CArol canedo
WhatsApp Image 2026 09 24 at 20.57.35
Carol Canêdo apresenta a obra “Entre nós”, primeira antologia da editora Autoria – Foto: divulgação

“Entre nós”, primeira antologia da Editora Autoria, acaba de nascer, revelando textos literários que abordam as relações entre mãe e filho. E é na fronteira entre aquilo que é comum à experiência materna e aquilo que pertence à singularidade de cada sujeito que ela se insere. Na capa, a imagem anuncia o gesto que atravessa a obra. Um pulmão em preto e branco. Suas duas partes estão ali. Preservadas. Cada uma com suas individualidades. Contudo, no centro, ramificações vermelhas entrelaçam-se vigorosamente. Conectam os dois lados. Uma ligação vital, entrecortada por afetos e inquietações compartilhadas.

“Vivemos no ‘entre’ e escrevemos a partir dele. Nossa produção escrita, artística, ela é também atravessada pelo outro, pela cultura, pelo repertório. Então, no fundo, as interseções são o nosso território. Neste livro, estamos entre nós, mulheres, de modo que podemos compartilhar sem reservas as nossas experiências. Estamos entre os nós que desatamos ao longo da vida nas nossas relações e também estamos entre os nós que mantêm firmes os fios da nossa existência. Entre Nós!”, explica Carol Canêdo, editora e idealizadora do projeto.

Como diz Carol nesta entrevista, “Entre nós” é um “percurso de construção”, e, já no começo da travessia, existia a convicção de que não seria uma coletânea sobre maternidade. A ideia era refletir sobre o impacto das relações. Relações que “são diferentes, subjetivas, mas também universais”, aponta a também escritora. “Era este o recorte que me interessava: a liberdade para falar dos afetos.” E assim foi feito.

Entre as 27 autoras, há filhas, mães, avós, mulheres que questionam a maternidade, mulheres que não desejam ser mães, relações marcadas pela ausência, pelo conflito, pela memória: Anna Pereira Avelar, Ariele Sousa, Bruna Malagoli, Carol Tafuri, Célia Barbosa, Cristina Araújo, Cynthia Hosken, Daniela Martins, Fernanda Fortes, Fernanda Polisseni, Gabi Frossard, Giovana Amorim Freitas, Isabela Conti, Ivone Adelina, Jéssica Peixinho, Juliana Castelano, Larissa Jamarchi, Lilian Rodrigues, Loane Costa Machado, Luciene Teixeira, Luiza Carvalho, Luiza Rocha, Maria Luiza Stehling, Nathalia Bertolozo, Selma Carla, Silvana Ferreira, Vanessa Archanjo Marculino. A obra ainda conta com texto de orelha escrito pela psicanalista Fernanda Viglioni e apresentação assinada pela jornalista Sara de Moraes.

E se existe uma pluralidade de vozes, com profissões, idades e histórias familiares diferentes, também há uma diversidade revelada nos textos. Há criações mais confessionais, narrativas, ensaísticas e poéticas. E uma característica muito particular dessa antologia é reunir, em sua maioria, mulheres que, até então, não haviam experimentado o lugar de autoria literária.

Carol volta à coluna Sala de Leitura depois do encerramento das atividades da casa no Granbery. Por isso, conversamos sobre “Entre nós”— lançado ontem, no auditório do Centro Médico Monte Sinai, e à venda no perfil da editora no Instagram —, mas conversamos também sobre o que significou deixar aquele espaço, desejado desde os tempos da faculdade de Letras, e seguir por outras veredas. Conversamos sobre o caminho que começa a ser percorrido a partir de agora.

CAPA DA ANTOLOGIA ENTRE NOS
Capa da antologia “Entre nós” – Foto: Giovani Lopes

Marisa Loures — “Entre nós” é a primeira antologia publicada pela Autoria. Por que começar justamente pela relação entre mães e filhos?

Carol Canêdo — Para começar do começo. É este o olhar que nos inaugura no mundo e que impacta de forma profunda a constituição das nossas outras relações e o nosso próprio olhar. Além disso, essa é uma questão para as mulheres contemporâneas e a primeira antologia da nossa editora precisava colocar em pauta a mulher, com suas angústias e delícias.

— O que significou convidar mulheres que não se reconheciam necessariamente como escritoras para construir uma obra literária?

— A Autoria nasceu com este propósito: aproximar a arte da vida comum. A antologia é um projeto coerente com isso. Como foi um percurso de construção, eu pude ver essas mulheres se transformarem em autoras e isso foi bonito demais de assistir. Todas as ações e exercícios que envolveram esse caminho foram propostos com a finalidade de criar as condições adequadas ao desenvolvimento da escrita criativa e íntima e de conferir qualidade aos textos produzidos. A luz que se acende numa pessoa quando ela percebe que pode mais do que sabia é algo que ilumina quem está em volta. São 27 mulheres que há alguns meses não acreditavam que podiam escrever um livro, que o que tinham para contar era interessante, bonito. Agora, elas sabem: a arte e a literatura são coisas de gente comum e expressam nossa humanidade. Poucos produzirão obras-primas. São poucos os Guimarães e as Clarices. Mas muitos podem nos afetar, nos atravessar e nos inspirar. Às vezes (muitas vezes), o que falta é oportunidade e alguém dizer: “você pode!”. Nesta antologia, eu fiz exatamente o mesmo que fiz em cada dia de Casa de Cultura: eu abri a porta.

