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Em ano eleitoral, a relação entre Juiz de Fora e o Governo de Minas volta ao centro do debate. A cidade depende de articulação com o Estado para investimentos, obras e políticas públicas, ao mesmo tempo em que mantém peso político e eleitoral relevante na Zona da Mata.

Nas últimas semanas, a Tribuna de Minas ouviu ex-prefeitos que comandaram Juiz de Fora desde a redemocratização sobre a relação que mantiveram com diferentes governadores. No último domingo (23), também apresentou o que os candidatos ao Governo de Minas propõem para a cidade e região da Zona da Mata.

Agora, a reportagem amplia essa discussão e ouve cientistas políticos sobre como essas relações entre Estado e município funcionam na prática, o que pesa nessas articulações e até que ponto diferenças partidárias interferem nesse processo. A análise também passa pelo lugar que Juiz de Fora ocupa no cenário estadual. Confira.

As três esferas do governo

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Marta Mendes, cientista política e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). (Foto: Arquivo pessoal)

A cientista política e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Marta Mendes, explica que entender a relação entre a gestão estadual e a administração de um município passa, primeiramente, por entender o arranjo federativo brasileiro. A Constituição Federal, promulgada em 1988, transformou os municípios em entes federados autônomos. Com isso, todos têm autonomia política, administrativa e fiscal: podem arrecadar tributos e aplicar as receitas provenientes desses impostos. 

“Os municípios têm responsabilidades muito importantes e centrais em áreas de políticas sociais, com impacto direto na vida das pessoas. O município é responsável pela educação fundamental, pela atenção primária na saúde, a porta de entrada para o atendimento no SUS”, introduz Marta, que é coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Política Local (Nepol).

Para cumprir com estas obrigações, Marta explica que os municípios também contam com transferências fiscais diretamente da União, como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), além de transferências discricionárias e de recursos repassados pelos governos estaduais e federal. Entre esses mecanismos, apontados pela pesquisadora, estão as emendas parlamentares, um dos assuntos mais debatidos no campo político atualmente. “Isso depende da atuação dos deputados e, para isso, é importante que os prefeitos construam alianças, que busquem recursos”, argumenta.

Quanto ao contexto estadual, segundo avaliação de Marta, há muita desigualdade entre os municípios mineiros. Enquanto cidades maiores conseguem uma boa arrecadação de impostos, um volume significativo de receita própria e menor dependência em relação a essas transferências, a grande maioria das cidades de Minas Gerais depende quase que totalmente dessas transferências para pagamentos e custeio de serviços.

Juiz de Fora é uma cidade importante no Estado, pela sua importância econômica, mas também eleitoral e política. Então, certamente qualquer prefeito deve manter uma boa relação com o governo do Estado, assim como qualquer governador de Minas deve manter uma boa relação com o prefeito ou a prefeita de Juiz de Fora, porque a cidade exerce uma influência e liderança na região da Zona da Mata”, justifica Marta.

Rubem Barboza, cientista político e também professor da UFJF, segue explicação semelhante ao avaliar que não existe nenhuma prefeitura no Brasil capaz de dar conta sozinha dos problemas de seus municípios, todas dependem dos governos estaduais e federal.

“O que não significa que os desafios existentes em cada município estejam resolvidos por esta colaboração entre os três níveis de governo. Atualmente, parece certo dizer que a União fica com 58% da arrecadação do país, os estados com 27% e os municípios com a menor fatia, 17%. Ou seja, os municípios dependem fortemente dos governos federal e estaduais para se governarem. Juiz de Fora não é uma exceção”, aponta Robem.

Para o cientista político, após as fortes chuvas que atingiram o município em 2026, o governo prometeu R$ 60 milhões de ajuda emergencial e o governo federal assumiu o compromisso de enviar R$ 85 milhões para obras no Morro do Cristo. No entanto, os planos de trabalho para a recuperação da cidade enviados pela administração municipal ao governo federal ficaram na ordem de R$ 799 milhões.

“Não tenho notícia de que a Prefeitura tenha enviado algo semelhante ao governo do Estado. Neste movimento, percebemos que o governo estadual investe, sistematicamente, menos que o federal em Juiz de Fora e obedece a uma estratégia que não beneficia a cidade nas últimas duas décadas. O governo do estado tem menor capacidade de investimento que o federal, e seus recursos são majoritariamente aplicados em três regiões: a Região Metropolitana de Belo Horizonte, o Triângulo Mineiro – sobretudo Uberlândia – e o norte de Minas.”

Questionada sobre a afirmação, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou à Tribuna de Minas que desde os primeiros contatos com o Governo de Minas Gerais, a Defesa Civil Estadual comunicou não dispor de recursos para obras de reconstrução. “O Estado, no entanto, contribuiu com ações de ajuda humanitária, por meio da disponibilização de equipamentos, pessoal, mantimentos e outros tipos de apoio desta natureza. Dessa forma, as solicitações de recursos para as obras de reconstrução foram direcionadas ao Governo Federal.”

