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Quase duas semanas após o início das campanhas eleitorais no país, Juiz de Fora já é a terceira cidade de Minas Gerais com o maior número de denúncias de propaganda eleitoral irregular, com 41 registros. O município fica atrás apenas de Belo Horizonte, que contabiliza 108 ocorrências, e Iturama, com 78. Os dados são do Pardal, ferramenta da Justiça Eleitoral que permite o registro e a consulta pública de denúncias de irregularidades durante o período eleitoral.

Segundo o doutor em Ciência Política Luiz Ademir, a tendência é que o número de denúncias cresça à medida que a campanha ganhe intensidade. Com o início do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão nesta sexta-feira (28), a disputa entra em uma nova etapa e deve se acirrar ao longo de setembro. “Ela tende a ser mais intensificada ainda em setembro e na reta final, nas últimas duas semanas”, afirma. Para o cientista político, é justamente às vésperas do primeiro turno que a campanha deve atingir seu ápice e, com maior exposição dos candidatos, também podem aumentar os registros de possíveis irregularidades.

Dos muros e equipamentos públicos às telas dos celulares, a propaganda eleitoral irregular encontrou diferentes espaços em Juiz de Fora. Foi nas ruas, porém, que se concentrou a maior parte das denúncias. São 23 registros: 18 envolvendo campanhas para deputado federal, quatro para deputado estadual e um relacionado a partido, coligação ou federação espalhadas por espaços públicos do município. 

Há três registros envolvendo campanhas para deputado estadual em bens particulares e outros três em bens públicos — dois relacionados a candidatos a deputado federal e um à Presidência. A plataforma contabiliza ainda três ocorrências em comícios e showmícios, todas referentes a candidaturas à Assembleia Legislativa, além de uma denúncia por distribuição de material gráfico na disputa pela Câmara dos Deputados.

Conforme explica Luiz Ademir, o uso de carros de som, trios elétricos e outros equipamentos de sonorização é restrito a situações previstas pela legislação eleitoral. Carros de som, por exemplo, podem ser utilizados em carreatas, caminhadas e passeatas, enquanto os trios elétricos são permitidos para a sonorização de comícios. “Eles só podem ser utilizados em situações específicas”, resume o cientista político. Os outdoors também aparecem entre as irregularidades denunciadas na cidade, com seis registros, divididos igualmente entre campanhas para deputado federal e estadual. Na internet, foram duas ocorrências: uma relacionada à eleição presidencial e outra à disputa por uma vaga na Câmara. 

Candidatos a deputado lideram denúncias de propaganda irregular

A 37 dias das eleições, já foram registradas 495 denúncias de propaganda eleitoral irregular em todo o estado, e a tendência é que esse número aumente conforme se aproxima a data do pleito, marcado para 4 de outubro. Conforme o TSE, a maior parte das queixas espalhadas por Minas, está relacionada a candidaturas a deputado federal, e, o cenário encontrado em Juiz de Fora é o mesmo no restante do estado: a maior parte das irregularidades foram encontradas em vias públicas. 

Até o momento, denuncias  por diferentes tipos de irregularidades registradas em 106 municípios mineiros. A plataforma Pardal, desenvolvida pelo órgão, também revela que, em Minas, há uma denúncia envolvendo propaganda de candidato ao Senado, dez relacionadas à disputa pela Presidência, 13 ao Governo de Minas, 85 a partidos ou coligações eleitorais, 173 a campanhas de deputados estaduais e 213 de deputados federais.

Para Luiz Ademir, a concentração das denúncias em campanhas para deputado federal e estadual está relacionada também às estratégias adotadas por candidatos a cargos proporcionais. Diferentemente das disputas majoritárias, nas quais nomes que concorrem à Presidência e aos governos estaduais costumam ter maior exposição na imprensa, no horário eleitoral e nas plataformas digitais, candidatos ao Legislativo precisam disputar a atenção do eleitor em meio a um número muito maior de concorrentes.

