Um estudo apontou que a idade dos agressores que usam redes sociais e transmissões ao vivo tem diminuído nos últimos seis anos. Entre 2020 e 2026, a faixa etária dos criminosos variou dos 19 aos 22 anos. Dados levantados em 33 países, incluindo o Brasil, também apontam que a média de idade das vítimas é de 14 anos.
Menores têm sido alvo de crimes de abuso sexual, incitação ao suicídio e automutilação, extorsão, maus-tratos a animais e compartilhamento de material de abuso infantil.
O estudo é de autoria dos pesquisadores Marc-André Argentino e Angus Lindsay e foi publicado na revista especializada CTC (Combating Terrorism Center) Sentinel, editada pelo CTC da Academia Militar de West Point, nos Estados Unidos.
O levantamento usou como base uma rede internacional de crimes cibernéticos conhecida como “The Com”, tratada como um “ecossistema violento” e baseado no pessimismo e no ódio à humanidade entre os usuários.
Fundado em 2020 por um americano de 15 anos, o grupo usava redes sociais e jogos infantis com chat online para buscar vítimas. Um mapeamento que analisou o período de fevereiro de 2020 a maio de 2026 registrou 295 prisões ligadas à rede “The Com” nos 33 países.
Os investigados impactaram pelo menos 5.375 indivíduos e entidades. Entre os danos documentados estão 22 mortes, 1.747 vítimas de extorsão e 1.754 casos de trotes (que envolvem o acionamento de polícias e bombeiros para falsas ocorrências). Também foram contabilizados 1.633 crimes cibernéticos e 143 animais mutilados.
Os dados também revelaram a média de idade dos infratores, que é de 19 anos. A média tem, inclusive, diminuído nos últimos seis anos:
- 2020: 20
- 2021: 21
- 2022: 22
- 2023: 18
- 2024: 20
- 2025: 19
- 2026: 19 (até o levantamento em junho de 2026)
A pesquisa também aponta que 94,6% dos agressores são do sexo masculino. Entre 2021 e 2026, menores de idade entre 16 e 11 anos foram os mais atingidos.
Daniel Barros, psiquiatra e professor colaborador da Faculdade de Medicina da USP, comentou sobre comportamentos considerados comuns entre os suspeitos dessas práticas e destacou que, apesar dos traços, nem todo acusado é considerado um psicopata.
O fator mais forte é o coletivo. Uma estrutura que se cria e estimula esse tipo de comportamento. Quando a gente fala de transtornos de personalidade antissociais e psicopatia — vamos colocar aqui essas pessoas que têm frieza e prazer no sofrimento do outro num grau extremo, quem não se importa com o outro e não reage ao sofrimento alheio —, não dá para dizer que as pessoas que praticam esse comportamento têm esse diagnóstico. É evidente que a atividade atrai e combina com esse tipo de pessoa com esse padrão, mas é diferente afirmar que somente um psicopata possa fazer isso. As pessoas que têm traços de frieza estão longe de se caracterizar sempre com esse diagnóstico. Vai ter gente com todo tipo de condição. Reduzir esse fenômeno a uma patologia ou quadro psiquiátrico é não encarar o problema com todas as suas variáveis e complexidade.
Daniel Barros, psiquiatra e professor colaborador da Faculdade de Medicina da USP
Antecedentes
A Operação Lívia, que investiga um grupo criminoso que estimula a prática de automutilação, suicídio e maus-tratos a animais, ampliou a discussão sobre o papel das redes sociais.
O trabalho aconteceu em oito estados no início de agosto deste ano. Quatro menores de idade, entre 13 e 17 anos, foram apreendidos, e um jovem de 18 anos foi detido.
Uma jovem de 13 anos cometeu suicídio no Mato Grosso do Sul e, como consequência, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) suspendeu as lives da plataforma Discord. Recentemente, a AGU (Advocacia-Geral da União) entrou com uma ação civil pública pedindo uma multa de R$ 500 milhões contra a plataforma.
O Discord nega irregularidades, afirma que o suicídio não aconteceu em live em sua plataforma e sustenta que removeu o conteúdo violento.
Durante a operação, descobriu-se que um aplicativo de mensagens era usado para disseminar conteúdos neonazistas, antissemitas e misóginos, além de recrutar novos integrantes.
