Um homem vestindo trajes pretos de monge chamou a atenção em 1º de maio de 1965, durante as celebrações oficiais do Dia do Trabalhador em Tbilisi, capital da então República Socialista Soviética da Geórgia, ao botar fogo em uma bandeira com o rosto de Vladimir Lenin (1870-1924). Tido inicialmente como “louco psicótico”, acabou sendo reconhecido décadas depois santo curador pela Igreja Católica Ortodoxa.

Na ocasião, o centro da Tbilisi estava tomado por desfiles militares, marchas do Partido Comunista e retratos gigantescos dos líderes da Revolução Russa. O monge Gabriel Urgebadze (1929-1995) subiu em uma varanda, despejou querosene sobre a bandeira com o rosto de Lenin e ateou fogo.

“A glória não pertence a um homem morto, mas a Jesus Cristo!”, gritou para a multidão, que acompanhava atônita o ato. Imediatamente espancado pela multidão e preso pela KGB (a polícia secreta soviética), ele foi submetido a interrogatórios e corria o risco de ser mandado para o fuzilamento, pena padrão na época para traição ou desacato ao Estado.

Mais do que vandalismo, o governo via a atitude como uma afronta ideológica e um ataque institucional vindo da própria Igreja. Para evitar transformar o monge em um mártir político, as autoridades soviéticas decidiram interna-lo em um hospital psiquiátrico de custódia, diagnosticando-o como “psicópata profundo” e “alienado mental”.

Foram sete meses passando por torturas físicas, medicação forçada e isolamento severo, até que, graças à pressão da comunidade local – e à convicção de que não representava ameaça de levante armado – foi libertado, mas banido do convívio comunitário.

Vida em galinheiro

Urgebadze perdeu seu posto na igreja e passou a ser visto com desconfiança ao sair do hospital psiquiátrico. Então decidiu entrar no jogo e adotou a conduta de “Louco por Cristo”, fingindo demência nas ruas.

Passou a ser comum vê-lo de trajes rasgados e descalço no inverno rigoroso carregando pelas ruas uma jarra de vidro quebrada. As falas eram por parábolas, deixando boa parte de quem o ouvia sem compreender muito bem seu raciocínio.

Impedido de frequentar ou construir templos sob o regime comunista, ele construiu com as próprias mãos uma igreja no quintal da casa de sua mãe, utilizando pedras e lixo recolhido das ruas de Tbilisi. O local foi destruído pelas autoridades várias vezes, mas Gabriel o reconstruía do zero.

Com o passar do tempo, o monge passou a viver no no convento de Santa Cristina, ligado ao monastério de Samtavro, na cidade histórica de Mtskheta, onde morava em um antigo galinheiro reformado.

“Santo curador”

Com o enfraquecimento e a queda da União Soviética, a percepção sobre Urgebadze mudou drasticamente nas décadas de 1980 e 1990. Milhares de fiéis começaram a peregrinar em busca de conselhos espirituais, orações e curas.

A população passou a atribuir a ele dons de profecia, clarividência e milagres de cura física, acolhendo de mendigos a ex-oficiais do regime comunista que o haviam perseguido. Gabriel morreu de hidropisia (acúmulo anormal e excessivo de líquido nos tecidos celulares ou nas cavidades do corpo) em 2 de novembro de 1995.

A transformação em santo oficial ocorreu em 20 de dezembro de 2012, 17 anos após sua morte, quando a Igreja Ortodoxa da Geórgia o canonizou oficialmente como Santo Padre Gabriel, Confessor e Louco por Cristo (ou São Gabriel da Geórgia) Dois anos depois, em 22 de fevereiro de 2014, seus restos mortais foram exumados em Mtskheta e, antes de serem colocados em uma cripta especial dentro do mosteiro de Samtavro, foram expostos em quatro grandes catedrais ortodoxas do país, atraindo milhares de peregrinos.

Fotos de Urgebadze estão espalhadas por igrejas ortodoxas e católicas de todo o mundo, atraindo a curiosidade sobre como o “louco psicótico” aos olhos do regime comunista tornou-se um dos Santos mais populares da Geórgia.