Redemocratização e as relações entre estado e município

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Rubem Barboza, cientista político. (Foto: Arquivo pessoal)

Em meados dos anos 80, com o processo de redemocratização, foi instalado um novo modo de diálogo entre governadores mineiros e prefeitos de Juiz de Fora. Segundo Rubem Barboza, nenhum prefeito da cidade entrou em conflito com o governo estadual, por qualquer motivo, neste período.

“Os prefeitos e os governadores estavam empenhados politicamente na defesa da democracia, e Juiz de Fora também. Isso pode parecer irrelevante para muitos, mas não era e não foi”, garante.

Nos anos que se seguiram, o professor afirma que todos os governadores e prefeitos trouxeram a público algum ganho, como  a construção de uma UPA ou uma creche, que beneficia muitas pessoas.

“Parece haver um padrão nos últimos anos, pois a capacidade de investimento do estado depende muito dos ciclos econômicos do país, por óbvio, oscilando entre uma capacidade média – por comparação com São Paulo – ou quase nenhuma capacidade”, analisa Rubem.

Para o docente, os dois governos de Aécio Neves (PSDB) e de Antônio Anastasia (PSDB) ocorreram num período de crescimento econômico e contenção da inflação.

“Por isso talvez, e pela proximidade partidária e política, as relações entre a prefeitura e o governo do estado foram as mais produtivas dos últimos vinte anos”, observa.

Em seguida, Rubem acredita que o país entrou em crise e as possibilidades de investimento do estado, durante o governo de Fernando Pimentel (PT), diminuíram, apresentando problemas com os repasses constitucionais para as cidades. Por fim, para Rubem, os dois governos de Romeu Zema (Novo) foram de ajuste das contas estaduais.

Por sua vez, Marta acredita que é comum observar que, independentemente de partido e de ideologia, os chefes do Poder Executivo, a prefeita e o governador, mantinham um diálogo, algo importante para os dois lados.

O que vimos na última década foi o aumento da polarização política, um fenômeno que tem sido descrito como uma maior distância entre a esquerda e a direita. Eu tendo a ver como uma radicalização de direita, que se organizou em torno do bolsonarismo e agora vemos esse campo mais fragmentado”, complementa a professora.

Eleitorado juiz-forano segue relevante para as gerais

Quando analisam o eleitorado juiz-forano, os dois cientistas apontam que o município segue relevante para as candidaturas ao governo do Estado. Em eleições gerais, segundo observação de Marta, todos os candidatos a governador de Minas de Gerais que venceram a disputa também ganharam em Juiz de Fora.

“Quando pensa-se no Brasil, todo o candidato que ganha para presidente, também ganha em Minas. Então, podemos dizer que, desde 1988, todo o candidato que se elegeu governador, também ganhou em Juiz de Fora”, indica.

Por isso, ela pontua que o município tem grande importância não somente por ter influência na região da Zona da Mata e ser um polo importante, mas seu eleitorado é crucial para os candidatos ao governo do estado. Marta ainda aponta que os prefeitos à frente da gestão administrativa são cabos eleitorais muito importantes para os candidatos ao Governo de Minas Gerais.

“Em um estado que tem características socioeconômicas diferentes e perfis distintos de eleitor, para ganhar o Governo de Minas, o candidato deve ser capaz de conversar com esses perfis de eleitor, o que não é fácil. Por isso, a importância do apoio dos prefeitos para ajudar a construir uma reputação, para ajudar a o ajudar a construir essa ponte entre a gestão do município e o estado”, explica.

No entanto, Barboza acrescenta à análise um dado importante: a cidade ainda dispõe de um eleitorado com peso estratégico, mas registrou perda neste ano.

A população aumentou, mas o número de eleitores caiu: foram 23 mil títulos a menos em relação a 2022 e representa 2% do eleitorado mineiro. Nos últimos 20 anos, o eleitorado da Região Metropolitana de Belo Horizonte cresceu de forma contínua, Uberlândia avançou com força e Juiz de Fora ficou praticamente estagnada”, pondera.

O professor também ressalta um aspecto político que, sob seu ponto de vista, não pode ser ignorado. Segundo um estudo realizado por ele, as lideranças políticas de Juiz de Fora, e da região da Zona da Mata, bem como as lideranças econômicas, possuem uma baixa capacidade de atuação conjunta diante dos governos estaduais.

“Esta fragmentação impede que o peso eleitoral de Juiz de Fora possa ser transformado num instrumento de pressão junto ao governo do estado. As outras regiões mais dinâmicas conseguem fazer isso de forma mais eficaz”, considera.