A nota técnica da ANPD que recomendou a proibição das lives no Brasil cita que o Discord tem sido o mais denunciado. Dados da SaferNet citados no documento apontam um crescimento de 54% nas denúncias envolvendo a plataforma de janeiro a julho de 2026, em comparação ao mesmo período de 2025, o que constitui um recorde na série histórica.
A SaferNet também publicou dados sobre a atuação de redes criminosas no Discord. A instituição encaminhou por iniciativa própria relatórios técnicos, evidências e bases de dados sobre redes que aliciam menores, disseminam material de abuso sexual infantil e incentivam a automutilação e o suicídio.
O material apresenta um estudo técnico baseado em dados oficiais fornecidos pelo próprio Discord à União Europeia (DSA Transparency Database), apontando que, embora a proteção de menores seja a categoria dominante nas remoções (41%), houve uma queda drástica de 65% no volume de decisões de moderação a partir de setembro de 2025.
O entendimento é de que a queda na moderação coincide temporalmente com cortes de pessoal na empresa, gerando preocupações sobre a eficácia e a capacidade da plataforma em manter equipes de confiança e segurança ativas em áreas críticas.
No Brasil, entre 2017 e julho de 2026, a central da SaferNet processou 2.059 URLs do Discord, com um salto expressivo de casos: 2025 registrou quase o triplo de denúncias de 2024 (520 registros), tendência que continua acelerada nos primeiros sete meses de 2026 (406 registros).
Perfil dos adolescentes
Os jovens envolvidos são nativos digitais e usam diversos aplicativos simultaneamente para cometer os crimes. As redes sociais e aplicativos de mensagens mais populares estão entre os ambientes prediletos onde criminosos de diversos lugares se reúnem para praticar delitos.
O delegado e coordenador do Ciberlab do Ministério da Justiça, Alesandro Barreto, afirmou estar “impressionado” com o que chamou de “escravidão digital” durante a divulgação da Operação Lívia.
“Estão recrutando meninas, crianças e pessoas mais vulneráveis para fazer coisas bárbaras contra animais, principalmente gatos. Eles também incentivam a automutilação. Infelizmente, não conseguimos salvar a Lívia, mas, durante a operação, localizamos outra garota que cometeria suicídio ao vivo na internet e impedimos que isso acontecesse”, afirmou.
A delegada Maria Luiza Machado, da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima do Rio de Janeiro, explica que existem sistemas organizados com hierarquias, as chamadas “panelas”. Em 2025, ela integrou a Operação Adolescência Segura, realizada em sete estados para desarticular uma quadrilha digital. O perfil dos atos ilegais no ano passado se assemelha ao deste ano.
“A formação desses grupos tem uma realidade física de exclusão social. Esses criminosos, normalmente, são meninos — embora não seja uma regra. Eles têm entre 14 e 17 anos no contexto da criminalidade do Discord. Usam muito as redes sociais e sofrem uma certa exclusão, como na escola, e trazem esse conteúdo de ódio para o ambiente virtual. Muitas vezes são vítimas de bullying e buscam aceitação nesses grupos de ‘paneleiros’”, comentou.
“Quase na totalidade das vezes, quando vamos fazer as operações, os pais ficam completamente surpreendidos, porque são meninos que, no contexto perante a família ou a escola, não dão trabalho, não esboçam esse tipo de revolta. Mas, quando se transferem para o mundo cibernético, disseminam conteúdo de ódio contra minorias. Tudo isso faz parte do grupo.”
Modus operandi
Tudo tem um começo. Entre os “paneleiros”, há aqueles cuja função é buscar vítimas e novos membros.
O recrutamento é silencioso. Perfis abertos em redes sociais servem de vitrine. Os agressores escolhem o alvo pela foto e pelas preferências. Uma mensagem no privado inicia a conversa. Primeiro vem a confiança, depois o convite para participar do grupo, em seguida a chantagem e, por fim, a violência.
