Três bifes de costela selados e bem dourados chegaram em uma travessa branca a um restaurante sofisticado em Bucareste, Romênia. A pequena mesa estava repleta de garrafas de espumante e todos os molhos e condimentos disponíveis.

Em um vídeo bastante editado, Tristan Tate corta e come metodicamente os três bifes de 400 gramas em, segundo os dois, cinco minutos, faz uma pausa para fumar um cigarro e, em seguida, termina também o bife do amigo, dizendo que estava com vontade de uma sobremesa.

A cena, de um episódio de 2024 da série “Tate Confidential”, dos influenciadores digitais britânico-americanos Andrew e Tristan Tate, mostra como os irmãos transformam até mesmo o almoço em um espetáculo online baseado em riqueza e excessos.

Agora, os dois gastam fortunas com Doritos sabor pimenta doce e barras de Snickers em uma prisão federal em Miami, onde estão detidos aguardando um pedido de extradição do Reino Unido. Os homens ainda não se declararam culpados ou inocentes das acusações de crimes sexuais que enfrentam, mas já negaram as alegações anteriormente.

Em seus vídeos nas redes sociais, os irmãos às vezes usavam comida como forma de demonstrar que as restrições comuns de preço, porções e moderação aparentemente não se aplicavam a eles, assim como a outras leis sociais.

Recibos da cantina divulgados pelo Gabinete do Procurador dos EUA para o Distrito Sul da Flórida mostram que os irmãos também compraram itens como sopa de macarrão instantâneo, espetinhos de peru e queijo suíço, barras de Twix e café colombiano.

Os lanches não parecem ser suficientes para saciar Tristan, cujo advogado publicou nas redes sociais um bilhete escrito à mão pelo detento dizendo, em parte: “Estou com fome”.

As ostentações anteriores dos irmãos, jantando em restaurantes exclusivos, eram apenas parte de uma estratégia de marketing muito maior. Os Tates construíram um império online vendendo uma imagem de riqueza pessoal extraordinária por meio da exibição de carros esportivos, maços de dinheiro e relógios de luxo.

Quem são os irmãos Tate

Andrew Tate, de 39 anos, um autoproclamado misógino, acumulou uma legião de seguidores online com conteúdo que promove a dominação masculina, a submissão feminina e a riqueza. Tristan, de 38 anos, construiu uma base de fãs criando e promovendo uma visão semelhante da masculinidade moderna.

Os dois são pilares da chamada “manosfera”, um espaço digital tradicionalmente associado à direita e ao ódio, e povoado por podcasters e influenciadores abertamente misóginos.

No entanto, por trás do espetáculo, os maiores símbolos de suas supostas riquezas ilimitadas eram uma fachada para fazer suas vidas parecerem melhores do que realmente eram, de acordo com os próprios advogados dos irmãos.

A equipe jurídica afirmou, em um documento judicial recente, que era do interesse comercial dos Tates apresentarem-se como “extremamente ricos” e ofereceu uma explicação incomumente franca de como a ilusão de riqueza foi fabricada.

Os advogados de defesa reconheceram que os carros esportivos Aston Martin de US$ 2,1 milhões (R$ 10,8 milhões) e Bugatti de US$ 5 milhões (R$ 26 milhões) e US$ 7 milhões (R$ 37 milhões) exibidos nos vídeos de Tristan não pertenciam aos irmãos, como alegavam, mas sim eram alugados. Disseram também que a dupla foi paga para promover um “super-iate” que apresentaram online como se fosse sua própria embarcação de luxo.

Em vez de serem levados por carros esportivos e lanchas, os dois agora dependem apenas dos próprios pés para se locomover, caminhando de suas celas por uma passarela segura e sem janelas até o tribunal para as audiências. Atualmente, seus acompanhantes são policiais uniformizados, e não mulheres de biquíni.

Durante anos, os irmãos britânico-americanos cultivaram a imagem de que as leis não se aplicavam a eles, mesmo com o aumento dos problemas legais no Reino Unido, na Romênia e nos Estados Unidos. Andrew fez do desafio às instituições e às regras convencionais o ponto central de sua imagem, declarando-se “acima da lei”.

O caso contra os irmãos Tate

Andrew e Tristan Tate • Reuters

Essa imagem de impunidade foi destruída em 18 de julho, quando agentes federais prenderam os irmãos do lado de fora de uma luta de boxe sem luvas em Miami, a pedido das autoridades britânicas.

Os irmãos, entre as figuras mais controversas da internet, enfrentam um total de 59 acusações, incluindo estupro e tráfico humano. Ambos negaram repetidamente as acusações, com Andrew descrevendo a si mesmo e ao seu irmão como “homens muito inocentes”.

O caso no Reino Unido envolve sete vítimas. Andrew Tate enfrenta 42 acusações e Tristan Tate 17, segundo os promotores. Entre as acusações adicionais contra Andrew estão alegações de produção ou distribuição de imagens indecentes de crianças e posse de pornografia extrema.

