
Há um momento na vida em que deixamos de perguntar quanto tempo ainda temos e passamos a questionar o que estamos fazendo com o tempo que nos foi concedido. É nesse horizonte que ressoa a reflexão de João Guimarães Rosa: chega um momento em que o único dever é lutar ferozmente por introduzir, no tempo de cada dia, o máximo de eternidade.
Vivemos, entretanto, na contramão dessa sabedoria. A sociedade nos ensinou a preencher agendas, mas não a preencher a existência. Contamos horas, acumulamos compromissos, multiplicamos informações e perseguimos resultados, como se a velocidade fosse sinônimo de plenitude. Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão distantes daquilo que realmente permanece.
A eternidade não começa quando o tempo termina. Ela nasce sempre que um gesto cotidiano é revestido de significado. Está na palavra que consola, na presença que acolhe, no professor que desperta consciências, na família que permanece unida, na amizade fiel e na oração que reorganiza a alma. São essas pequenas permanências que desafiam a nossa existência.
Talvez seja por isso que Guimarães Rosa fale em luta. Introduzir eternidade nos dias exige resistir à superficialidade, ao imediatismo e à lógica de uma cultura que mede o valor das pessoas pelo que produzem e não pelo que são. Exige recuperar o silêncio em meio ao ruído, a contemplação em meio à pressa e a profundidade em um tempo que transformou tudo em consumo.
No final, pouco restará dos cargos, dos bens ou dos aplausos que recebemos. Permanecerão, contudo, o amor que oferecemos, o bem que realizamos, a verdade que testemunhamos e as vidas que ajudamos a transformar. É isso que confere sentido à existência e impede que o tempo seja apenas uma sucessão de dias.
A grande questão, portanto, não é viver mais, mas viver melhor, ou seja, dar aos anos uma densidade que o relógio não consegue medir. Afinal, a vida jamais será lembrada pela velocidade com que a atravessamos, mas pela profundidade com que nela permanecemos.Porque viver é permitir que o tempo encontre em nós razões para não passar em vão.
* Robson Ribeiro é teólogo, filósofo e historiador.
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