“Essas lives que acontecem no Discord fazem parte de algum grupo. Existem usuários do TikTok que compartilham esses links, e grupos no Telegram onde as conversas são mantidas. Essas ‘panelas’ são chamadas de servidores. Elas têm administradores, que normalmente são quem encontramos para fazer a apreensão. Eles se reúnem em grupos de Telegram e WhatsApp para compartilhar pornografia infantil; tanto que conseguimos fazer a apreensão em flagrante desses adolescentes devido ao compartilhamento dessas imagens. Eles buscam a comunicação por diversas redes”, explica a delegada Maria Luiza.
As funções são divididas entre os criminosos, que planejam a violência enquanto trocam mensagens de ódio. O administrador escolhe quem participa, o horário e até o nome do servidor. O uso de linguagem cifrada é comum e, quando descobertos, o servidor é abandonado concomitantemente à abertura de um novo. É um ciclo.
Passo a passo do aliciamento
A delegada aponta três frentes de atuação no aliciamento: financiamento, chantagem e hierarquia.
O financiamento, geralmente, é bancado por homens maiores de idade, que pagam as despesas para que a live ocorra e compram o conteúdo exposto, que em geral envolve pornografia infantil e automutilação.
A chantagem é a base do crime. As vítimas são instigadas à violência sob pressão psicológica. Por fim, há a hierarquia: “Quanto mais atos realiza, mais sobe na escada hierárquica. Isso é um indício do tempo que a pessoa participa dessa subcultura. Para se tornar administrador, tem que passar por muitos atos de participação e instigação para ganhar status. Quando vemos um administrador que diz ter começado há dois meses, sabemos que é mentira. A ascensão demora e exige a prática de violência”, diz.
Quésia Pereira Cabral e David Décary-Hétu publicaram um estudo no Centro de Criminologia Comparada da Universidade de Montreal, no Canadá, analisando um caso de 2023 envolvendo um adolescente português e vítimas brasileiras — episódio que resultou em morte e feridos — para exemplificar uma ação que ganhou contornos bem diferentes do jogo de 2015.
Uma foto com uma faca, um caderno com anotações feitas com sangue e uma suástica ilustram a visão de mundo do grupo “The Kiss”.
Eles seguem uma cartilha de violência, racismo, homofobia, antissemitismo e crueldade contra animais. O criador fingia ser brasileiro e liderava um núcleo encarregado da rotina e da administração de rituais de automutilação e tortura animal transmitidos ao vivo, além de atuar na venda de pornografia infantil.
A manipulação tinha as meninas como alvo principal. Os agressores fingiam relacionamentos amorosos para obter fotos íntimas e, em seguida, chantageavam as vítimas para que cortassem a própria pele e gravassem o nome do grupo ou do administrador, sob a ameaça de vazar as imagens ou enviá-las aos pais.
A estrutura do abuso era “gamificada” — organizada em formato de jogos — e operada a milhares de quilômetros de distância.
O artigo publicado na CTC Sentinel aponta que os detidos “têm comportamento niilista”, caracterizado por profundo sentimento de futilidade, vazio emocional e isolamento social, intensificado em ambientes digitais onde subculturas recompensam a transgressão.
Ambos os estudos destacam que ideologias extremistas estão presentes no discurso, mas nem sempre constituem o foco principal, servindo como justificativa para legitimar a violência.
Abuso sexual
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 ajuda a compreender parte desse cenário, uma vez que pesquisadores levantaram dados sobre aliciamento e produção de material de abuso infantil, crime para o qual as tecnologias digitais têm sido usadas ano após ano.
Entre 2024 e 2025, houve um aumento de 25,3% nos casos registrados de produção, posse ou distribuição desse tipo de material. No último ano foram 4.063 registros que, segundo o Anuário, representam apenas uma pequena parcela dos casos diários, visto que muitos não são notificados.
Corpos infantis são expostos a múltiplas violências: são abusados sexualmente, gravados e têm suas imagens comercializadas em redes populares ou em servidores paralelos da chamada dark web, que garante camadas extras de proteção à identidade dos criminosos.
Dados baseados em registros policiais estaduais traçam o perfil da maioria dos agressores: 86,5% são do sexo masculino e mais da metade são jovens (34,2% têm entre 13 e 17 anos). Assim, entre os casos registrados, crianças e adolescentes são vítimas, em sua maior parte, de outros jovens.
