Mais de 800 mil pessoas visitam a ilha australiana de Rottnest anualmente para desfrutar das praias de areia branca, das águas cristalinas e do quokka, um marsupial adorável e famoso que sorri em selfies. Mas o que ficou encoberto pela história e pelo tempo é que, antes de se tornar um destino paradisíaco, o local era uma prisão que mantinha cerca de 4 mil prisioneiros do povo aborígene (indígenas australianos) Noogar.
É um lugar espiritual para os guardiões tradicionais de Wadjemup, como é chamada a ilha pelo povo aborígene, explica Len Collard, professor emérito da Universidade da Austrália Ocidental e ancião Noongar. “Na história Noongar”, diz ele, “quando as pessoas morrem, seu espírito deixa o corpo e viaja para o oeste, até as ilhas, para o lugar dos fantasmas.”
“Wadjemup sempre foi uma morada dos espíritos”, explica Collard, “mas definitivamente se tornou um lugar mais espiritual após o regime colonial, depois de se tornar o local com o maior número de mortes de aborígenes sob custódia na Austrália.”
Wadjeup como prisão aborígine
Os aborígenes australianos são uma das civilizações mais antigas do planeta, sendo os guardiões da terra, dos mares e dos céus australianos há pelo menos 65 mil anos.
O Reino Unido reivindicou o leste da Austrália em 1770 e sua Primeira Frota, composta principalmente por colonos condenados, chegou em 1788. Durante o período colonial que se seguiu, conflitos violentos eclodiram entre os povos aborígenes locais e os britânicos.
Wadjemup se tornou uma prisão para meninos e homens aborígenes em 1838. Os primeiros prisioneiros chegaram de barco, dormindo em uma caverna costeira enquanto extraíam calcário e construíam a própria prisão.
A maioria dos detentos foi acusada de roubo de gado ou rações de farinha, afirma Glen Stasiuk, professor da Universidade Murdoch e diretor do documentário de 2014 “Wadjemup: Prisão Negra — Playground Branco

Ele explica que o sistema já era “completamente estranho” para os homens e meninos, que foram acusados, presos e sentenciados em um idioma que não entendiam. De repente, eles se viram enviados para uma ilha, sem saber se ou quando veriam seus entes queridos novamente.
Alguns prisioneiros percorreram longas e traumatizantes distâncias, inclusive desde Kimberley, uma região remota do interior australiano a mais de 2 mil quilômetros de distância.
Uma vez em Wadjemup, os prisioneiros eram forçados a trabalhos árduos, como extrair materiais e construir a infraestrutura da ilha. “O cais, as casas, a prisão, a residência do governador”, diz Stasiuk, “tudo isso foi construído por prisioneiros aborígenes”. Collard afirma que essa construção ajudou a colônia a justificar o custo da instalação da prisão, já que os aborígenes poderiam ser usados como mão de obra barata em projetos futuros após deixarem a ilha.
A vida nas celas não era mais fácil, e a prisão estava superlotada e infestada de doenças. Essas condições brutais foram agravadas pelas mãos de Henry Vincent, um superintendente particularmente “bárbaro”, segundo Stasiuk. “Vincent tinha um olho só e vinha das guerras napoleônicas”, explica ele. “Ele acorrentava os homens em suas celas, espancava os prisioneiros e atirava neles.”
No final do século XIX, os apelos para o fechamento da prisão ganharam força em paralelo com a criação de mais prisões no continente e um crescente interesse no uso recreativo de Wadjemup. Em 1902, após 93 anos de funcionamento, a prisão foi oficialmente fechada.
Quase 4 mil homens e meninos indígenas foram encarcerados em Wadjemup. Dos 373 que morreram lá, a maioria foi enterrada em sepulturas sem identificação.
Wadjeup como ponto turístico
Hoje, muitos turistas que visitam Wadjemup desconhecem a história angustiante do local. Eles pedalam pelas avenidas sob o sol escaldante, mergulham nos recifes de coral ou passeiam pela cidade colonial com um sorvete escorrendo pela mão. É um contraste gritante — este destino idílico e seu passado sombrio e assombroso.
A ilha começou a se reinventar como um ponto turístico popular logo após o fechamento da prisão, com o bloco principal de celas convertido em acomodações de férias em 1911.
À medida que as paredes eram demolidas e encanamento e eletricidade instalados, o patrimônio do edifício foi destruído, diz Collard. Mais do que isso, os turistas agora estavam “pagando por um quarto, deitando em uma cama e tendo relações onde esses homens morreram”, explica ele.
O cemitério continha as sepulturas sem identificação dos prisioneiros falecidos tornou-se um acampamento conhecido como Tentland. Nos 90 anos seguintes, os turistas dormiram a apenas sessenta centímetros de um dos maiores cemitérios indígenas da Austrália.
O professor Stasiuk conta que visitou Tentland na década de 1970, antes de conhecer essa história. “Eu fui e fiquei doente”, explica. “Depois voltei e acabei no hospital. Eu não conseguia entender. Os médicos não conseguiam entender. Eu era fisicamente saudável.” Então ele contou para a avó. Ela respondeu imediatamente. “É warra “, disse ela. “É ruim.”
Embora restos mortais tenham sido descobertos no local em 1970, o acampamento só foi oficialmente fechado em 2007. Em 2018, a antiga prisão deixou de funcionar como resort turístico.
Projeto de reconhecimento da ilha
Em 2020, a Autoridade da Ilha de Rottnest começou a facilitar o Projeto Wadjemup “para reconhecer formalmente a história da ilha de encarceramento e mortes de aborígenes sob custódia por meio da revelação da verdade, cerimônias e memorialização”.
O projeto envolve honrar o cemitério, conservar o prédio original da prisão e realizar uma cerimônia cultural para facilitar a cura. O Wadjemup Wirin Bidi, ou Trilha dos Espíritos, foi realizado em 2024, com a participação de cerca de 200 indígenas de todo o país em cerimônias culturais privadas para dar descanso aos sepultados na ilha e libertar seus espíritos.
Um porta-voz da Autoridade da Ilha de Rottnest disse à CNN que está empenhada em continuar trabalhando com a comunidade aborígine “para garantir que a história da ilha seja compartilhada de forma aberta e honesta”.
Por que só 400 pessoas por vez podem visitar essa ilha na Austrália?

