
Cinco meses depois, os resíduos das chuvas de fevereiro em Juiz de Fora ainda estão armazenados, temporariamente, no antigo Parque de Exposições. No dia 17 deste mês, a Prefeitura publicou a contratação emergencial de uma empresa para auxiliar na retirada dos materiais, por R$ 347.730. A empresa iniciou os trabalhos na última quinta-feira (23). Quanto a uma previsão para a conclusão, a resposta do Executivo foi de que “as equipes seguem atuando de forma integrada, conforme o cronograma estabelecido”.
A contratação lista lama, terra, vegetação e demais materiais, que incluem entulho, pedras, concreto e restos de pavimentação, como a Prefeitura informou à Tribuna. O transporte será feito pela empresa, com caminhões basculantes, até o aterro de Grama, local licenciado para a disposição final desse tipo de material, ainda segundo a Prefeitura.
De acordo com o Município, a contratação de empresa especializada tem como objetivo reforçar as equipes do Demlurb e dar maior celeridade à retirada dos resíduos, sem substituir o trabalho já realizado desde fevereiro. O Executivo afirma que, até o momento, mais de dez mil toneladas de resíduos foram removidas.
Segundo a doutora em Geotecnia Ambiental, Júlia Righi de Almeida, “em situações de grande volume de resíduos gerados por eventos de calamidade, é relativamente comum que a remoção ocorra de forma gradual, em função da logística de transporte, da necessidade de triagem e da capacidade de destinação final”.
No entanto, chama a atenção o fato de que a contratação para intensificar os serviços tenha sido realizada só agora, já que, em 2 de abril, a Tribuna publicou matéria em que o Executivo afirmava que já havia uma “força-tarefa” instaurada desde 26 de março com esse fim.
Para a Prefeitura, “a remoção dos resíduos do antigo Parque de Exposições segue o planejamento estabelecido desde o início da operação, considerando o grande volume de material recebido durante o período de emergência e a complexidade das etapas necessárias para sua destinação final”.
Em casos como esse, as etapas necessárias estão diretamente relacionadas à caracterização do resíduo, como explica Júlia: “De maneira geral, o processo envolve coleta e transporte até a área de armazenamento temporário; triagem e separação dos materiais com caracterização do tipo de resíduo; e, por fim, encaminhamento para a instalação licenciada adequada”.
Riscos para o entorno
Desde abril, moradores da região do Jóquei Clube, Zona Norte, já relatavam aumento significativo da presença de mosquitos nas proximidades do parque. Segundo Júlia, esse é de fato um risco, assim como a proliferação de animais peçonhentos, entre outros vetores, devido ao acúmulo de água favorecido em alguns pontos.
Além do carreamento de partículas para a rede de drenagem durante novas chuvas, “a permanência dos resíduos na área também pode gerar impactos relacionados à intensa circulação de caminhões e equipamentos, como aumento de poeira e ruído, além de causar desconforto visual e paisagístico para a população do entorno”.
A professora dos cursos de Engenharia Civil e Engenharia Ambiental da UFJF destaca que, em situações de calamidade, o armazenamento temporário em áreas controladas é uma prática adotada para permitir a triagem e a destinação adequada dos materiais: “O fato de os resíduos estarem concentrados em um local específico tende a ser mais seguro do que permanecerem dispersos em vias públicas e encostas, por exemplo”.
Ela afirma que o tempo de permanência, por si só, não significa necessariamente um agravamento imediato dos riscos, mas desde que a área de armazenamento temporária permaneça controlada e com manejo periódico dos materiais. “Do ponto de vista técnico e ambiental, o ideal é que a remoção e a destinação desses materiais sejam concluídas no menor prazo possível”.
Ruas ainda estão sendo limpas
A Prefeitura esclarece que a contratação não se destina à retirada de resíduos nos bairros, e o serviço ainda está sendo feito pelo Demlurb. Até o momento, foram atendidos 122 bairros e 799 vias com lavagem de ruas, raspagem de barro, remoção de terra e resíduos e desobstrução de vias. “Os atendimentos seguem conforme o planejamento operacional, as demandas identificadas pelas equipes técnicas e a autorização da Defesa Civil”.
A professora alerta que, mais importante do que discutir medidas emergenciais é a necessidade de os municípios possuírem planos de resiliência e diretrizes previamente definidos para a resposta e a recuperação após desastres: “Eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes, e a dificuldade em lidar com grandes volumes de resíduos após enchentes e deslizamentos não é uma característica exclusiva de Juiz de Fora (…). Por isso, é fundamental que exista um plano previamente definido para coleta, armazenamento temporário, triagem, transporte e destinação final dos resíduos gerados em desastres”.
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