As redes sociais também servem a abusadores que utilizam conversas cifradas com figuras infantilizadas (emojis) e compartilham links de perfis abertos contendo fotos e vídeos de futuras vítimas. Se antes os menores eram alvos de agressores que se aproveitavam de algum vínculo familiar ou de vizinhança, atualmente a próxima vítima está a poucos cliques de distância.
Os crimes contra menores praticados por maiores de idade estão previstos no Código Penal e no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Entre os tipos estão o abuso de incapaz — com pena que varia de 10 a 18 anos — e vários agravantes que podem elevar a sanção para 40 anos em caso de morte.
Incentivo
Os casos de automutilação e o suicídio da jovem de 13 anos investigada pela Operação Lívia não são isolados. No Brasil, a pena para o crime de induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio ou à automutilação varia de 6 meses a 6 anos de reclusão, conforme o resultado provocado na vítima.
A instituição de caridade britânica Samaritans, em parceria com a Universidade de Swansea, revelou em um levantamento que as plataformas de redes sociais ainda falham em proteger os usuários contra conteúdos de automutilação.
Há uma presença marcante de estímulos a atos violentos: 83% dos usuários de redes sociais pesquisados relataram ter recebido conteúdos de automutilação em seus feeds personalizados sem sequer tê-los buscado.
Leia também: Discord diz que suspendeu lives no Brasil após determinação da ANPD
Cinquenta e seis por cento dos participantes afirmaram que se autolesionaram de forma mais grave devido à visualização desse tipo de material online. Quase a mesma proporção (74%) afirmou ter visto conteúdos de automutilação pela primeira vez na internet aos 14 anos ou menos, com alguns tendo apenas 10 anos.
Por sua vez, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) monitora dados sobre o suicídio de jovens desde 1989 até 2022 (o dado mais recente). Segundo o Atlas da Violência, houve um aumento no registro de autoextermínio em todas as regiões do país ao longo desses 33 anos, com o último levantamento apontando um recorde histórico.
O estudo ressalta que não há conexão direta da estatística com os crimes online, mas aponta uma coincidência temporal entre o aumento dos casos e a expansão do acesso às redes sociais.
Cyberbullying
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública também analisou dados referentes ao cyberbullying, definido como a prática de intimidação, humilhação, exposição vexatória, perseguição, calúnia e difamação por meio de ambientes virtuais. No Brasil, o ato é classificado como intimidação sistemática virtual, conforme o Código Penal.
Em 2025, o país registrou 1.866 boletins de ocorrência de cyberbullying, representando um crescimento expressivo de 61,4% na comparação com o ano anterior. A idade das vítimas varia: 45% têm entre 14 e 17 anos, enquanto 42% têm entre 10 e 13 anos.
A delegada Maria Luiza Machado comentou que, durante suas investigações, presenciou o mesmo cenário: os agressores foram, no passado, vítimas de perseguição na escola e no ambiente digital.
O psiquiatra Daniel Barros explica que essas pessoas podem estar mais expostas ao risco de serem cooptadas por redes ilegais:
“Quando falamos de comportamento, falamos de fatores de risco, e não de determinantes. Por exemplo, entre os agressores é comum haver ex-vítimas de bullying. Isso nos ajuda a entender um fator de risco: pessoas submetidas a esse tipo de situação, por serem mais vulneráveis — seja por depressão ou o que for —, acabam se expondo, viram vítimas e depois são cooptadas para essa rede, adotando o mesmo comportamento. Isso não quer dizer que toda pessoa que sofre vai praticar o ato, nem que todo agressor age exclusivamente por ter sofrido. Existem fatores associados, mas jamais determinantes”.
“A gente não pode falar em punição, pois aqui não existe crime. O menor não pratica crime, ele pratica ato infracional segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente”, explica Giovanna Botelho, advogada criminalista e de família, especializada em Processo Penal, ao comentar ações criminosas envolvendo menores de idade na internet.
“Ele pode cumprir medida socioeducativa. Ainda que a conduta esteja descrita no Código Penal, ele não pode ser penalizado criminalmente. Entre 12 e 16 anos, ele pode cumprir medidas como prestação de serviços à comunidade ou internação. Crimes como o incentivo ao suicídio podem gerar, sim, a medida de internação”, conclui.

