

“Eu sempre achei que o câncer vem para ensinar alguma coisa, só que eu olhava sempre para os outros. Então, na hora em que eu recebi um diagnóstico, a primeira coisa que pensei foi: Meu Deus, o que eu tenho que aprender? E aprendi, assim, logo na primeira semana”, revela a contadora Lilian Miranda, 44 anos, sobre seu primeiro câncer de mama, em setembro de 2023. “A médica pediu o exame aos 40 anos, mas eu só fiz com 41, e na minha primeira mamografia já veio o diagnóstico. Não senti nada, eram microcalcificações in situ. E como era uma área extensa, precisei retirar as duas mamas.” Neste Outubro Rosa, mês internacional de conscientização voltado à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento do câncer de mama — e de reforço aos cuidados relacionados ao câncer do colo do útero no Brasil — a Tribuna buscou estatísticas em Juiz de Fora sobre a doença, que Lilian ainda enfrentou pela segunda vez, após descobri-la em setembro do ano passado, meio por acaso e sorte, após precisar fazer tomografia em decorrência de um acidente de bicicleta.
Só entre 2024 e 2025, quase mil pessoas foram diagnosticadas com câncer de mama em Juiz de Fora, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, com base no Painel de Oncologia Brasil do Datasus (Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde – SUS). Foram 990 diagnósticos nesses dois anos, em meio à realização de 43.505 procedimentos realizados na rede pública para rastreamento do câncer de mama, como ultrassonografia e biópsia, além da própria mamografia. Isso significa que 2,7% das mulheres que buscaram os exames, tiveram a doença identificada. Em 2026, já estão contabilizados no Painel de Oncologia 13.602 rastreamentos e 135 diagnósticos.
“A parte mais difícil para mim — e um dos meus aprendizados também — foi depender de outras pessoas. Depois da cirurgia, tive que fazer reabilitação, porque a prótese é colocada embaixo do músculo (só a pele não sustenta). Eu não conseguia subir o braço, fiquei limitada para tomar banho, fazer comida”, conta Lilian. Dois anos depois, ela seguia de Juiz de Fora para Aparecida (SP) de bike, quando caiu. Os exames de rotina, de seis em seis meses, estavam em dia. “Mas precisei fazer uma tomografia da cabeça até o quadril, pelo SUS, lá em Resende (RJ). Não deu nada e fui embora. No dia seguinte, uma vizinha me viu muito machucada e perguntou se eu estava precisando de alguma coisa. Mandei para ela o resultado do exame, e eu estava com um nódulo no pulmão. O oncologista pediu um PET Scan, e os linfonodos mamários internos, que ficam no tórax, estavam super reagentes. Aí eu fiz biópsia: o pulmão não era nada, e os linfonodos, eram câncer.” Diante do resultado, a pergunta voltou à cabeça da contadora: “Meu Deus, o que eu ainda tenho que aprender? Tive respostas de coisas que eu já estava perguntando.”
Apesar da pouca idade, Lilian não está sozinha nas estatísticas. Dos 556 diagnósticos de câncer de mama realizados pelo SUS em Juiz de Fora em 2024, 128 foram de mulheres na faixa etária de 40 a 49 anos. Outras 70 pacientes tinham até 39 anos. Já em 2025, das 424 identificações da doença na rede pública, 45 mulheres tinham menos de 40 anos, e outras 93, menos de 50. Já a faixa de 50 a 59 anos apresentou 149 casos em 2024, e 101, em 2025. Os dados de óbitos não estão atualizados no painel, mas pelo menos 181 pessoas perderam a vida por “neoplasia maligna da mama” na cidade desde 2024, sendo 44 apenas neste ano. Entre as vítimas, estão 16 pacientes de até 39 anos, enquanto outras 35 tinham entre 40 e 49 anos.
