BIOSFERA LULA E FLAVIO fotos Ricardo Stuckert PR e Carlos Moura Agencia Senado

A forma como o meio ambiente aparece nos programas de governo dos candidatos à presidência do Brasil, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), revela diferenças nas prioridades e nos instrumentos propostos para a política ambiental. Um levantamento, realizado pela Tribuna, considerou a ocorrência de 14 termos e expressões relacionadas à agenda ambiental nos dois documentos e identificou diferenças na frequência dessas palavras. Enquanto expressões como “mudanças climáticas” e “sustentabilidade” aparecem mais vezes no documento de Lula, palavras como “agronegócio” e “licenciamento ambiental” são mais recorrentes no plano de Flávio. 

A contagem considerou apenas as ocorrências dos termos em trechos relacionados a propostas ambientais. Isso porque algumas palavras, como “prevenção”, também aparecem nos documentos em contextos ligados a outras áreas, como saúde e segurança pública. Para compreender o que os números revelam sobre as prioridades e as medidas previstas por cada candidato, a reportagem ouviu pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que analisam as propostas e os diferentes projetos de desenvolvimento apresentados nos programas. 

A pauta ambiental na disputa eleitoral de 2026 tem um peso importante por estar ligada a diferentes ideias de desenvolvimento do país, como avalia o historiador e professor da UFJF Leandro Pereira. Ele aponta que o debate envolve não apenas a preservação da natureza, mas também a produção agropecuária, a mineração, a geração de energia, os investimentos e o papel do Estado na regulação das atividades econômicas. O especialista também chama atenção para as consequências que a questão climática traz para a posição internacional do Brasil, citando como exemplo as oportunidades econômicas associadas à transição energética. 

Já a professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) Samira Peruchi Moretto, também pesquisadora da área de História Ambiental, destaca que as propostas precisam ser avaliadas pelos efeitos que podem produzir sobre os ecossistemas e as populações. O desmatamento, por exemplo, afeta a biodiversidade, interfere nos ciclos da água e contribui para as emissões de gases de efeito estufa. Por isso, segundo ela, a análise deve considerar as características de cada território e as comunidades que dependem de seus recursos naturais. “O debate eleitoral precisa considerar a capacidade dos governos de articular desenvolvimento econômico, conservação ambiental e proteção das populações mais vulneráveis.” 

Tais temas orientam as pesquisas dos Laboratórios de História Política e Social (LAHPS) e de  História e Tecnologias Digitais (HisTechLab), onde os dois professores atuam, buscando entender como determinados discursos sobre meio ambiente, desenvolvimento e soberania são construídos e mobilizados politicamente, bem como suas relações com os interesses econômicos, as disputas institucionais e a formulação de políticas públicas. 

BIOSFERA grafico palavras meio ambiente fonte IA sob orientacao da reportagem
Fonte: Elaborado com IA com supervisão da reportagem

O que os números mostram 

Entre os termos analisados, energia é o mais recorrente nos dois programas: são 24 ocorrências no documento de Lula e 36 no de Flávio Bolsonaro. A diferença mais expressiva entre os termos relacionados à agenda ambiental aparece em sustentabilidade: a palavra ocorre 14 vezes no plano de Lula e uma vez no de Flávio. Já mudanças climáticas aparece sete vezes no documento petista e não é encontrada no texto do candidato do PL. 

O termo desmatamento aparece dez vezes no plano de Lula e cinco no de Flávio. A palavra conservação é registrada seis vezes no primeiro documento e quatro no segundo. Em recursos naturais, são cinco ocorrências no programa petista e duas no do PL. 

Outros termos apresentam resultado inverso. Agronegócio aparece quatro vezes no plano de Lula e sete no de Flávio. A palavra meio ambiente ocorre quatro vezes no documento petista e sete no do candidato do PL. Já licenciamento aparece cinco vezes no programa de Flávio e nenhuma no de Lula. Fiscalização ambiental também não aparece na contagem do documento petista, enquanto registra duas ocorrências no plano do PL.

No caso de prevenção, a contagem aponta quatro ocorrências no plano de Lula e duas no de Flávio. O termo eventos extremos e eventos climáticos soma três ocorrências no primeiro documento e uma no segundo. A palavra desastres aparece quatro vezes no plano petista e nenhuma no do PL. Já mineração registra uma ocorrência no programa de Lula e duas no de Flávio. 

Desmatamento e licenciamento em debate 

Tanto a frequência dos termos quanto as propostas em si mostram diferenças importantes na forma como os candidatos compreendem a política ambiental. O pesquisador enfatiza que o programa de Lula atribui maior centralidade ao enfrentamento da crise climática e à atuação estatal, enquanto o de Flávio enfatiza a conciliação entre conservação, valorização econômica dos recursos naturais e atividade produtiva. 

