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A inteligência artificial (IA) deve ocupar um espaço maior nas campanhas eleitorais de 2026, seja na produção de conteúdo, na segmentação de públicos ou na análise de dados. Ao mesmo tempo, o avanço dessas ferramentas amplia os riscos de desinformação, manipulação de imagens e reforço de vieses políticos, exigindo mais atenção das campanhas, das plataformas e da própria Justiça Eleitoral. É o que afirmam especialistas ouvidos pela Tribuna de Minas.

A professora e pesquisadora da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Kérley Winques, defende que a influência das mídias sociais e dos algoritmos já permeou as eleições de 2018 e 2022. O jornalista e professor dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Gustavo Henrique Medrado, concorda.

Gustavo explica o termo: “os algoritmos por trás dos sistemas de recomendação de conteúdo, presentes no feed das mídias sociais, nada mais são do que modelos de IA treinados para aprender o comportamento do usuário e oferecer aquilo que ele quer ver, aquilo que o agrada”.

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(Foto: Felipe Couri)

No entanto, as inteligências artificiais generativas – ferramentas como Chat GPT e Gemini, que produzem textos, imagens e vídeos – aumentam os riscos relacionados à desinformação durante as eleições.

As IAs generativas não foram feitas para dizer a verdade, mas sim para gerar respostas mais prováveis e sempre na intenção de agradar o usuário. É o que alguns pesquisadores chamam de sycophancy – no bom português, bajulação”, aponta o docente da UEMG.

“E isso, se tratando de eleição, é extremamente perigoso, pois reforça um comportamento que é essencialmente humano, os vieses. Todos nós temos nossas preferências, que vamos formando ao longo da vida, com base nas nossas vivências e experimentações. E, no que concerne à comunicação, nós tendemos a acreditar e a levar em consideração aquelas informações que vão de acordo com nossas crenças pré-estabelecidas”, completa Gustavo.

O jornalista explica que os algoritmos aprendem o perfil de comportamento dos usuários e as grandes empresas de tecnologia vendem estas informações para as mais diversas organizações atingirem, por meio da comunicação, o fim que almejam.

“Há casos de candidatos que se aproveitam desses conteúdos com maior potencial de captura da atenção, geralmente aqueles apelativos, violentos, que despertam fortes emoções, e se aproveitam (também) do impulsionamento que recebem naturalmente do algoritmo, chegando cada vez em mais eleitores”, avalia. Gustavo.

Kérley, por sua vez, destaca que a IA também amplia a capacidade de produzir conteúdos em escala, automatiza estratégias de segmentação do público e dos conteúdos e torna mais sofisticadas as campanhas de desinformação.

Não existe inteligência artificial neutra. Toda IA incorpora escolhas humanas: desde os dados utilizados para treiná-la até os objetivos definidos por quem a desenvolve. Estamos falando de tecnologias produzidas por empresas e instituições que operam a partir de interesses econômicos, políticos e culturais”, reforça a pesquisadora da UFJF.

“Além disso, essas ferramentas não existem isoladamente. Elas fazem parte de plataformas que organizam nossa experiência informacional cotidiana. Quando uma IA resume notícias, responde perguntas ou prioriza determinados conteúdos, ela também estabelece critérios sobre o que ganha visibilidade e o que permanece invisível”, completa a docente.

Kérley argumenta que, quando utilizadas como ferramentas de busca, as inteligências artificiais não substituem o julgamento dos eleitores, mas passam a atuar como mediadoras da opinião pública – papel antes exercido principalmente pelos veículos de comunicação e pelas conversas entre as pessoas.

Automatização de um cenário conhecido

Mas além dos desafios apresentados pelas IAs, elas são apenas um dos fatores que influenciam o contexto político. O publicitário e estrategista de marketing político, Marcos Villas Boas, defende que essas ferramentas contribuem com aspectos das campanhas, mas não são as únicas responsáveis por estabelecer uma relação entre candidato e eleitor.

“Tem contexto econômico, tem credibilidade dos candidatos, tem identificação ideológica, e a IA vai só potencializar essa identificação. E existe esse país polarizado, que a gente vai ver como a IA vai trabalhar nessa polarização, né? Então, ela vai potencializar a comunicação, mas ela não vai substituir a construção de um candidato, a confiança que a gente tem”, acredita Marcos.