Neste ano, a campanha do Outubro Rosa é marcada por uma mudança importante: Desde 1º de outubro, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) ampliou a cobertura obrigatória da mamografia digital, que passa a ser garantida sem restrição de idade ou gênero, desde que haja indicação médica. Segundo a ANS, dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam para cerca de 78.610 novos casos de câncer de mama no Brasil por ano no triênio 2026-2028. O câncer de mama é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres, depois dos tumores de pele não melanoma, enquanto o câncer do colo útero é o terceiro, com estimativa de 19.310 novos casos no mesmo período. “A doença está relacionada principalmente à infecção persistente por tipos oncogênicos do Papilomavírus Humano (HPV), e sua prevenção envolve, entre outras medidas, a vacinação contra o HPV e o rastreamento adequado”, alerta a ANS.
Mamografia pelo SUS pode demorar até três meses
Procurar avaliação médica diante de sinais como nódulo endurecido, alterações na pele ou no mamilo, saída espontânea de líquido ou pequenos nódulos nas axilas ou no pescoço é fundamental para as mulheres, assim como realizar o rastreamento a partir dos 40 anos ou antes, quando houve indicação médica. Segundo a Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), anteriormente, o tempo médio de espera para o agendamento de mamografia era de aproximadamente 45 dias. “Entretanto, após a ampliação da faixa etária contemplada pelo rastreamento, de 50 para 35 anos (em 2025), houve aumento da demanda, elevando o tempo médio de espera para cerca de 90 dias.”
A principal porta de entrada para solicitar exames pelo SUS é a Atenção Primária à Saúde. “A mulher deve procurar sua UBS de referência, onde será acolhida e avaliada por um profissional de saúde, que solicitará a mamografia quando indicada, conforme os protocolos vigentes. O pedido seguirá o fluxo municipal de regulação e agendamento. Se houver alterações ou necessidade de investigação complementar, a usuária poderá ser encaminhada à atenção especializada, conforme avaliação clínica e fluxos assistenciais”, explica a PJF. Em caso de diagnóstico, portanto, a consulta com mastologista é agendada de forma espontânea pela UBS de referência da usuária. “As mulheres devem manter acompanhamento regular na UBS e buscar atendimento diante de sinais, sintomas ou alterações suspeitas, sem aguardar o período de rastreamento”, reforça o Município.
Paciente participa de associação sem fins lucrativos para cuidados paliativos
“O câncer foi maravilhoso para mim, tanto da primeira vez, quanto da segunda. Ressignificou demais a minha vida, me tornei uma pessoa melhor”, avalia a contadora Lilian Miranda, que passou por quimio e radioterapia no segundo tratamento. “Agora vai completar seis meses e vêm todos os exames”. Com os aprendizados de quem viveu duplamente a doença, ela foi convidada a participar de uma associação sem fins lucrativos para cuidados paliativos do câncer. “A Associação SobreoViver Mãos que Cuidam nasce com o propósito de cuidar de pessoas que enfrentam doenças graves e das famílias que caminham ao lado delas.” O primeiro encontro acontece no dia 7 de novembro, das 8h30 às 12h no Jardim Botânico da UFJF. A participação é gratuita e aberta a todos os interessados. Na programação, haverá também caminhada ecológica pelas trilhas.
A atividade física foi essencial durante o tratamento de Lilian: “Quando me sentia cansada, subia na bike 30 minutinhos e virava uma pessoa nova. O esporte me ajudou muito, porque sou do endurance (treino de resistência) e já estou acostumada a passar por algum momento de sofrência e continuar, mesmo com dor. A radioterapia, principalmente, dá uma baqueada, parece que você correu uma maratona.” Mesmo assim, uma semana após o tratamento, ela correu cinco quilômetros no Rio de Janeiro e teve a mesma sensação de ter percorrido os 42km. “Fiquei quebrada. Mas é isso, agora sigo a vida cuidando de mim.” Nesse sentido, ela deixa um recado: “Cuide-se, da cabeça também, senão, seu corpo adoece. Aprendi a ter amorosidade comigo e hoje sei que não preciso dar conta de tudo.”

