

Recentemente, terminei a leitura do livro “Seis propostas para o novo milênio”, de Ítalo Calvino. O autor propõe cinco conceitos que ele gostaria de ver presentes na literatura do século XXI. Lá estão a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade e a multiplicidade. A sexta, que seria a consistência, o pensador italiano não chegou a escrever. Apesar de a obra abordar a literatura, fica impossível, para o seu leitor, não pensar sobre esses temas, levando também em consideração o nosso modo de viver, de pensar e de olhar para o mundo. Assim, não vou falar acerca do universo literário, mas sobre como as ideias de Calvino ajudam a enxergar o Brasil de 2026, prestes a realizar mais uma eleição presidencial e atravessado por um clima de instabilidade no STF. Cada uma das propostas valeria uma reflexão sobre esse cenário político, porém vou escolher duas, as quais julguei mais interessantes para olhar o país sob a ótica de Calvino: a leveza e a exatidão.
De modo bem sintético, o autor, quando se refere à leveza, diz que a literatura tem capacidade de tirar o peso das coisas, mas sem torná-las superficiais. Quando olhamos para a situação política brasileira, a poucas semanas do primeiro turno das eleições, penso que essa abordagem pode ser muito útil. Porque o debate público, mergulhado no ambiente acelerado das propagandas, das redes sociais, das fake News, do caso Master e da disputa performática de atenção, parece pesado demais. Mas, se olharmos com mais cuidado, perceberemos que, na verdade, ele está superficial demais. O que temos é um excesso de peso sem densidade alguma. É pesado enxergar no adversário um inimigo; na divergência, uma ameaça. A eleição vira um campo de batalha.
E, ao mesmo tempo, é superficial, porque, no meio dessa polarização, pautas importantes para a sociedade são reduzidas a frases de impacto, memes, cortes de vídeo e respostas instantâneas. Será que, se a eleição fosse levada com mais leveza (não com menos seriedade), não seria mais fácil discutir questões extremamente mais complexas e relevantes para a sociedade? A capacidade de não polarizar tudo talvez seja uma forma leve, inteligente e mais eficaz de ver a política.
A outra proposta, a exatidão, pode ser que seja até mais necessária diante desse panorama atribulado. Vivemos um período em que a informação política circula em uma velocidade enorme. O próprio TSE estabeleceu regras específicas para propaganda eleitoral na internet e para o uso de inteligência artificial nas eleições deste ano. Nesse ambiente, a exatidão se torna uma necessidade democrática. Ela significa perguntar: isso aconteceu mesmo? Qual é a fonte? Qual é o contexto? Esse número significa exatamente o que estão dizendo que significa? A promessa é competência constitucional daquele cargo? Estamos diante de um fato, de uma interpretação ou de uma opinião? O candidato realmente disse isso ou estamos diante de um recorte? Aliás, o próprio TSE está disponibilizando ferramentas e informações para que o eleitor consulte dados sobre as eleições e o processo eleitoral.
Talvez seja assim que os conselhos de Calvino para o terceiro milênio nos permitam enxergar o Brasil deste novo milênio: por meio da leveza, pois, ao retirar o peso das coisas, possamos pensar melhor e, consequentemente, votar melhor. Afinal, votar melhor também passa pela capacidade de reconhecer aqueles que possam contribuir para a construção de um país mais justo, com maior distribuição de prosperidade e menos submetido à cultura da violência. E, para terminar, por meio da exatidão, a fim de recuperarmos o valor da palavra precisa, do fato verificável e do pensamento crítico.

