Fotos Soltura Muriquis Grupo de Pecanha 33

Maior primata das Américas e uma das espécies mais ameaçadas do Brasil, o muriqui-do-norte voltou a ocupar as florestas do entorno do Parque Estadual do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira. No início de agosto, sete animais foram soltos na Mata da Boa Vista, uma área preservada dentro do território do Ibiti Projeto, em Lima Duarte. A ação é resultado de pelo menos sete anos de manejo, pesquisa e preparação para a reintrodução dos primatas na região. 

O trabalho é conduzido pelo Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB), em parceria com o Ibiti Projeto, a Universidade Federal de Viçosa (UFV), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama-MG) e o Instituto Estadual de Florestas (IEF). Os animais passaram por um período de adaptação e socialização antes de serem levados para a floresta, onde agora vivem em liberdade e são monitorados pelos pesquisadores. 

A iniciativa busca reverter um cenário que, há alguns anos, parecia próximo da extinção local. Quando o trabalho começou, restavam apenas dois machos de muriqui-do-norte na região de Ibitipoca. 

“É uma satisfação muito grande, um trabalho de longo prazo que reuniu várias pessoas e instituições e um esforço de pelo menos 10 anos que a gente está trabalhando para poder reverter esse quadro da extinção local”, explicou a bióloga e diretora do Muriqui Instituto de Biodiversidade, Fernanda Pedreira, em entrevista à Rádio Antena 1 de Juiz de Fora e à Tribuna de Minas.

Fotos Soltura Muriquis Grupo de Pecanha 33
(Foto: Divulgação)

Animais de diferentes populações formam novo grupo 

A estratégia de conservação foi dividida em duas frentes. A primeira envolveu a formação de um grupo social a partir de animais que estavam em situação considerada crítica e que não tinham condições de sobreviver sem intervenção. Para isso, foi criado pelo Ibiti Projeto um espaço chamado Muriqui House, um grande recinto a céu aberto onde os animais puderam conviver antes da soltura. 

Entre os primatas estavam os dois machos remanescentes da população original de Ibitipoca e fêmeas provenientes de outras populações da espécie, que também viviam em condições de vulnerabilidade e isolamento. 

O manejo permitiu a formação de um grupo social e, durante esse período, houve ainda o nascimento de um filhote. O animal é filho de um dos machos que pertenciam à população original de Ibitipoca e representa a preservação da genética local. 

“Então a gente conseguiu conservar a genética daquela população local e salvar essas fêmeas reprodutoras que estavam isoladas em paisagem fragmentada, que não tinham chance de sobreviver, e conseguiu formar esse grupo”, afirmou Fernanda. 

A segunda frente envolveu a transferência de um grupo completo de uma área onde a população estava em declínio. Os animais vieram de uma floresta em Peçanha, no Leste de Minas, onde o grupo havia chegado a apenas oito indivíduos e sofria com a redução do habitat e a falta de proteção oficial da área. 

De acordo com a pesquisadora, a formação de mais de um grupo é importante para que, no futuro, ocorra a movimentação natural de indivíduos entre eles. Nas populações de muriquis, as fêmeas deixam o grupo em que nasceram e migram para outro, estratégia que ajuda a evitar a reprodução entre animais com parentesco próximo. 

Área onde vivem tem mais de 3 mil hectares preservados

A área escolhida para a soltura possui mais de 3 mil hectares de floresta. De acordo com Fernanda, existe uma estimativa de ocupação de cerca de 1,5 hectare por indivíduo para garantir a sustentabilidade do habitat, o que permite que os animais estabeleçam novos territórios. 

Segundo a bióloga, o território amplo também contribui para reduzir a possibilidade de conflitos entre os animais. Apesar de serem territorialistas, os muriquis são conhecidos pelo comportamento de baixa agressividade. Por isso, encontros entre grupos costumam envolver principalmente vocalizações, com pouca perseguição ou agressão física. 

A escolha da região de Ibitipoca está diretamente ligada à existência de uma extensa área de Mata Atlântica preservada. “O que parecia impossível se tornou realidade. Depois de anos de trabalho, os animais que antes dependiam dos pesquisadores agora ocupam novamente a floresta. Ver eles aí numa mata bem preservada, com muito alimento, de vida livre, sem depender da gente, realmente é muito gratificante”, concluiu Fernanda. 

Trabalho continua após a reintrodução 

A soltura não representa o fim do projeto. A partir de agora, os pesquisadores iniciam uma nova etapa de acompanhamento dos animais em vida livre. Os estudos vão observar o desenvolvimento do filhote, o comportamento social e a integração dele ao grupo, além da adaptação dos animais ao novo ambiente. 

O nascimento ocorrido durante o período de manejo é considerado especialmente importante, mas o verdadeiro sucesso reprodutivo só poderá ser avaliado daqui a alguns anos. “É um trabalho que a gente vai colhendo resultados ao longo do caminho, mas a vitória mesmo, o sucesso desse projeto, a gente só vai ter a longo prazo”, afirmou Fernanda. Segundo ela, o filhote precisará chegar à idade adulta e se reproduzir para que seja possível considerar que a estratégia de conservação teve sucesso completo.