Nem Andrew nem Tristan responderam formalmente às acusações no tribunal, mas ambos negaram publicamente qualquer irregularidade.

No caso separado na Romênia, a dupla enfrenta acusações de tráfico humano e formação de organização criminosa para exploração sexual de mulheres. Eles também rejeitaram repetidamente as alegações feitas contra eles nesse caso.

As acusações dizem respeito a supostos atos, não à retórica online. Mas as alegações de violência sexual, controle sobre mulheres e lucro com elas ecoam a visão de mundo machista dos irmãos, promovida por meio de seus cursos online, incluindo um já excluído chamado “Curso de Cafetão de Prostitutas”.

Os promotores britânicos têm até 16 de setembro para apresentar seu pedido formal de extradição aos EUA e fornecer documentos comprobatórios que abranjam todas as 59 acusações, que se referem a crimes cometidos na Inglaterra entre 2010 e 2017.

O advogado dos Tates, Joe McBride, descartou as acusações adicionais como “imundície e calúnia”, insistiu na inocência dos irmãos e prometeu lutar contra a extradição. Ele classificou o caso como “politicamente motivado”, afirmando que os irmãos estavam sendo punidos por exercerem seus direitos garantidos pela Primeira Emenda.

Ruídos noturnos no FDC Miami

Os irmãos, ex-kickboxers, estão detidos no Centro de Detenção Federal, no centro de Miami, uma torre de concreto com estreitas janelas verticais. Os detentos há muito reclamam das condições precárias, incluindo sistemas de refrigeração e água defeituosos.

O Departamento Penitenciário Federal informou no início deste mês que consertou um resfriador de ar-condicionado com defeito. Os detentos relataram que ficaram sem ar-condicionado durante alguns dos dias mais quentes de Miami.

Apesar da proibição de telefones celulares no FDC Miami, a conta de Andrew no X permaneceu ativa enquanto ele esteve sob custódia. Seus advogados a descreveram em um documento judicial como uma “conta comercial” que membros de sua equipe continuaram a atualizar em seu nome.

As postagens da conta de Andrew fazem o FDC Miami à noite parecer mais um filme de terror do que uma prisão. Uma postagem descreveu um “rugido demoníaco” vindo de uma cela próxima à noite. Outra dizia que seu vizinho era “um canibal que grita a noite toda”.

“Não sou muito fã de dormir e funciono muito bem sem isso”, disse Andrew anteriormente em uma entrevista sobre seus hábitos de sono.

Guarda-roupa sem status

À medida que os irmãos se acostumam com o novo local para dormir, eles também estão se vestindo de maneira bem diferente. Online, Andrew e Tristan exibiam ternos sob medida, relógios de luxo e sapatos de grife.

Nos últimos anos, Andrew também começou a aparecer regularmente sem camisa em vídeos, frequentemente com um charuto na mão e óculos escuros, enquanto discursava para os espectadores sobre força, disciplina e domínio masculino, com seu peito nu tatuado sendo uma representação visual da imagem hipermasculina que ele vendia.

Mas, quando foi preso em Miami, ele estava usando uma camisa roxa de seda aberta no peito, calças pretas justas e mocassins sem meias. Sua aparência foi amplamente ridicularizada online, com um meme viral comparando o visual a uma captura de tela de “As Golden Girls” mostrando Blanche Devereaux com uma roupa quase idêntica.

Quando os irmãos chegaram ao tribunal dois dias depois, as cores vibrantes haviam sido descartadas, e cada um vestia um macacão bege sem graça de presidiário. Em vez de colares cravejados de diamantes, usavam algemas brilhantes nos tornozelos. Em vez de relógios de ouro, algemas de prata prendiam seus pulsos.

Solitários, mas não completamente sozinhos

Andrew reclamou repetidamente de sua cela estar na Unidade de Habitação Especial, que ele descreve como “as piores condições possíveis que o governo dos EUA oferece a terroristas e psicopatas”, em postagens em sua conta na rede social X.

McBride disse à CNN que seus clientes “não têm acesso à luz solar” e que isso está prejudicando sua saúde. Ele afirmou que os irmãos Tate não deveriam estar no que ele chamou de “confinamento solitário” na prisão, mas sim transferidos da área segregada para a população carcerária geral.

Outra postagem da conta de Andrew no X dizia: “Sem cantina. Sem visitas. Sem contato com o mundo exterior.”

Embora estejam detidos em celas separadas, os irmãos não estão completamente isolados. McBride afirmou que Andrew e Tristan se veem regularmente, pois compartilham a mesma equipe de advogados e participam de reuniões jurídicas frequentes juntos, às vezes por até cinco horas por dia, mesmo sem terem permissão para receber visitas de familiares ou amigos.

O Ministério Público Federal rejeitou as alegações dos irmãos sobre a falta de acesso ao refeitório e as más condições da prisão, afirmando: “Embora o Centro de Detenção Federal de Miami não seja um Marriott, as condições de confinamento dos Tates são razoáveis, constitucionais e estão dentro da discricionariedade do Departamento Penitenciário Federal”.