

Quem assumir o Governo de Minas em 2027 encontrará uma lista de cobranças já colocada em Juiz de Fora. Algumas passam diretamente pelo Estado, como saúde e educação. Outras dependem de financiamento, apoio ou articulação com o Município e a União. Para entender quais são essas prioridades, a Tribuna de Minas ouviu moradores e representantes de diferentes setores da cidade em mais uma etapa do Voto e Cidadania 2026.
As respostas mostram uma cobrança por maior presença do Governo de Minas em Juiz de Fora e na Zona da Mata. Entre os temas aparecem infraestrutura, saúde, educação, habitação, geração de renda, desenvolvimento econômico e políticas sociais. A prefeita Margarida Salomão (PT) também pede mais atenção à região e uma atuação do Estado para melhorar a conexão com o Aeroporto da Zona da Mata.
Luiz do Carmo da Silva, morador do Bairro Tiguera, que teve a casa atingida pelo temporal

Em fevereiro, durante as fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora, Luiz teve a casa onde mora e imóveis que alugava interditados pela Defesa Civil após deslizamentos. Um barranco cedeu sobre casas na região, deixando quatro mortos e várias famílias desalojadas. Muitos moradores precisaram deixar suas residências às pressas.
Para ele, o próximo Governo de Minas deve ampliar o apoio às obras de contenção e às ações de prevenção em Juiz de Fora, em parceria com o município.
“Não basta construir e abandonar. No mapeamento das áreas de risco, ainda não sinalizaram um plano de prevenção, um plano para remover e desviar as linhas de esgoto, criando uma canaleta para o escoamento da água da chuva”, pondera.
Na avaliação do morador, a falta dessas medidas teve peso decisivo na tragédia.
MC Dodo da Baixada, artista e produtor de conteúdo

“Vejo as realidades”, conta MC Dodo da Baixada, artista que vem mostrando bairros da periferia de Juiz de Fora em vídeos publicados no Instagram. Nos bastidores está Douglas Almeida, de 32 anos, trabalhador e pai que concilia a rotina com a produção de conteúdo, já feita em locais como Dom Bosco, Vila Ideal e São Benedito.
Nas gravações, ele diz encontrar problemas de infraestrutura que vão de esgoto a céu aberto e buracos nas ruas à falta de acessibilidade. Embora parte dessas demandas seja de responsabilidade municipal, Dodo espera que o próximo Governo de Minas também amplie os investimentos e as parcerias voltadas às periferias.
“É preciso estar no dia a dia”, resume.
João de Matos, empresário e fundador do Fátima Buffet

João espera que o próximo Governo de Minas dê mais atenção à Zona da Mata, com políticas voltadas ao desenvolvimento econômico regional e à atração de novos negócios e investimentos.
“Temos que parar de pensar na cidade de Juiz de Fora e pensar na região. É uma região empobrecida, enfraquecida, em todos os sentidos. Temos que ter um redesenho, um desenho novo do Estado. Tem que começar a fazer um desenho novo das vocações, das possibilidades, do que é interessante para nós e do que não é interessante para nós”, projeta.
Jorge Ramos, advogado e presidente do Conselho Municipal de Saúde
Atuante no Conselho Municipal de Saúde de Juiz de Fora desde 1994, Jorge Ramos aponta como prioridades uma maior participação do Estado no financiamento da saúde de Juiz de Fora e a retomada das obras do Hospital Regional. Também defende mais diálogo com o controle social, transparência sobre os projetos para a área e regularidade nos repasses aos hospitais.
“Nenhuma coordenação de campanha fez qualquer convite à participação do Conselho Municipal de Saúde nas questões da saúde. O Estado precisa estar mais presente no financiamento, porque o município a gente sabe que já está sangrando”, espera.
Sol Mourão, artista e presidente da Astra-JF

À frente da Associação de Travestis, Transgêneros e Transexuais de Juiz de Fora (Astra-JF), Sol Mourão defende recursos, estrutura e continuidade para políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e travestis, queers, intersexo, assexuais e outras identidades de gênero).
Ela lembra que o município avança na implantação de um Centro de Referência para a comunidade, mas considera necessário um diálogo mais próximo com o Governo de Minas para fortalecer o equipamento e ampliar as políticas no interior. “Não dá para pensar uma política estadual para a população LGBTQIA+ sem olhar para Juiz de Fora como um território estratégico”, diz.
Sol também defende avanços na empregabilidade e na geração de renda. Na educação, aponta a necessidade de fortalecer ações de enfrentamento à LGBTfobia e a formação de profissionais da educação, saúde, assistência social e segurança pública. Na saúde, cobra a ampliação do acesso aos serviços, principalmente para pessoas trans e travestis. “É importante que o Estado reconheça e financie iniciativas, principalmente aquelas que trabalham com formação, cultura, juventude e geração de oportunidades”, complementa.
Lúcia Lacerda, coordenadora-geral do Sinpro-JF

Entre as demandas apresentadas ao próximo governador, a coordenadora do Sindicato dos Professores de Juiz de Fora (Sinpro-JF) destaca a valorização dos serviços públicos.
“Isso implica rever as isenções fiscais milionárias concedidas a grandes empresários, interromper privatizações como a da Copasa e valorizar os servidores públicos por meio de salários dignos, concursos públicos e planos de carreira”, exemplifica.
Na educação, Lúcia defende uma discussão com a Assembleia Legislativa de Minas Gerais sobre os critérios da cota-parte do ICMS destinada à área, que, segundo ela, prejudicam municípios maiores e com maior número de matrículas.
“Além disso, defendemos que o próximo governador valorize o magistério estadual, com a aplicação do piso salarial em toda a carreira, […]. Por fim, consideramos que o novo governador deve ter uma posição clara contra a militarização e a terceirização de escolas públicas”, finaliza.
Lúcia Moreira, coordenadora do ”Anjos da Rua”

À frente de um grupo de voluntários que atende pessoas em situação de rua, Lúcia Moreira espera que o próximo Governo de Minas amplie o financiamento e o apoio às políticas de habitação, trabalho, renda e acesso a documentos e benefícios sociais.
Segundo ela, mais de 30% da população em situação de rua atendida atualmente em Juiz de Fora é formada por mulheres, muitas delas mães solo. “O que existe hoje foi pensado para homens. Precisamos virar essa chave”, comenta.
Lúcia defende apoio estadual para ampliar estruturas específicas de acolhimento a mulheres e crianças, além de protocolos de atendimento, acesso à saúde, qualificação profissional e políticas de auxílio-moradia para mulheres em situação de rua que tenham sido vítimas de violência.
Margarida Salomão, prefeita de Juiz de Fora

Em seu segundo mandato à frente da Prefeitura de Juiz de Fora, Margarida Salomão espera que o próximo governador dê maior atenção à Zona da Mata. “É preciso superar essa inatividade, esse desinteresse, essa negligência que nós sofremos nos últimos oito anos e que definitivamente estão aquém do que a região e a cidade representam para o Estado“, afirma.
Entre as prioridades, a prefeita cita uma atuação mais efetiva do Governo de Minas para melhorar a conexão e ampliar o uso do Aeroporto da Zona da Mata. “Que tenha um número maior de voos, com maior diversidade de destinos. Nós precisamos que o governador de Minas brigue por isso e que resolva problemas triviais, como o acesso viário àquele aeroporto”, espera.
Margarida também cobra o repasse de recursos estaduais para a conclusão da estrutura do antigo Hospital Regional. Segundo ela, a Prefeitura pretende aproveitar o espaço para implantar o novo Hospital de Pronto Socorro de Juiz de Fora.

