O ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União), diz ser inocente e afirma que vai se apresentar às autoridades em até 24 horas. Ele é alvo de mandado de prisão em uma operação que apura a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no sistema de transporte da capital paulista, deflagrada na manhã desta quinta-feira (17).
Em nota, o político diz que está em viagem e nega estar foragido. “Vou provar minha inocência em todas as acusações”, afirma ele.
Entenda a operação
Durante a ação, denominada Operação Vectura Corrupta, são cumpridos 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão. O ex-vereador Milton Leite da Silva é alvo de um mandado de prisão. Até a última atualização, nove alvos já tinham sido presos.
Entre os presos estão Júlio Salvador Filho; Claudionor Aparecido Sabino Tomaz; Levi dos Santos Oliveira; Carla de Paula Muller; Edivania Arruda Botelho Alves; André Cassali; José Ronaldo Alves de Sales; Edson Antonio de Souza; e Danilo Marco Morgado Silva.
A operação é realizada pela Polícia Civil de São Paulo e pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo).
Segundo as investigações, Milton Leite é citado nominalmente diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas empresas controladas pelo PCC.
“Somado a isso, há declarações de policiais militares em procedimento junto ao Tribunal de Justiça Militar de que ele seria o dono de fato da empresa Transwolf”, apontam as autoridades.
Ainda de acordo com as autoridades, os elementos reunidos indicam que os investigados alvo dos mandados integram o PCC. Alguns deles, segundo a investigação, exercem funções de liderança na organização criminosa.
Leia também: Ex-vereador Milton Leite é citado como operador de empresas ligadas ao PCC
A investigação é um desdobramento da Operação Decúrio, realizada em agosto de 2024.
Na ocasião, foi identificada uma complexa rede de comunicação usada pelo PCC para manter contato entre integrantes presos e aqueles que estavam em liberdade, inclusive por meio da atuação de advogados.
As investigações também identificaram lideranças da organização criminosa vinculadas às chamadas “Sintonia Restrita” e “Sintonia dos Gravatas”. Além disso, foi apontado um projeto de infiltração de integrantes do crime organizado nas eleições municipais de 2024, com o lançamento de candidatos aos cargos em disputa.
A operação anterior também apontou o possível envolvimento de uma servidora municipal comissionada com um integrante do alto escalão do Primeiro Comando da Capital.
Nesta nova fase, as investigações identificaram novamente a atuação de advogados em suposto conluio com o crime organizado. Também foi detectada a presença do PCC em empresas de transporte coletivo de passageiros na capital e no interior, com participação ativa de parte dos investigados identificados até o momento.
Segundo as investigações, a análise do material apreendido permitiu identificar uma possível infiltração da organização criminosa no sistema de transporte público da capital.
Ao menos 12 empresas de transporte coletivo de passageiros que operam na cidade de São Paulo foram identificadas como possíveis alvos de controle direto ou indireto do PCC.
Quem é quem no esquema
- Carla de Paulo Muller – esposa de Antônio Jose Muller Junior, o Granada, um dos líderes do PCC, preso na Penitenciaria Federal de Brasília. É apontada como alguém que atua na transmissão de recados de interesse da facção a Granada e também na exploração do transporte público. Seria interlocutora direta de José Daniel Satilite;
- Cicero Jose dos Santos Filho – é apontado como integrante do PCC e advogado atuante nos interesses da organização criminosa. Teria usado seu escritório como “sede” de reunião para os faccionados, bem como a conta bancária do escritório para recebimento de valores das empresas investigadas. É interlocutor direto de José Daniel;
- Danilo Marco Morgado Silva – candidato derrotado à prefeitura de Praia Grande (2024), atualmente candidato a deputado estadual. Já era alvo da Operação Decurio, com mandado de busca e apreensão anterior. Investigações apontam forte vínculo com a organização e indícios de financiamento de sua candidatura via PCC;
- Edivania Arruda Botelho Alves (“Lalinha”) – Teria servido de “ponte” para transmissão de recados de integrantes do PCC presos em Presidente Bernardes, onde seu marido (também do PCC) está preso;