O jornalista, cientista político e professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Luiz Ademir de Oliveira, propõe que o próprio debate político contribui para a limitação dos inegáveis riscos que as inteligências artificiais apresentam.

“É um movimento de, nos próprios campos políticos, tentar minimizar o poder da IA. Obviamente que, quanto mais acirrada a disputa, como vai ser, a tendência é que utilizem mais estratégias em busca do poder, inclusive o uso da IA. Mas vai depender muito dessa correlação de forças e como cada campanha vai estar preparada para combater, por exemplo, a desinformação e o uso da tecnologia que não seja feito dentro das normas legais”, frisa.

“A gente tem que pensar que o campo político, ele é um campo que tem sua força, tem suas formas de hierarquia, de controle, então eu percebo que a IA, ela pode potencializar, mas esse discurso político vai estar muito relacionado a todo um capital que é do próprio campo político”, completa Luiz Ademir, que é pesquisador de Comunicação Política. Ele reconhece que, apesar dos impactos destas tecnologias nas eleições, a sociedade civil está mais alerta e as instituições possuem mais conhecimento para lidar com o assunto e reduzir seus impactos negativos.

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Especialistas avaliam o impacto da incorporação das inteligências artificiais no cotidiano durante o período de campanha eleitoral (Fotos: Arquivo Pessoal)

Estratégias para mitigar os riscos

Independentemente das disputas por identificação e confiança, é preciso adotar estratégias institucionais para enfrentar a desinformação e reduzir os riscos do uso da inteligência artificial. Nesse sentido, o TSE publicou, em 2019, a Resolução nº 23.610, que regulamenta o uso dessas ferramentas nas eleições e foi atualizada em 2026.

Essa legislação não consegue impedir abusos, mas eu acho que de certa forma é um alerta e pode também favorecer para que as próprias campanhas, os candidatos, criem estratégias de vigilância em relação ao uso abusivo por parte dos concorrentes”, avalia Luiz Ademir.

No que diz respeito à inteligência artificial, as regras eleitorais proíbem o uso de deepfakes.

Deepfakes são técnicas de inteligência artificial utilizadas para criar ou alterar vídeos, fotos e áudios, simulando rostos e vozes de pessoas reais”, explica Luiz Ademir. Também é vedado o uso de conteúdo fabricado ou manipulado para divulgar informações falsas ou descontextualizadas.

A proibição, segundo a resolução, inclui o uso de chatbots para simular conversas com candidatos ou outras pessoas reais. A norma veda ainda a publicação ou o impulsionamento de novos conteúdos sintéticos, mesmo quando identificados, que utilizem imagem, voz ou manifestações de pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação. Durante o horário de propaganda eleitoral obrigatória, também não podem ser usadas montagens, trucagens, computação gráfica, desenhos animados ou efeitos especiais.

A determinação também delimita o que as plataformas de inteligência artificial não podem fazer durante o período eleitoral: fica proibido ranquear, recomendar ou priorizar candidaturas e partidos; emitir opiniões ou recomendar voto por meio de respostas automatizadas; criar ou alterar mídias que contenham cenas de sexo, nudez ou pornografia envolvendo candidatos e formular publicidade que represente violência política contra a mulher.

Além disso, o uso de conteúdo sintético multimídia gerado por IA para criar, substituir, omitir ou alterar imagens e sons deve ser informado de modo explícito, destacado e acessível.

A professora Kérley, no entanto, avalia que a questão ultrapassa o reconhecimento de informações verdadeiras ou falsas: “A identificação do uso de IA, sozinha, não resolve os desafios que essas tecnologias trazem para o debate público. É preciso combinar transparência com fiscalização, responsabilização das plataformas e investimentos consistentes em educação midiática”, pondera.

Já para o mercado, a legislação exige adaptabilidade: “Vai ter que investir em boas práticas, revisar o fluxo de produção de conteúdo para garantir que esse uso da IA esteja em conformidade com a legislação. Então tem que estudar e ficar em conformidade”, comenta Marcos.

“Eu acho que a tendência é que as campanhas passem a utilizar a inteligência artificial, eu espero, de uma forma cada vez mais profissional e mais responsável, reduzindo risco jurídico e de reputação”, finaliza o publicitário.

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(Foto: Felipe Couri)

*Estagiária sob supervisão do editor Arthur Raposo Gomes.

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