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Poeta e músico carioca, integrante do Nós de Cabrália, Paulo Thomaz lança “Pela fresta da porta, as luzes da festa”, obra em que transforma em poesia o luto pela perda de um amor e a descoberta de um novo recomeço (Foto: Guga Fêrreira).

“O amor acabou, pelo que sei/Houve amor?’’, questiona-se o poeta, que, naquele momento, estava transformando em versos a dor pelo fim de um relacionamento. O luto, no entanto, teve seus dias contados, e ele voltou à vida, ao seu “desfile maravilhoso”, palavras que o autor escreveu e que tornaram a ecoar durante esta entrevista. A conversa começou com esta jornalista querendo saber em que momento, exatamente, ele percebeu que sua experiência pessoal havia se transformado em um percurso poético.

“Quando os versos foram perdendo tristeza e ganhando luz”, diz o escritor carioca Paulo Thomaz. A coluna Sala de Leitura de hoje é sobre “Pela fresta da porta, as luzes da festa” (Íbis Libris, 60 páginas), obra que conduz o leitor por poemas que revelam vulnerabilidade, desejo e possibilidade de amar outra vez. Não por acaso, o livro é dividido em três partes, assim como a própria travessia emocional vivenciada pelo autor: “No escuro”, “Pela fresta da porta” e “As luzes da festa”.

“Conheci pessoas que me despertaram, e os temas dos poemas e das músicas começaram a mudar. Foi então que percebi que havia um enredo: da dor ao recomeço. Mais do que uma história pessoal, era um percurso que muitas pessoas vivem. Quando me apaixonei novamente, a narrativa encontrou seu desfecho. Um final feliz.”

Paulo Thomaz é formado em jornalismo e em produção fonográfica. Além de ser autor de livros (também já publicou “Trevo de sorte tem que ter 4 folhas” e “No auge do juízo”), tem uma história na música. Ele integra o coletivo Nós de Cabrália, grupo que movimenta a cena independente do Rio de Janeiro.

Marisa Loures – O livro traz poemas que acompanham sua travessia emocional, que começa com o luto pelo fim de uma relação, passa pela lenta retomada da vida cotidiana e termina com a abertura para um novo amor. A escrita surgiu como um desabafo ou como uma tentativa de compreender o que havia acontecido?

Paulo Thomaz — A escrita surgiu como uma catarse. Escrevi muito sobre aquele sentimento de rejeição, de perda. Foi um processo de cura. A minha arte já me tirou de muita furada. O projeto literário nasceu depois, quando o luto já havia sido superado, e percebi que aqueles poemas conversavam entre si, formando uma narrativa. Primeiro a escrita me salvou, depois ela virou livro.

— Logo no início do livro, você escreve: “O amor acabou, pelo que sei. ‘Houve amor?’, me perguntei”. Ao terminar esse projeto, e olhando hoje para esses poemas, você encontrou uma resposta para essa pergunta?

Da minha parte, houve amor. E isso é o que me importa hoje. Talvez a literatura também sirva para isto: não para responder definitivamente às perguntas, mas para nos ajudar a conviver com elas até que deixem de doer.

Pela Fresta da Porta Capa Final Rodrigo Barboza JPG
Capa do livro

— “Pela fresta da porta, as luzes da festa” apresenta uma abordagem deliberadamente vulnerável. Em um momento em que tantos discursos sobre masculinidade parecem evitar a vulnerabilidade, foi difícil assumir essa exposição?

Não. Sempre fiz isso de maneira muito natural. Meu único receio é mostrar um poema ou uma música quando acho que o resultado ainda não está bom. Se um dia tive dificuldade de expor minhas fragilidades, a maturidade levou isso embora. A poesia sempre foi meu lugar de maior liberdade. Sou um ser humano como qualquer outro, com angústias, alegrias, desejos e medos, e não vejo sentido em esconder isso da minha escrita. Em breve, inclusive, pretendo lançar um livro de poemas eróticos. Minha mãe já avisou que prefere não ler esse (risos).

— Em “As luzes da festa”, você escreve que “Enfim, o amor ficou pronto / E quem sou eu pra recusar? / Vou amar”. E a escritora Cristina Biscaia escreve no prefácio que “o poeta vem com um defeito de fábrica: a ânsia de amar”. Na sua experiência, o amor é uma matéria indispensável para a poesia ou apenas uma das formas possíveis de acessar a experiência humana?

Não acho que o amor seja indispensável para a poesia. A experiência humana é um território infinito de inspiração. O amor talvez seja a estrela dos sentimentos, mas a poesia também nasce do medo, da perda, do desejo, da indignação, da alegria e do espanto. O que importa é a intensidade da experiência, não apenas o tema.

— Alguns poemas foram escritos há quase dez anos. Em um deles, você afirma: “Por razão ou acidente / Me restou no peito a espada / E a dor da partida inesperada / Fui tudo da amada / Hoje sou nada / Esse é meu presente.” Hoje esse já não é mais o seu presente. Ainda assim, esses versos continuam fazendo sentido para você? Como é revisitar um sentimento que já passou?

Sim, fazem muito sentido. Eles registram exatamente quem eu era naquele momento. A literatura me permitiu transformar um sofrimento em linguagem, e isso mudou completamente minha relação com aquela experiência. Hoje releio esses versos com serenidade e até com uma certa vaidade. Afinal, fui capaz de atravessar uma fase emocionalmente desafiadora e ainda dar à luz um livro. Eternizei as agruras do amor em poesia.

— Paulo Leminski, Carlos Drummond de Andrade, Antônio Cícero e Arnaldo Antunes estão entre suas referências literárias. Na sua escrita, você procura dialogar conscientemente com esses autores?

Não procuro fazer isso conscientemente. Acho que acontece de forma natural. Me identifico com os poemas curtos e com o jogo de palavras de Arnaldo Antunes e Paulo Leminski. Também admiro a visão crítica de Drummond e a musicalidade de Antônio Cícero. Essas leituras acabam fazendo parte da minha formação e, inevitavelmente, aparecem na escrita, mas sem que eu planeje esse diálogo.

— O livro termina com uma abertura para um novo amor, mas sem sugerir que o sofrimento anterior tenha sido apagado. Para você, a “festa” do título simboliza um novo relacionamento ou uma forma diferente de estar vivo depois da perda?

No caso do livro, simboliza as duas coisas. Houve um momento em que eu disse “chega” e decidi mudar a energia da minha vida. Aos poucos, fui reencontrando o brilho, me permitindo viver novamente, conhecer pessoas, amar outra vez. A festa do título é esse reencontro com o mundo. Não significa esquecer a dor, mas descobrir que ela já não ocupa todo o espaço. É quando a vida volta a fazer convite.