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Causa perplexidade que, em pleno século XXI, ainda se coloque em dúvida o direito das mulheres de votar e serem votadas.

Quem as mulheres eleitas representam? A presença feminina nos espaços de poder transforma as condições de vida das mulheres trabalhadoras? Ou apenas reproduz interesses de determinados grupos? Boas perguntas. A pergunta sobre o direito ao voto, porém, não deveria sequer estar em disputa.

O voto feminino é uma conquista política e histórica. Defendê-lo não é supor que todas as mulheres pensem da mesma maneira. Há uma contradição em ocupar um espaço político conquistado também pelo voto e, ao mesmo tempo, defender que outras mulheres sejam privadas desse direito.

A vida ou morte de muitas mulheres pode ser decidida pelo nosso voto, aquele que só você e Deus verão. Sim, Ele estará vendo você votar por uma vida que nem nasceu enquanto contribui para a morte de uma mulher com filhos, futuro, mãe, sobrinhos e amigas votando pela liberação do porte de armas de fogo. Vê você votando e abrindo mão de estar em casa com seu filho ou levá-lo ao médico, permitindo que seu companheiro não venha para casa compartilhar a construção da sua família. É isso, na prática, que é ser contra o fim da escala 6×1.

Quando se diz que mulheres não seriam capazes de decidir ou que homens poderiam “mandá-las de volta à cozinha”, não se está defendendo uma opinião. Estão defendendo que mulheres nãotenham uma.E não, o problema não está na louça, está em transformar escolhas pessoais em imposição. Cuidar da casa e da família faz parte da vida de muitas mulheres, ser confinada a esse lugar, sem escolha, não!

Escolhas eleitorais têm consequências que ultrapassam a vida privada. De onde vêm os valores que nos orientam? São convicções construídas pela reflexão ou ideias que nos chegam como ordens sussurradas em nome da família, da tradição ou da religião? A fé e os valores pessoais podem orientar a vida de cada um. Não deveriam, porém, servir para retirar de outras pessoas a capacidade de decidir sobre sua vida.

O voto de uma mulher não precisa ser igual ao de outra para que ambas tenham o mesmo direito de votar. A defesa da democracia é reconhecer isso, e, sobretudo, não confundir desacordo com autorização para silenciar. Quando alguém afirma que você não é capaz de escolher, vale a pergunta: quem ganha quando você acredita que ficar calada é o seu dever?

* Lucimara Reis é licenciada em História, mestre e doutoranda em Serviço Social pela UFJF, além de mãe do Gabriel.

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