A Polícia Federal não precisou de testemunha para provar que Daniel Vorcaro fotografava anotações no celular e as enviava, minutos depois, para um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Bastou cruzar três registros deixados pelo próprio sistema do iPhone apreendido do banqueiro. Esse é o método por trás de um relatório de 218 páginas que a corporação entregou ao Supremo Tribunal Federal, a partir da extração forense do aparelho do ex-controlador do Banco Master, preso desde novembro do ano passado no âmbito da Operação Compliance Zero. O documento integra a Petição 16.662 e só se tornou público depois que o ministro André Mendonça, relator do caso, decidiu retirar o sigilo que cercava o material. A Jovem Pan teve acesso ao relatório assim que essa decisão foi tomada.
A reconstrução feita pelos peritos é minuciosa. Eles cruzaram o conteúdo do bloco de notas do celular de Vorcaro com os registros de sistema que mostram o momento exato em que cada mensagem foi enviada pelo WhatsApp, além do histórico que indica quando cada aplicativo foi aberto e fechado no aparelho. O padrão encontrado se repete várias vezes ao longo do relatório. Vorcaro abre o Bloco de Notas, escreve ou edita um texto, tira uma captura de tela e, no mesmo segundo ou no seguinte, o próprio iPhone gera sozinho uma cópia daquele conteúdo em formato PDF, guardada numa pasta temporária que o usuário comum sequer enxerga. Logo depois, o WhatsApp é aberto e a mensagem segue para o contato ligado a Moraes. Para a PF, esse arquivo temporário é o detalhe que dá consistência à reconstrução, porque não foi criado de propósito por Vorcaro, e sim pelo próprio sistema operacional, sem que ele tivesse controle sobre isso.
O relatório também mostra de onde surgiu esse contato. Segundo os investigadores, foi o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria quem apresentou o número a Vorcaro, no fim de dezembro de 2023. O mesmo telefone aparecia salvo sob nomes diferentes, entre eles “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo” e “STF TSE NOVO”. Cerca de um mês depois desse primeiro contato, a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, enviou a Vorcaro a minuta final de um contrato de honorários entre o escritório dela e o Banco Master, no valor de três milhões de reais por mês. Os peritos afirmam que os metadados desse arquivo indicam que a última edição da minuta, feita em janeiro de 2024, partiu de um usuário identificado dentro do próprio documento como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Meses depois, já em 2025, o relatório traz o registro de um pagamento de pouco mais de três milhões de reais do banco para a conta do escritório, além de uma cobrança separada, em nome de uma empresa ligada a Vorcaro, que superava os vinte e dois milhões de reais. Há ainda um trecho em que os investigadores descrevem uma tentativa de interferir no conteúdo de uma reportagem, com um pedido para que se incluísse a informação de que três ministros do Supremo teriam se reunido de forma reservada com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, episódio ligado a um evento em Londres do qual o próprio Vorcaro participou. Meses depois desse evento, o banqueiro ainda comentava, em conversa com outra pessoa, que o ministro tinha reclamado bastante do que aconteceu por lá.
