O delegado e ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Marcus Vinicius Amim Fernandes, foi preso pela PF (Polícia Federal), na manhã desta quinta-feira (15), por suspeita de ocupar um posto de liderança em um esquema de lavagem de dinheiro em uma rede de postos de combustíveis no Grande Rio.
Ele foi preso durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, que também resultou na prisão do deputado eleito Márcio Canella (União Brasil), os agentes da Polícia Civil carioca Pablo Jukia Felix Ferreira, o “Pablo Russo”, Giovanni Gaspar Fernandes e José Carlos Alves de Souza Júnior; e o secretário municipal de ordem pública de Belford Roxo, Christiano Gaspar Fernandes.
Proteção da polícia ao grupo criminoso
Nas investigações, Marcus é apontado como operador institucional e garantidor da blindagem policial da organização criminosa.
O delegado foi nomeado para a presidência do Detran-RJ (Departamento Estadual de Trânsito do Rio de Janeiro) e, em seguida, para a Secretaria de Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, por indicação de Márcio Canella, considerado “patrono político” da organização.
Para possibilitar a nomeação de Amim na Polícia Civil, o deputado capitaneou uma articulação na ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) para alterar a Lei Orgânica da corporação, flexibilizando os requisitos temporais exigidos para o cargo.
Esquema de propina
Amim e sua esposa são sócios da empresa MAMIM Consultoria. A empresa recebeu, entre abril de 2024 e maio de 2026, cerca de R$ 1,8 milhão, em parcelas mensais fixas de R$ 70 mil, da empresa ADM Oil, que funciona como câmara de compensação financeira do grupo.
De acordo com a PF, esse fluxo é um padrão típico de “consultoria” fictícia que, na prática, serve para remunerar a proteção que Amim oferecia.
A investigação também apontou uma desproporção financeira entre as empresas. Enquanto a MAMIM funcionava como canal exclusivo de propina, outra empresa de Amim no mesmo grupo (JR Conveniência) movimentou valor muito menor ––cerca de R$ 173 mil a R$ 269 mil em três anos.
O delegado é apontado como sócio oculto do GASMIX Alcântara Posto de Gasolina, juntamente com os policiais civis Christiano Gaspar Fernandes e Giovanni Gaspar Fernandes.
Além desse, outro postos de gasolina também destinavam parte dos valores obtidos a Amim, segundo manuscritos e anotações encontradas pela PF. Na imagem abaixo, o nome do suspeito aparece destacado em amarelo:

Compra de imóvel de luxo
Entre as movimentações suspeitos de Amim, está a compra de uma residência de luxo em Camboinhas, em Niterói, avaliada em mais de R$ 3,2 milhões.
A primeira parte do pagamento foi feita em dezembro de 2024, quando foram pagos R$ 160.000,00 em espécie por intermédio de Raphael Matos Bergara.
Em 8 de abril de 2025, a quantia de R$ 1.620.000,00 –– quase metade do imóvel –– foi transferida para a vendedora diretamente da conta da empresa Posto Pendotiba, sem que a empresa tivesse qualquer vínculo contratual ou justificativa comercial com Amim.
No mês seguinte, o mesmo posto realizou outra transferência, dessa vez de R$ 1,5 milhão. Após orientação direta de Amim, porém, um valor equivalente foi devolvido no mesmo dia para a conta do posto.
Também foram encontradas mensagens trocadas entre o delegado e Pablo Jukiá, ou “Pablo Russo”, considerado o gestor do núcleo de lavagem de dinheiro.
Nas conversas, Amim enviava orçamentos e projetos de engenharia do imóvel de Camboinhas, indicando que Russo pagava pelos serviços.
Oitava fase da operação
Esta é a 8ª fase da Operação Unha e Carne, investigação que anteriormente prendeu os políticos Rodrigo Bacellar, TH Joias, Thiago Rangel e o pastor Márcio Poncio.
Ao todo, foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão nos municípios do Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo.
A Justiça ainda determinou o sequestro de bens e valores, e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas ligadas à rede de lavagem de dinheiro.
Segundo a PF, desse total, 96 são postos de combustíveis, utilizados para camuflar e legalizar os recursos de origem criminosa.
Além do crime de organização criminosa armada, os investigados responderão, conforme suas responsabilidades, por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel.
A investigação apontou que o esquema movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, de acordo com o Relatório de Inteligência Financeira do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), enviado à Polícia Federal.
Outro lado
Em nota, a Corregedoria-Geral de Polícia Civil (CGPOL) informou que participa da operação, em apoio à Polícia Federal, e não compactua com qualquer desvio de conduta. Veja:
“A Polícia Civil não compactua com qualquer desvio de conduta e adota, de forma rigorosa, as medidas administrativas e disciplinares cabíveis diante de indícios de irregularidades.
A instituição mantém atuação integrada com outras forças de segurança e órgãos de controle, respeitando as atribuições de cada instituição, para garantir a apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, quando cabível.”
A defesa do delegado Marcus Amim também se manifestou. “O Advogado Thiago Minagé aguarda acesso ao Dr. Marcus Amim e à decisão para prestar prestar os devidos esclarecimentos”.
Já a defesa dos presos Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes afirmou que não teve acesso aos autos e que os dois ficaram surpresos com a prisão.
A CNN Brasil tenta contato com a defesa dos outros citados. O espaço segue aberto.

