A ação da Apple sofreu nesta sexta-feira (31) o maior tombo em 16 meses após a falta de componentes pesar na projeção de vendas, sinalizando que as crises de abastecimento no setor estão sendo mais fortes do que se imaginava.
A receita da companhia deve subir de 9% a 11% no quarto trimestre fiscal, que vai até setembro, segundo a empresa em teleconferência de resultados na quinta-feira (30). Analistas esperavam alta de mais de 12% — justamente o período que deve marcar a estreia dos novos iPhones.
A Apple está penando para garantir processadores e segurar a disparada dos custos de memória, o que a obrigou a subir os preços de Macs e iPads no mês passado.
A crise de suprimentos também alongou os prazos de entrega de computadores importantes, como o Mac mini e o Mac Studio. Na ligação com investidores, o CEO Tim Cook disse que as restrições vão afetar ainda mais Macs, iPhones e iPads neste trimestre. A volatilidade do câmbio também está atrapalhando o crescimento.
A projeção decepcionante derrubou as ações da Apple em até 9,5%, para US$ 301,83 na abertura do mercado na sexta — a maior queda intradiária desde abril de 2025.
Cook comparou o custo da memória a uma “enchente que só acontece a cada 100 anos”, mas acrescentou que a falta de chips também foi alimentada por uma demanda mais forte que o esperado pelo iPhone e pelo Mac. Ele citou especialmente o interesse dos consumidores na linha iPhone 17 e no MacBook Neo, um laptop de baixo custo.
A Apple também avisou que o crescimento dos serviços vai desacelerar no trimestre de setembro. E soltou um alerta sobre o impacto das mudanças regulatórias no modelo de negócios da App Store na União Europeia e em outros lugares. As novas leis permitem que desenvolvedores recebam pagamentos de assinatura diretamente, sem pagar a taxa da Apple. A receita de jogos também veio mais fraca que o esperado.
A transição na liderança
Para completar, os resultados mostraram receita mais fraca que o previsto na China e na área de serviços no trimestre de junho. As vendas na China somaram US$ 18,8 bilhões, abaixo dos US$ 19,6 bilhões que alguns analistas projetavam.
A receita de serviços cresceu só 12%, para US$ 30,7 bilhões, contra uma projeção de US$ 31,4 bilhões. Esse setor inclui Apple Music, App Store, assinaturas do iCloud, streaming de vídeo e outros serviços digitais.
Ainda assim, as vendas totais superaram as estimativas, subindo 16%, para US$ 109,4 bilhões.
O trimestre funciona como uma espécie de despedida para Cook, que passa o cargo para o chefe de hardware, John Ternus, no dia 1º de setembro. Cook, no comando desde 2011, diversificou o portfólio de produtos e elevou as vendas anuais para quase meio trilhão de dólares.
As ações acumulavam alta de 23% no ano antes dos balanços, superando a maioria das concorrentes de tecnologia. A Apple recuperou o posto de empresa mais valiosa do mundo nos últimos dias — ultrapassando a Nvidia — em parte por ser vista como um porto seguro em meio aos gastos sem freio com IA. O valor de mercado atual da empresa beira os US$ 5 trilhões.
O iPhone segurou a onda
O iPhone, maior gerador de receita da Apple, foi o ponto positivo do último trimestre. A receita do produto subiu 22%, para US$ 54,3 bilhões, superando as estimativas de US$ 53,6 bilhões. Os números indicam que a demanda pela série iPhone 17, lançada em setembro, continua firme. A empresa também lançou o modelo de entrada 17e em março.
O lucro por ação foi de US$ 2,02 no terceiro trimestre, encerrado em 27 de junho, acima dos US$ 1,89 projetados pelos analistas.
A receita do Mac foi de aproximadamente US$ 10,4 bilhões, alta de 29% na comparação anual — mais um destaque e uma área essencial para Ternus. A empresa lançou novos Macs em março, incluindo o MacBook Neo, as versões M5 do MacBook Pro e um MacBook Air renovado. O mercado esperava US$ 8,62 bilhões.
O iPad, por outro lado, decepcionou: faturou US$ 6,19 bilhões, abaixo dos US$ 6,89 bilhões esperados. A Apple lançou um novo iPad Air em março e um iPad Pro atualizado em outubro, mas ambas as atualizações foram mais focadas em novos chips do que em mudanças grandes de design.
A Apple planeja vários novos Macs e iPads entre o fim deste ano e a primavera do hemisfério norte, o que deve dar um gás nas vendas. A lista inclui o primeiro MacBook com tela touch e um iPad mini reformulado — parte de uma renovação completa nas duas linhas.
Vestíveis e dispositivos para casa
A categoria de dispositivos vestíveis, casa e acessórios gerou US$ 7,88 bilhões em receita, alta de 6,5% na comparação anual, dentro do esperado pelo mercado (US$ 7,87 bilhões). A Apple quer turbinar esse segmento nos próximos meses com novos relógios e uma linha reformulada de dispositivos para casa, incluindo um hub residencial e um novo aparelho de TV.
A empresa também está mudando a forma como oferece seus produtos. Na terça-feira, lançou o Apple Upgrade, um programa de leasing que permite aos usuários assinar iPhones, iPads e Macs e trocá-los ao fim do contrato — algo parecido com financiamento de carro. O programa deve amenizar os recentes aumentos de preço para muitos consumidores.
O desafio de Ternus
Ternus, veterano de 25 anos de casa, assume o comando mais ou menos no meio do trimestre atual. O quarto trimestre é decisivo porque é quando os novos iPhones e outros produtos importantes geralmente chegam ao mercado.
O novo CEO enfrenta o desafio de adaptar a Apple à era da IA. A empresa de Cupertino vem penando para se atualizar nesse quesito, com seus serviços de inteligência artificial atrás dos concorrentes do Vale do Silício.
“Tem tanta oportunidade pela frente, com tudo o que está acontecendo nesse espaço, e estamos muito focados nos nossos planos e animados com isso”, disse Ternus durante a teleconferência. Cook confirmou que Ternus vai comandar as ligações de resultados daqui para frente.
O CEO entrante terá vários produtos novos para mostrar após assumir. A Apple se prepara para lançar seu primeiro iPhone dobrável, óculos inteligentes e outros dispositivos vestíveis.
Mas outros desafios estão no horizonte. Ternus vai precisar renovar a liderança da Apple, já que muitos executivos seniores estão perto da aposentadoria. Também terá que estancar a evasão de talentos: a empresa perdeu funcionários para a OpenAI e outras concorrentes na área de IA.
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