- Edson Antonio de Souza (“Peru”) – investigações apontam que o homem atua no intermédio de interesses da organização em procedimentos licitatórios de várias cidades;
- Eduardo Medeiros (“Galo”) – Apontado como integrante do PCC e advogado pessoal de José Daniel Satilite, além de dono de empresas de transporte. Teria atuado junto aos faccionados no setor de transportes e em licitações;
- José Ronaldo Alves de Sales (“Ronaldo Cuba”) – Seria atuante no meio político e no ramo de transportes; investigação aponta que ele interliga integrantes da facção a políticos, auxilia em trâmites licitatórios e corrupção de agentes públicos ainda não identificados. Atua com José Daniel e Eduardo;
- Julio Salvador Filho – Apontado como Diretor da A2 Transportes, interlocutor de José Daniel. Ele seria responsável por decidir, junto com Paulo Korek, sobre liberação de pagamentos aos “laranjas” (José Daniel e Claudionor);
- Levi dos Santos Oliveira – Ex-presidente da SPTrans. Embora não fosse interlocutor direto de José Daniel, teve encontros periódicos para tratar de interesses da facção em empresas de transporte, especialmente relacionados à Operação Fim da Linha, segundo as investigações;
- Milton Leite da Silva – Ex-vereador, citado repetidamente como responsável direto pela operação de empresas controladas pelo PCC. Declarações de policiais militares (Tribunal de Justiça Militar) o apontam como dono de fato da empresa Transwolf;
- Milton Mello Milreu – Advogado, membro da facção segundo a investigação, extrapolando o exercício regular da profissão. Ele é apontado como alguém que fazia pagamentos periódicos a José Daniel e atuava na captação de empresas para controle do PCC;
- Paulo Sirqueira Korek Farias – Empresário, gestor de empresas de transporte (Translider, A2) e apontado como “testa de ferro” da facção no setor. Também é presidente do Esporte Clube Água Santa;
- Sergio Luiz Gevaerd de Oliveira – Empresário, braço direito do advogado Milton Mello Milreu. Ele seria atuante como intermediário entre a organização e o advogado, participando ativamente de negociações do PCC.
Outro lado
Posicionamento de Milton Leite
O ex-vereador Milton Leite afirmou que não está foragido, mas sim em viagem. Ele ainda disse que se apresentará às autoridades em até 24 horas e provará inocência. Veja a nota na íntegra:
“Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas.
Vou provar minha inocência em todas as acusações.”
Posicionamento Danilo Morgado (PL)
“Meses atrás Danilo foi alvo de um processo onde se pedia sua prisão, movido pelo prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão.
Na época, o motivo do pedido de prisão foram vídeos publicados por Danilo, denunciando supostas licitações ligadas ao PCC dentro da prefeitura de Praia Grande, ou seja, Danilo trouxe a tona a mesma denuncia feita pelo delegado Dr. Ruy Ferraz Fontes.
Agora, em plena campanha eleitoral, e um dia antes da data que proíbe prisão de candidatos, Danilo é preso.
A sequência dos fatos fala por si.
O coronel nunca muda seu modo de agir: intimida e tenta calar quem não se curva.
Prenderam Danilo, mas despertaram milhares.
Esperamos que os fatos sejam apurados a fundo e tudo seja esclarecido em breve.
O que não dá pra engolir é a forma que aconteceu: às vésperas da eleição, numa prisão que temos motivo para considerar irregular.
Isso não é investigação, é perseguição.”
Posicionamento da Prefeitura de SP
“A intervenção determinada pela Prefeitura de São Paulo na Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida firme e decisiva para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, a administração municipal também determinou, por iniciativa própria, a intervenção na UPBus, mesmo sem qualquer solicitação da Justiça.
Desde o início das investigações, a Prefeitura agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.
A Prefeitura reforça que, na ocasião, também foi aberto um processo pela Controladoria Geral do Município contra a Transwolff e a UPBus e, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil no processo investigatório.
A operação realizada nesta quinta-feira (17) reforça a gravidade dos fatos que motivaram as providências adotadas pela Prefeitura. A administração colabora integralmente com o Ministério Público, fornecendo todos os documentos e esclarecimentos necessários.”
A CNN Brasil tenta localizar a defesa dos outros citados.
Novo organograma do PCC mostra “sintonias” e dimensão da facção; veja
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo

