
As mudanças climáticas já são sentidas no cotidiano, seja pela rápida mudança no tempo e chuvas com altos índices pluviométricos, seja pelos alertas constantes da Defesa Civil. No ambiente acadêmico, essa realidade aparece em questões como o cancelamento de aulas e a dificuldade de locomoção na cidade, dada a imprevisibilidade do tempo. Esses foram alguns dos relatos ouvidos pela Tribuna de alunos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que manifestaram preocupação diante de um cenário de incertezas.
Para se adequar à realidade das mudanças climáticas, tanto a UFJF quanto o Município de Juiz de Fora precisam tomar medidas práticas que auxiliem o cotidiano da comunidade. É o que aponta a jornalista e doutoranda em Biodiversidade e Conservação da Natureza no Laboratório de Ecologia Vegetal da UFJF, Valéria Borges Costemalle. “O que estamos começando a perceber é que a mudança climática deixa de ser apenas um tema de pesquisa ambiental e passa a afetar o funcionamento cotidiano da própria Universidade. Isso exige uma resposta também institucional.”

No caso da cidade, existe, desde 2023, a Lei Municipal nº 14.556, que estabeleceu o estado de emergência climática no município e determinou que o Poder Público, o setor privado e a coletividade atuem dentro de suas atribuições para enfrentar as mudanças climáticas.
Na lei também está prevista a implementação do Plano de Ação Climática, o PlanClima, além de um relatório anual sobre as ações de mitigação e adaptação, que abarca redução de vulnerabilidades, planejamento territorial, infraestrutura, conservação ambiental, mobilidade, recursos hídricos, redução de emissões, governança, orçamento e indicadores.
A medida foi reforçada pela recente assinatura, em 1º de outubro, do Plano de Contingência Municipal para Enfrentamento aos Desastres Climáticos – Período Chuvoso 2026/2027 (Plancon), pela Prefeitura de Juiz de Fora, focado em organizar a preparação, o monitoramento, os alertas, a mobilização de estruturas e a resposta a emergências.
A ação é um reflexo direto das chuvas que acometeram a cidade no início do ano. Em 24 de fevereiro, foram registrados 138,8 milímetros de chuva, o maior volume diário contabilizado, e o mês terminou com 752,4 milímetros, o fevereiro mais chuvoso da história da cidade.
Valéria destaca que existe uma possibilidade de enorme cooperação entre universidade e cidade: “A cidade precisa de conhecimento para tomar decisões. A Universidade precisa observar os problemas concretos do território para produzir conhecimento aplicado, e a Extensão pode fazer essa ponte”.
Em busca de um plano
“A tragédia atingiu o município de maneira muito ampla. Foram registradas 66 mortes e mais de 8.500 pessoas desabrigadas ou desalojadas. Esses números dizem respeito à cidade de Juiz de Fora e à população atingida pelo desastre. Não são números de vítimas da UFJF”, reitera Valéria, reforçando que os efeitos das mudanças climáticas são sentidos pela comunidade juiz-forana como um todo.
De acordo com a jornalista, cada setor da sociedade deve exercer o seu papel na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. No caso da UFJF, a universidade é produtora de conhecimento contínuo, podendo realizar pesquisas acerca da temática.
Para ela, o Programa de Pós Graduação em Biodiversidade e Conservação da Natureza do Instituto de Ciências Biológicas, que oferece mestrado e doutorado e possui estrutura de pesquisa em biodiversidade e conservação, e outros programas da Universidade também podem contribuir, como as áreas de Engenharia, Geografia, Direito, Saúde e Comunicação.

