rio e São Paulo, e subiu as serras de Minas Gerais, onde finalmente encontrou o solo e o clima dos sonhos.

Dali em diante, foi só alegria (para a economia, pelo menos). Na década de 1830, o café já era o principal produto de exportação do país, puxando ferrovias, urbanização e boa parte da riqueza nacional. Nossa Zona da Mata que o diga: muito do que Juiz de Fora se tornou no século XIX tem cheirinho de café passado.

Antes de sair do tema origem, porém, vamos ser justos, o “café amazônico” vem ganhando espaço recente. Programas, produtores e incentivos vêm ganhando o mundo com uma cultura de alta produtividade e sustentável de cafés robusta e canéfora, apesar de Minas e São Paulo continuam dominando o tipo mais  valorizado que é o Arábico.

A festa de aniversário tem endereço

De 11 a 13 de novembro, o Expominas, em Belo Horizonte, recebe a Semana Internacional do Café (SIC) 2026. E o tema não podia ser mais apropriado: “Às vésperas dos 300 anos do café no Brasil: construindo a próxima agenda global”.

O evento é promovido há 14 anos pelo Governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), em parceria com o Sistema Faemg/Senar, o Sebrae e a Expresso & CO, com apoio institucional do Sistema Ocemg.

Traduzindo para quem é “só de xícara”, como eu: é o lugar onde produtor, exportador, torrador, comprador, barista e curioso se encontram para discutir o futuro do nosso cafezinho, num momento em que tecnologia, clima e novas regras internacionais estão mudando o jogo.

E aqui como curiosa e “coffee lover” abro mais um parêntese ao estranhar a palavra “torrador”. É que com o advento de pessoas físicas torrando café de forma artesanal, este já não é um espaço tão exclusivo do pessoal da indústria, referente ao qual a palavra “torrefador” é muito mais adequada, referindo-se a empresas/produtores que processam o café em larga escala.

Conilon: o primo menos exigente

E um assunto que promete render boa conversa na SIC é a expansão do café conilon em Minas, isso, em Minas, onde o arábica sempre reinou. Pois, se o arábica é aquele parente que só viaja de primeira classe, exige altitude certa e temperatura amena, o conilon é o primo que topa calor, altitude mais baixa e ainda ajuda a lavar a louça.

E ajuda mesmo. Pesquisas de campo da Epamig mostram que um hectare de conilon irrigado pode render de 120 a 150 sacas, enquanto o arábica irrigado fica em torno de 60. Para o pequeno produtor, isso pode significar mais renda; para áreas maiores, uma chance de recuperar terras degradadas. O Norte de Minas e os Vales do Jequitinhonha e do Mucuri aparecem como regiões com bom potencial para essa nova safra de oportunidades.

O que tem no cardápio da SIC 2026

Confesso que fui fuçar a programação com a mesma curiosidade de quem abre o cardápio de uma cafeteria nova. (Eu gostaria de estar no evento, sem dúvida, você, não?). E a primeira coisa que me chamou a atenção foi quem abre a festa: Vanusia Nogueira, diretora-executiva da Organização Internacional do Café (OIC). Ou seja, quem está no comando da principal entidade do café no mundo vem a Minas contar para onde o setor está indo, qual o papel do Brasil nessa história e como produtores, indústria e organismos internacionais podem caminhar juntos. Para quem, como eu, só via o café chegar pronto na xícara, é uma chance rara de espiar a cozinha.

Depois, é escolher a xícara. Tem as Rodadas de Negócios, onde produtor e comprador sentam à mesma mesa (e muito negócio nasce ali, entre um gole e outro), e as Salas de Cupping, que explico logo abaixo, porque merecem.

A novidade que mais me animou foi o Summit Mulheres. Faz todo o sentido: 2026 é o Ano Internacional da Mulher Agricultora, e quem já visitou uma fazenda de café sabe que tem muita mulher tocando a lavoura, os números e o futuro da família. Liderança feminina, sucessão familiar e empreendedorismo estão na pauta, e eu já quero ouvir essas histórias.

Para quem gosta de ver gente talentosa em ação, tem o Campeonato Brasileiro de Barista. Eu, que já fico encantada com um coraçãozinho desenhado na espuma do leite, imagino o que sai dali! Os mais técnicos vão se esbaldar nos fóruns DNA Café e da Cafeicultura Sustentável. E, para fechar, as premiações que já viraram tradição: Coffee of the Year, Florada Premiada, Espresso Design e Torrefação do Ano. Uma espécie de Oscar do café, com direito a torcida e tudo.

Curiosidade sobre o cupping: é a prova técnica de café usada por classificadores do mundo inteiro. O café é moído, recebe água quente direto na xícara e, depois, é provado com uma colher, sorvido com um belo barulho. Sim, ali fazer “slurp” não é falta de educação: é técnica! O som ajuda a espalhar a bebida pela boca e a perceber aromas e sabores.

O brinde da véspera

Há quase 300 anos, um punhado de mudas chegou ao Pará meio sem jeito, sem saber se ia vingar. Hoje, Minas conta seus produtores de café às centenas de milhares e se prepara para mostrar ao mundo que dá para produzir muito, com qualidade e sem derrubar floresta.

O aniversário é só em 2027, mas o brinde, de café, claro, já pode começar em BH. Afinal, trezentos anos depois, ele continua sendo aquele convidado que chega cedo, fica até tarde e ninguém quer que vá embora.

Serviço Semana Internacional do Café (SIC) 2026 Quando: 11 a 13 de novembro Onde: Expominas, Belo Horizonte. E para quem se interessou tem espaço de credenciamento para curiosos e quem busca se aventurar nesta indústria, deixo aqui o link para clicar.