O bicheiro Rogério de Andrade e Gilmar Eneas Lisboa, acusados de envolvimento no assassinato do contraventor Fernando de Miranda Iggnacio, em 2020, serão julgados por júri popular no Rio de Janeiro.

Conforme decisão, proferida pelo Juízo da 1ª Vara Criminal da Comarca da Capital, há indícios suficientes de autoria e materialidade para levar os dois réus a julgamento pelo crime, que teria sido motivado por uma disputa territorial pelo controle de pontos do jogo do bicho no Rio.

De acordo com as investigações, Rogério de Andrade é apontado como mandante do assassinato. Ele é sobrinho do bicheiro Castor de Andrade, que comandou o jogo do bicho no estado e é considerado um dos maiores contraventores do país.

Gilmar Eneas Lisboa, por sua vez, é acusado de monitorar a rotina da vítima em Angra dos Reis antes do atentado, ocorrido no Recreio dos Bandeirantes, na zona Oeste do Rio.

Com a pronúncia, os réus serão julgados pelo Tribunal do Júri, formado por sete jurados escolhidos por sorteio. Após a composição do conselho, os jurados têm acesso às principais peças do processo para compreensão dos fatos e das provas apresentadas. A decisão final será definida ao término do julgamento.

Na mesma decisão, a Justiça também manteve a prisão preventiva dos réus, que permanecerão presos até o julgamento pelo júri popular.

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O que diz a denúncia

Rogério Costa de Andrade e Silva é apontado pelo Ministério Público como líder de uma organização criminosa atuante desde pelo menos 2018 na exploração do jogo ilegal, lavagem de capitais e tomada violenta de territórios no Rio de Janeiro e em outros estados.

Para tomar o controle dos pontos de jogo do bicho, caça-níqueis e videopôquer explorados pela vítima na capital, Rogério ordenou o homicídio de Ignnácio ao seu braço-direito, Márcio Araújo de Souza, o “Araújo”.

De acordo com a denúncia, a ordem foi dada através de um aplicativo criptografado com a mensagem: “O cabeludo é o que interessa”, respondida com “Perfeitamente”.

Gilmar Enéas Lisboa, segundo o MP, sob ordens diretas de Márcio Araújo, realizou o monitoramento constante da rotina e da residência da vítima em Angra dos Reis a partir de 16 de março de 2020. Ele era responsável pelo envio de fotos, vídeos e mensagens informando os passos de Fernando Iggnacio para preparar o momento do ataque.

A CNN Brasil tenta contato com a defesa dos réus. O espaço segue aberto.

Morte de contraventor

No dia do crime, em 10 de novembro de 2020, o contraventor Fernando Iggnácio foi morto a tiros de fuzil após desembarcar de um helicóptero em um heliponto no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste da cidade.

Segundo informado à época, por volta das 13h15, Iggnácio chegou na aeronave, vindo de Angra dos Reis, no sul fluminense. O aparelho aterrissou no heliponto da empresa Heli-Rio, na Avenida das Américas.

Quando caminhava para embarcar em um carro, foi atingido pelos tiros.

O MP denunciou Rogério de Andrade e Gilmar Enéas Lisboa por homicídio quadruplamente qualificado — motivo torpe (disputa pelo controle da contravenção), meio cruel e perigo comum (uso de fuzis), emboscada/recurso que impossibilitou a defesa e emprego de arma de fogo de uso restrito —, acrescido da causa de aumento por crime praticado por grupo de extermínio.

Quem era Fernando Iggnácio

Favorito como sucessor de um dos “patronos” do jogo do bicho, no Rio de Janeiro, Fernando Iggnácio foi executado em novembro de 2020, em um dos muitos episódios sangrentos envolvendo a disputa dos territórios do jogo.

Fernando era genro de Castor de Andrade, um dos pioneiros na contravenção do “jogo do bicho” no Rio de Janeiro. A disputa “interna” que deixou diversos mortos e feridos ao longos anos começou a partir de 1997 quando Castor morreu de infarto.

Os dois herdeiros foram protagonistas de uma sangrenta guerra em família pela disputa do império de caça-níqueis deixado pelo patrono. Ainda em vida, Castor escolheu Rogério para comandar a contravenção na Zona Oeste e em outras áreas do Estado do Rio. O filho de Castor, Paulinho, não concordou e iniciou uma batalha.

Em 1998, Paulinho e um segurança foram assassinados na Barra da Tijuca, e Fernando Iggnácio assumiu o lugar na disputa com Rogério. Anos depois, o desfecho da disputa culminou na morte de Ignnácio, a mando de Rogério de Andrade.