Katiuscia Antunes, pró-reitora de Graduação na UFJF, destaca que responsáveis por iniciativas da universidade já estão em contato com órgãos públicos municipais, como o PET Clima, programa de educação para o trabalho voltado para pesquisas que envolvem tragédias climáticas. A Secretaria de Saúde de Juiz de Fora trabalha em parceria com professores da Universidade, produzindo conhecimento e ações para minimizar os impactos.
Dentro da UFJF, avalia Valéria, deve ser preparada a sua infraestrutura, garantir a continuidade das atividades acadêmicas e incorporar a dimensão climática a ensino, pesquisa, extensão e gestão. Segundo ela, é necessária a criação de um Plano Climático Institucional. A iniciativa, comenta, poderia ser estruturada nos seguintes eixos: Diagnóstico de riscos climáticos; inventário de emissões de gases; plano de adaptação dos campi; infraestrutura verde e soluções baseadas na natureza; gestão da biodiversidade; gestão da água; energia e eficiência; mobilidade; gestão de resíduos protocolos de emergência; continuidade acadêmica e indicadores e orçamento.
“A UFJF já possui instrumentos que podem ser articulados a esse planejamento, como o Plano Diretor Físico Territorial e Patrimonial 2022/2032, além de instrumentos institucionais relacionados à sustentabilidade que podem ser integrados a uma estratégia climática mais ampla”, relembra. Dessa maneira, o plano não viria do zero e o desafio para colocá-lo em prática seria a integração de diferentes estratégias em um único plano de ação.
Calendário acadêmico: como fica?
Ao longo dos últimos períodos na universidade, a comunidade acadêmica tem sofrido com quedas de energia, dificuldade na locomoção e cancelamento de aulas, devido à impossibilidade de se locomover em segurança nas fortes chuvas que acontecem na cidade.
A aluna do sexto período do curso de Jornalismo da UFJF, Sophia Rocha, vive uma mudança em sua rotina desde as chuvas de fevereiro. Antes, ela demorava cerca de quarenta e cinco minutos para se deslocar de seu bairro até o campus da UFJF. Agora, ela leva mais de uma hora, já que a rua principal de onde mora, no Bairro Eldorado, foi fechada, forçando uma mudança nas rotas de ônibus.
A universitária estuda no turno da noite e da manhã e destaca que os estudantes do noturno são os mais afetados, em sua avaliação. “De noite, os cancelamentos de aulas são muito inconstantes, porque já aconteceu várias vezes de eu estar dentro do ônibus e o professor avisar que a aula está cancelada. Isso é muito ruim, porque, além de eu já ter gastado passagem, é perda de tempo. Por isso eu sinto falta dessas políticas de questões climáticas”.
Maria Beatriz Rocha, estudante do nono período de Pedagogia, também no turno da noite, explica que os cancelamentos de aulas são feitos, muitas vezes, por pedido dos próprios alunos. “Geralmente, quando há um alerta da Defesa Civil, nós, alunos, solicitamos o cancelamento por receio de ficarmos ilhados na UFJF ou sofrermos algum acidente no trajeto”.

A importância de protocolos
Entretanto, ainda não há uma diretriz clara que guie professores e alunos sobre como proceder. É necessário cancelar todas as aulas todos os dias que chover? Quais alertas da Defesa Civil podem ser ignorados e quais não?
“O primeiro ponto é que alerta não significa automaticamente suspensão de aulas. É preciso estabelecer protocolos objetivos e previamente conhecidos”, explica Valéria. Ela acrescenta que: “um sistema adequado deveria trabalhar com níveis de risco associados a medidas correspondentes.”
No caso da Universidade, localizada em terrenos acidentados, o critério deveria ser institucional e baseado em risco à vida e à segurança, e não simplesmente no volume de chuva isoladamente. “A Universidade deveria estabelecer previamente um protocolo indicando quem recebe os alertas, quem avalia o risco, quem toma a decisão, como estudantes e servidores serão comunicados, quais atividades podem ser reorganizadas excepcionalmente e como será feita a reposição”, segue a doutoranda.
Katiúscia adianta que há uma proposta encaminhada para a Pró-reitoria de graduação, justamente sobre ações que possam ser tomadas em relação à suspensão de aulas. O documento atualmente está em análise, mas, para ser aceito, precisa também passar pelos órgãos colegiados da Universidade com todos os cursos de graduação, já que cada área possui suas particularidades.
Ela ressalta que, mesmo com o estado de calamidade em vigor, os dias letivos não foram perdidos e o calendário não sofreu alterações significativas, já que o calendário é construído com dias extras, prevendo adversidades.

*Estagiária sob a supervisão da editora Fabíola Costa

