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Para o morador Paulo Braz, que teve parte da casa também engolida pela cratera, a reconstrução é um alívio (Foto: Felipe Couri)

“A padaria era logo ali na esquina, mas ficou lá do outro lado (da cratera).” A loja de material de construção que ficava na Rua Barão de Retiro mudou para o Linhares. O salão de beleza e a hamburgueria que funcionavam na mesma via também fecharam. Esses são apenas alguns dos inúmeros transtornos causados a moradores e comerciantes da Zona Leste de Juiz de Fora há oito meses, desde o rompimento da tubulação do Córrego Matirumbide, que engoliu parte da Rua Professor Francisco Faria, na altura do Bairro Bonfim, bem na divisa com os bairros Manoel Honório e Bairu. A obra “emergencial”, iniciada em maio após cinco meses de espera, está a todo vapor, ao custo de R$ 2.333.578,79, obtidos pelo Município junto à Defesa Civil Nacional. Mas a vida de quem sofreu com a interdição ainda depende do restabelecimento do importante acesso para voltar ao normal.

“É uma coisa que atingiu muito nós, moradores, e também os comerciantes. Meu filho tinha um comércio aqui (loja de materiais de construção) e teve que ir para o Linhares, há três meses, porque o movimento caiu muito. As pessoas têm que dar a volta lá no Manoel Honório, então, como o acesso ficou difícil, quem está indo para lá, já compra lá. Para os comerciantes aqui, a venda caiu bem. E para nós, moradores, o ônibus ficou longe. Ou temos que pegar no Bairu ou temos que ir até o Manoel Honório. Está bem difícil”, desabafa a aposentada Cleuza Esteves de Araújo, 57 anos, moradora do Bonfim há 40 anos.

Para o aposentado Paulo Braz, 66, o significado da reconstrução vai muito além, já que parte dos fundos da casa dele também foi engolida pela cratera, deixando a residência exposta. “Quero voltar com a minha garagem e o meu terreiro para o lugar”. Ele comemora que as máquinas estão trabalhando o dia todo. “O pessoal é muito atencioso aqui e, aparentemente, o serviço está ficando muito bom.” Daquela noite da tempestade, ele prefere nem lembrar. “A Defesa Civil esteve aqui, só interditou um cômodo, o resto poderia usar. É o que nós estamos fazendo até hoje”, revela o morador.

Para os comerciantes que não tiveram como opção mudar de endereço, restou assumir o prejuízo. No hortifruti situado no começo da Barão do Retiro, ao fim da Rua Eugênio Fontainha, as vendas reduziram cerca de 20%. “O pessoal ainda tem que dar a volta, e muitas pessoas preferem não dar. Tem um outro hortifurti do outro lado, no Manoel Honório, então a preferência é de quem está mais próximo”, conta uma funcionária, que preferiu não se identificar. Segundo Paulo, os residentes do entorno também estão enfrentando “voltas” para levar e buscar as crianças no colégio. “A padaria ficou longe, sendo que era aqui em frente. O salão de beleza que ficava em frente à minha casa e a hamburgueria, que ficava embaixo, fecharam. O açougue teve queda no movimento”, observa o morador, com os olhos de quem mora há 24 anos no Bonfim.

A previsão indicada pela placa oficial instalada no local é de conclusão dos trabalhos de canalização do córrego até 13 de outubro, recompondo a galeria rompida com as chuvas de 15 de dezembro com uma estrutura de concreto armado. A Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), no entanto, confirmou à Tribuna uma versão mais otimista: “A liberação da pista (Rua Professor Francisco Faria) está prevista para o final do mês de setembro.” Ainda conforme o Executivo municipal, “a obra consiste em construir uma nova travessia e recuperar a via seguindo os parâmetros do Plano Municipal de Drenagem, de modo a conter a via e garantir o correto escoamento na entrada da galeria, além de corrigir processos erosivos”.

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(Foto: Felipe Couri)

Rua já havia sido engolida por cratera ‘com praça e tudo’

Moradores do Bonfim sofrem há anos com problemas causados pela canalização do Córrego Matirumbide. Cleuza Araújo lembra que a Rua Professor Francisco Faria já foi engolida outras vezes por rompimento da estrutura que canaliza o curso d’água, inclusive levando junto a praça erguida sobre o local. O espaço público havia sido uma conquista dos moradores, após muitos pedidos e reportagens.

“Aqui já caiu umas três vezes, umas delas com praça e tudo. As pessoas ficam correndo risco, crianças passam ali”, alerta. “Desta última vez, foi surreal, apavorou todos nós moradores. Um carro havia acabado de passar, o motorista iria embora com a enxurrada e tudo. Nossa preocupação é com os ciclones que vêm por aí, essas chuvas pesadas, e as casas que ficam na beira do córrego.” Sobre a demora para começar a obra, a moradora conta que houve muita luta. “A poeira incomoda, mas resolvendo o problema, é o de menos.”

A Tribuna acompanha a situação no Bonfim desde o ano passado. Em março, durante nova reportagem no local, antes do início da obra, a cratera havia começado a se  alargar e engolir cada vez mais a rua, afundando novamente parte da Praça Padre Léo, que fica em frente à casa de Paulo. Um alambrado caiu, um muro apresentava uma grande rachadura, e os bancos estavam tomados por barro e soltando o calçamento.

Questionada sobre a situação, a PJF informou que a obra em curso na Rua Francisco Faria não inclui a reconstrução da praça, para a qual “serão necessários estudos urbanísticos, estruturais e, principalmente, ambientais”.