De acordo com Pereira, o programa de Lula trata o enfrentamento das mudanças climáticas como uma prioridade que deve orientar as ações do governo. Entre as propostas estão a continuidade dos planos de prevenção e controle do desmatamento, o fortalecimento da fiscalização e a meta de alcançar o desmatamento líquido zero até 2030. 

Já o programa de Flávio Bolsonaro estabelece como objetivo zerar o desmatamento ilegal até 2029 e propõe ampliar o monitoramento por satélites e inteligência artificial, incentivar atividades econômicas associadas à biodiversidade e ampliar instrumentos como o pagamento por serviços ambientais. 

O professor também chama a atenção para a proposta de eliminar o que o programa de Flávio descreve como sobreposições entre órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O documento não especifica quais seriam essas sobreposições, o que dificulta avaliar os possíveis efeitos de uma reorganização institucional. 

No licenciamento ambiental, o programa do candidato do PL propõe que, se o órgão responsável não se manifestar dentro do prazo estabelecido e o empreendedor tiver cumprido as exigências legais, a licença seja concedida. A medida é apresentada como forma de reduzir a demora administrativa e oferecer maior segurança jurídica aos investimentos. Para Pereira, a proposta levanta uma questão central: “como garantir que a busca por agilidade não comprometa a análise dos riscos ambientais e a proteção dos biomas?” 

Clima e matriz energética 

A pesquisa Samira Peruchi Moretto destaca que a avaliação das medidas ambientais deve considerar os impactos das atividades econômicas sobre os territórios. Agronegócio, mineração e exploração de petróleo podem gerar empregos e renda, mas também provocar perda de vegetação, pressão sobre os recursos hídricos e conflitos pelo uso da terra. 

A política energética é outro ponto de diferença entre os programas. Já segundo Pereira, enquanto Lula apresenta o enfrentamento das mudanças climáticas como uma diretriz que abrange medidas de mitigação, adaptação e financiamento climático, Flávio propõe ampliar a exploração de petróleo e gás, inclusive por meio do fraturamento hidráulico (fracking). Embora o programa do candidato do PL também preveja iniciativas de conservação e incentivo a fontes renováveis, a expansão dos combustíveis fósseis levanta questões sobre como essas medidas se articulam com a redução das emissões e a transição energética, argumenta o pesquisador. 

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(Fotos: Ricardo Stuckert/PR e Carlos Moura/Agencia Senado)

Histórico político e implementação das propostas

A trajetória dos governos também faz parte da análise dos pesquisadores. Durante os primeiros mandatos de Lula, a partir de 2003, políticas de prevenção e controle do desmatamento contribuíram para a redução das taxas registradas na Amazônia. No governo atual, essas políticas foram retomadas. Ao mesmo tempo, a gestão enfrenta críticas relacionadas à exploração de petróleo, incluindo a pesquisa exploratória na Bacia da Foz do Amazonas. 

Já o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, foi marcado por aumento do desmatamento na Amazônia e conflitos em torno da fiscalização ambiental e da atuação dos órgãos de proteção. A declaração do então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, em 2020, sobre aproveitar a atenção da imprensa à pandemia para “passar a boiada” e simplificar normas, tornou-se emblemática do debate sobre flexibilização regulatória. 

“Esse histórico ajuda a compreender o negacionismo ambiental como fenômeno político. Ele não se manifesta apenas na negação explícita das mudanças climáticas, mas também pode envolver a deslegitimação das instituições de fiscalização e a relativização dos riscos ambientais”, afirma Pereira. 

 O papel do Congresso 

Outro fator decisivo é a relação com o Congresso Nacional. Mesmo as propostas anunciadas pelo Executivo dependem, em diferentes graus, de orçamento, estrutura administrativa, aprovação de leis e articulação política. Segundo o pesquisador, as alianças também influenciam as prioridades da agenda ambiental e os limites da regulação sobre atividades econômicas. 

A pesquisadora Samira acrescenta que políticas de conservação, adaptação climática e prevenção de desastres exigem equipes técnicas, recursos financeiros e coordenação entre União, estados e municípios. “Em Juiz de Fora e em outros municípios da Zona da Mata, por exemplo, a redução dos riscos de inundações e deslizamentos demanda mais do que respostas emergenciais: envolve planejamento urbano, infraestrutura, sistemas de alerta, políticas habitacionais e conhecimento das características de cada território”, diz. 

Para Samira, a comparação entre os programas deve considerar tanto a conservação dos ecossistemas quanto às condições sociais e institucionais necessárias para sua implementação. “Mais do que verificar se uma meta foi anunciada, é preciso analisar se as medidas propostas são capazes de proteger a biodiversidade, reduzir as emissões, enfrentar os riscos climáticos e evitar que os custos e benefícios das políticas ambientais sejam distribuídos de maneira desigual entre as populações.” 

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