— As autoras têm profissões, idades, histórias familiares e relações com a maternidade muito diferentes. Essa diversidade aparece também na própria escrita: há textos mais confessionais, narrativos, ensaísticos, poéticos, cartas, memórias, ficções. Você já imaginava que essa diversidade de experiências produziria uma diversidade tão grande de formas e vozes, ou isso foi uma descoberta do próprio processo?

— Eu previa, até porque, quando convidei essas mulheres, eu já tinha notícia de quem elas eram. Claro que era uma previsão, e isso não é preciso. Então, eu não sabia exatamente que história e que perfil haveria na escrita de cada uma, que escolhas fariam, mas sabia e provoquei a pluralidade.

 

Parte das autoras da antologia entre nos 1024x683 1
“Entre nós” reúne autoras com diferentes histórias, idades, profissões e relações com a maternidade – Foto: Giza Gomes

— Até que ponto você precisou criar uma unidade para o livro e, ao mesmo tempo, resistir à tentação de uniformizar as autoras?

— Essa tentação nunca existiu. O que me encanta é o que difere entre nós. No entanto, havia a preocupação de que não criássemos um Frankenstein! Era preciso coerência e harmonia. O que temos é um emaranhado de fios que se enlaçam, conectando as histórias, os textos e essas autoras, trazendo para a cena a contradição que nos torna genuinamente humanos. Ressaltar a diferença, ao invés de tentar uniformizá-la, foi o que fez deste projeto uma unidade coesa, coerente e respeitosa.

— Você diz que os encontros com as autoras “tinham cara de terapia, mas eram parte de um processo editorial”. Fiquei curiosa para saber o que acontecia nesses encontros e o que precisava ser construído antes que essas mulheres conseguissem transformar suas experiências em literatura.

— Numa escrita a partir de uma relação de tanto afeto, ainda que para um texto ficcional, nós acabamos acessando algo íntimo. O primeiro passo foi conseguir um espaço seguro para compartilhar recortes sobre a história de cada uma. Foi preciso sentir cumplicidade. Aqui, era fundamental buscar o comum a todas nós: a vulnerabilidade que nos constitui como ser humano. Os encontros tinham partilha de afetos, acolhimento e formação de novos laços. Do lado de cá, enquanto ouvia e via atentamente aquelas mulheres, eu buscava os melhores caminhos editoriais para cada uma. Não teria sido possível conduzir essa construção se elas não tivessem me permitido chegar perto dos seus afetos. E muito do que ouvi nunca será publicado, mas foi fundamental para a construção dos textos.

— Havia textos que pediam mais intervenção e outros que precisavam justamente de espaço para permanecer como estavam?

— Sim! Meu compromisso era oferecer ao leitor a melhor qualidade, garantindo que a voz de cada uma das autoras pudesse ser reconhecida. Então busquei interferir o mínimo possível, de modo a conferir literariedade e autenticidade. Um fato interessante foi que algumas se preocuparam em “escrever bonito” e com isso acabaram “apagando” um pouco da sua voz no texto. Meu trabalho, nessa situação, foi resgatar “a verdade” daquela escrita.

— Um detalhe que chamou minha atenção na divulgação do projeto foi sua preocupação em fazer com que cada autora aparecesse como integrante de um coletivo, mas também como uma mulher com nome, trajetória e história próprios. Por que era tão importante para você dar visibilidade individual a cada uma delas?

— Porque coerência tem sido uma palavra de ordem neste projeto. Se pretendemos um percurso coletivo, mas ressaltando as individualidades, não seria possível pensar numa trajetória que não pudesse dar o protagonismo àquelas que assinam os textos e que toparam com muita coragem o desafio. Quero que o leitor saiba o nome e o rosto de cada história. E, ah, elas são sensacionais! Vocês vão gostar conhecê-las!

— E a publicação de “Entre nós” coincide com a saída da Autoria da casa do Granbery, um espaço que teve uma importância muito grande na construção desse projeto que sempre foi seu sonho de vida. O que significou deixar aquela casa e levar a Autoria para outro lugar?

— A Autoria foi o meu sonho. E o verbo fica no passado porque eu o realizei. Então agora é realidade. E é um projeto de vida, um ideal, não um espaço físico. A casa amarela no Granbery foi fundamental. O café, as rodas de samba, os eventos — eles foram essenciais para que as pessoas pudessem conhecer a Autoria. Mas a casa, enquanto conceito, pode ser em qualquer lugar, até na rua, até a céu aberto. Deixar aquela casa foi uma decisão estratégica, de negócio, e um caminho natural de um projeto de vida que preza pela liberdade.

— E que caminho a Autoria percorrerá a partir de agora?

— Interessante você perguntar sobre caminho. Antes, eu mirava no destino final. Era lá que estavam os objetivos. Agora, os objetivos de fato estão no caminho, na trajetória. A autoria segue a promover encontros, a provocar movimentos e, sobretudo, na sua escuta atenta e sensível. Na NOVA AUTORIA, queremos profundidade, em especial, no solo da literatura. Queremos uma vila, uma aldeia, uma pequena comunidade, forte, consistente e livre, ampliando seus laços em parcerias valiosas.

Mulheres que, em sua maioria, nunca haviam ocupado o lugar de autoras literárias transformam experiências, afetos, conflitos e memórias em diferentes formas de escrita - Foto: Anaís Zanetti
Mulheres que, em sua maioria, nunca haviam ocupado o lugar de autoras literárias transformam experiências, afetos, conflitos e memórias em diferentes formas de escrita – Foto: Anaís Zanetti