
Sabe quando a gente acorda e a primeira coisa que vê é uma notícia boa, daquelas que fazem a xícara de café ficar ainda mais saborosa? Pois foi assim que recebi os dados da pesquisa Panorama do Consumo de Livros, da Câmara Brasileira do Livro com a Nielsen BookData. O Brasil ganhou 3 milhões de novos leitores em um único ano. Isso mesmo, três milhões de pessoas que não compravam livros e passaram a comprar. E não, não é erro de digitação.
A pesquisa, que ouviu 16 mil pessoas em todo o país com margem de erro de apenas 0,8%, mostrou que 18% da população adulta comprou ao menos um livro em 2025, contra 16% no ano anterior. Pode não parecer muito, mas em números absolutos são 3 milhões de novos consumidores chegando ao mercado editorial. A presidente da CBL, Sevani Matos, resumiu bem: “O livro mantém sua relevância e há espaço consistente para a expansão do mercado editorial brasileiro.”
Quem está puxando essa virada
O dado que mais me chamou a atenção foi o perfil desses novos leitores. O maior crescimento veio dos jovens de 18 a 34 anos, que avançaram juntos 3,4 pontos percentuais. Exatamente a geração que a gente imaginava perdida para o scroll infinito do TikTok e do Instagram. Pois eles estão redescobrindo o livro, e adivinha por onde? Pelas redes sociais.
56% dos consumidores de livros fazem compras on-line e 22% descobrem lançamentos por criadores de conteúdo nas redes sociais. O booktok, o bookstagram, os influenciadores literários que a gente segue e ama (às vezes, odeia – tem muita polêmica neste universo também) eles estão funcionando. As comunidades virtuais se tornaram uma porta de entrada importante para novos leitores, como disse a própria CBL. O digital não matou a leitura. Está ressuscitando ela.

Novas vozes, novas histórias
Outro número que me emocionou: mulheres pretas e pardas representam 30% do total de consumidores de livros e, quando vindas da classe C, formam hoje o maior grupo consumidor do país. Pessoas pretas e pardas, somadas, representam 49% dos consumidores.
E o perfil dos novos leitores é formado por mulheres, negras, de classe C e do Nordeste. Além disso, o mercado editorial vem descobrindo e promovendo muitos novos (e antigos) escritores e escritoras brasileiras. Nunca se publicou tanto também. São novas vozes despertando o interesse pelo livro e pela leitura. É bonito demais para não comemorar.
2 milhões de brasileiros nas rodas de leitura
E tem mais um dado que conversa diretamente com o que a gente vive por aqui no Além da Xícara. Os clubes de leitura cresceram 35% em três anos no Brasil. Hoje, mais de 2 milhões de brasileiros fazem parte de algum clube de leitura, e o Brasil tem mais de 410 eventos literários cadastrados, entre bienais e feiras do livro.
Acho que isso explica por que tanta gente se interessou quando escrevi sobre o Silent Book Club aqui na coluna. A leitura em grupo virou um fenômeno social, um ponto de encontro num mundo cada vez mais fragmentado. Como eu disse na época: o clube não compete com a tela sendo mais estimulante. Ele funciona porque é mais devagar.
O que está por trás desse crescimento
Os dados mostram que a ficção, especialmente o gênero Young Adult, teve papel decisivo nessa alta. A pesquisa da Nielsen BookData, explicou que são obras voltadas a um público mais jovem e conectado, e isso dialoga diretamente com os resultados da pesquisa. Os livros de colorir também entraram como um fenômeno relevante: 7,1% da população adulta, cerca de 11 milhões de pessoas, comprou ao menos um exemplar.
Os audiolivros também estão ganhando espaço: representam 24% da última compra de livros digitais, contra 19% em 2023. E as livrarias seguirm firmes como espaço de afeto: 53% dos consumidores disseram que a livraria é um lugar para relaxar e explorar sem pressa. Livro está até sendo considerado objeto de desejo e de luxo.
Conclusão
Ainda temos um caminho enorme pela frente. Apenas 18% da população adulta comprou ao menos um livro, o que significa que 82% ainda estão fora desse mercado. Mas os números mostram uma direção, e ela é animadora. Pela primeira vez em muito tempo, a notícia sobre leitura no Brasil não é de queda. É de crescimento. E são os jovens, as mulheres pretas e pardas, o Nordeste e os clubes de leitura que estão fazendo isso acontecer.
Se o feed não matou a leitura, talvez esteja ajudando a reinventar ela. E para quem, como eu, vive cercada de livros, gatos e café, não há notícia melhor para começar o dia. Como diz a frase que guia esta coluna: “A arte de levar a vida com leveza está em deixar para trás o que não te pertence.” Hoje, o que fica para trás é o pessimismo. A leitura no Brasil está renascendo, e isso merece ser celebrado, de preferência com uma xícara na mão e um bichano no colo.
Fontes: CBL, Nielsen BookData, Ministério da Cultura, 2026
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