Nesse cenário, a presença nas ruas ganha peso. Segundo o cientista político, muitos eleitores sequer se lembram em quem votaram para deputado na eleição anterior, o que leva as campanhas a buscarem formas de fixar nome, número e rosto dos candidatos, sobretudo em seus redutos eleitorais. “Esses candidatos precisam criar atalhos cognitivos para facilitar essa lembrança do eleitor”, explica. Por isso, mesmo com o avanço das redes sociais, a ocupação do espaço urbano continua estratégica: “É onde o cidadão trafega, caminha e vai visualizar essas propagandas.”

A exposição, porém, exige equilíbrio. Ademir avalia que uma presença forte nas ruas pode transmitir ao eleitor a percepção de uma campanha estruturada e com apoio, mas o excesso pode produzir o efeito contrário. “O eleitor hoje não gosta muito dessa poluição visual”, afirma. Além do risco de irregularidades quando a propaganda ocupa locais proibidos, a saturação de cartazes, banners e materiais impressos pode provocar incômodo e até rejeição. Por isso, segundo ele, as campanhas precisam dosar a exposição e combinar diferentes meios de propaganda, “respeitando, obviamente, o que determina a legislação eleitoral”.

Da urna ao voto: o que sustenta a confiança nas eleições 

A lisura de uma eleição depende de diferentes peças. Uma delas está nas mãos dos próprios candidatos e no respeito às regras da disputa. Quando o assunto são as urnas eletrônicas, porém, a segurança não depende apenas da boa-fé: há uma série de mecanismos de fiscalização, testes e auditorias antes e durante a votação. 

Dos protocolos de segurança já mencionados pelo analista judiciário e chefe do Cartório da 153ª Zona Eleitoral, Eduardo Braga, à estrutura institucional que sustenta o processo de votação, a urna eletrônica tornou-se, ao longo dos anos, uma referência também fora do país. Para o cientista político e professor da UFJF Fernando Perlatto, essa trajetória ganha peso diante das tentativas de colocar sob suspeita os processos eleitorais, movimento observado nos últimos anos tanto no Brasil quanto em outros países.

Segundo Perlatto, a confiabilidade do sistema não está restrita ao equipamento que o eleitor encontra na seção eleitoral. Ela é resultado de um aparato construído ao longo do tempo, com investimentos, fiscalização da Justiça Eleitoral, testes e acompanhamento do processo. “Não é só a urna ali. Por trás da urna eletrônica tem todo um aparato institucional”, afirma.

O cientista político lembra que o modelo brasileiro é acompanhado por observadores internacionais e se tornou referência para outros países. Para ele, colocar em dúvida a votação significa atingir justamente um dos pilares da democracia. “Uma vez que a gente coloca em desconfiança essa base do processo, a gente coloca em desconfiança o processo democrático como um todo.”

Para Perlatto, valorizar o voto passa por compreender que a experiência democrática brasileira é relativamente recente. Ele lembra que o país atravessou, ao longo do século 20, dois períodos ditatoriais – o Estado Novo, entre 1937 e 1945, e a ditadura militar iniciada em 1964 – e que, mesmo durante a experiência democrática entre 1946 e 1964, os analfabetos não tinham direito ao voto. “Nós muitas vezes naturalizamos essa ideia da democracia e do exercício do voto como se fosse uma coisa banal, mas não é. Ela é uma conquista, resultado de muitas lutas, disputas e reivindicações.”

Nesse sentido, o cientista político destaca que o ato individual de escolher um candidato carrega uma dimensão histórica, mas também produz efeitos para os anos seguintes. Para ele, o voto “traz o passado dessas lutas sociais e políticas, mas traz o futuro”, pela responsabilidade e pelas consequências das escolhas feitas nas urnas.

Veja a lista das dez cidades mineiras com mais irregularidades eleitorais nas eleições 2026

Belo Horizonte: 108
Iturama Mg 78
Juiz de Fora  41
Uberlândia 29
Uberaba  21
Ipatinga  20
Montes Claros 13
Contagem  12
Coronel Fabriciano 10
Unaí  10