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As ruas de Juiz de Fora passam a ter, a partir desta sexta-feira (4), 87 guardas municipais armados com pistolas 9 mm, um dos calibres também utilizados pela Polícia Militar. O investimento de R$ 1,2 milhão, que inclui a compra de armas e equipamentos, além de despesas com capacitação, exames e consultoria técnica, chega agora à etapa mais visível para a população. 

Para marcar a largada da nova Política de Segurança Pública Municipal, aposta do segundo mandado de Margarida Salomão (PT) para a área, a prefeita realizou uma cerimônia na tarde desta quinta-feira (3). O evento contou com a presença da prefeita, do secretário de Segurança Pública de Juiz de Fora, Tadeu David; do comandante da Guarda Municipal, Leandro Lisboa Barros; do subcomandante do 2º Batalhão de Polícia Militar, major Marcus Vinicius Castro, que representou o comandante da 4ª Região de Polícia Militar, coronel Lúcio Ferreira da Silva Neto; de Carlos Cunha, representante da Direção Regional da Polícia Penal; do general da 4ª Brigada de Infantaria Leve de Montanha, Marcelo de Mello Pontes Feliciano; e do inspetor-chefe da Delegacia da Polícia Rodoviária Federal em Juiz de Fora, Flávio Loures de Barros.

Em sua fala, a líder do Executivo exaltou as armas como uma política pacificadora. “Uma pessoa que vê um guarda propriamente equipado desanima, às vezes, de um propósito transgressivo. Então isso é uma atividade aparentemente pacificadora”. Em seguida, Margarida também destacou que a arma de fogo vai garantir mais segurança aos servidores. “Nós tivemos diversos incidentes em que vocês (da guarda), cumprindo o seu papel, foram hostilizados por pessoas armadas. Vocês sabem disso melhor do que eu. Então, daqui por diante, eu espero que situações como essa nunca mais se repitam”. Por fim, em sua fala, a prefeita falou do custo do projeto, conforme foi divulgado pela Tribuna de Minas na reportagem sobre quanto custa armar a guarda

Ao defender o investimento de R$ 1,2 milhão no processo de armamento da Guarda Municipal, a prefeita destacou que a maior parcela dos recursos não foi destinada à compra de armas, mas à formação dos agentes. Dos valores empregados, R$ 317 mil foram usados na aquisição de pistolas calibre 9mm, munições e acessórios, enquanto cerca de R$ 700 mil financiaram cursos e a preparação dos guardas para o uso de armas de fogo — investimento que Margarida classificou como “educação”. “Se nós vamos apontar o custo desse projeto, esse projeto custou R$ 300 mil em armas e munições e R$ 700 mil em educação”, afirmou. Segundo a prefeita, em sua fala pública, o investimento da Guarda Municipal armada chegou a preocupar, inclusive, a mãe do secretário Fernando Tadeu David. Margarida fez questão de acenar para a mãe do titular da pasta e para a população. “Um milhão de reais em um orçamento de R$ 4 bilhões, que é o orçamento da Prefeitura, é um recurso absolutamente proporcional”, disse Margarida. 

A Prefeitura sustenta, desde o anúncio da política, que o armamento da Guarda Municipal deve funcionar como instrumento de dissuasão da criminalidade e proteção dos próprios agentes. Ao divulgar a medida, em julho de 2025, a prefeita apresentou esses argumentos para justificar o uso de força letal. Já neste ano, o secretário de Segurança Urbana e Cidadania (Sesuc), Tadeu David, acrescentou, em entrevista exclusiva à Tribuna, que a decisão também busca atender à demanda da população por mais segurança. “A gente precisa dar uma resposta a essa sociedade, a esse contribuinte que tem a necessidade de ser atendido. Então, a gente quer ampliar, na verdade, a nossa atuação e dar uma resposta mais adequada.” A percepção de insegurança mencionada pelo secretário, porém, convive com indicadores que colocam Juiz de Fora em posição de destaque: no ano passado, o município ficou em sexto lugar no ranking “Cidades Mais Seguras do Brasil” entre cidades de porte semelhante. 

Entre o anúncio da medida e a chegada das armas às ruas, porém, a Guarda passou por uma série de etapas de preparação de exame psicotécnico, passando pelas aulas teóricas ao treinamento prático. Ao todo, 93 agentes iniciaram o treinamento, 89 participaram dos treinamentos e das avaliações e 87 concluíram. O caminho do treinamento, entretanto, passou percalços após o desastre socioambiental de fevereiro em Juiz de Fora.

Com parte do efetivo da Guarda Municipal mobilizada em ações de monitoramento nas áreas evacuadas após o desastre, a Prefeitura informou, em abril, que a implementação da Guarda armada sofreria um atraso. A conclusão do processo, prevista inicialmente para março, foi adiada em razão do estado de calamidade pública, segundo a PJF. Poucas semanas depois, a prefeita participou de uma solenidade de abertura do Curso de Armamento e Tiro da corporação. O treinamento acabou retomado ainda durante a calamidade, e a nova política entra agora em vigor sob a mesma condição – que foi prorrogada no último dia 22 por mais 180 dias. 

Quem estará mais exposto à Guarda armada?

Para o professor e pesquisador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Cláudio Santiago, a criação de regras para a atuação armada precisa ser acompanhada de mecanismos que permitam avaliar, na prática, os efeitos da nova política. Segundo ele, a Guarda deve produzir dados sistemáticos sobre as abordagens e ocorrências realizadas pelos agentes. “É importante saber, por exemplo, onde as abordagens acontecem, por qual motivo ocorreram, qual foi o resultado, se houve necessidade de utilização da força, qual tipo de força foi empregada e se houve algum ferido.” 

Santiago ressalta ainda que a entrada de uma nova força de segurança armada nas ruas não tende a ser percebida da mesma maneira por toda a população. Segundo o pesquisador, o grau de exposição às abordagens varia de acordo com fatores como o território onde a pessoa vive, a idade, as atividades que exerce e a frequência com que ocupa os espaços públicos. 

“De maneira geral, as pessoas que passam mais tempo nas ruas e nos espaços públicos tendem a ter maior possibilidade de contato com as forças de segurança. Isso pode incluir jovens, trabalhadores que circulam durante a noite, entregadores, pessoas que trabalham no comércio informal, população em situação de rua e moradores de regiões onde existe uma presença mais intensa dos órgãos de segurança”, explica, a medida em que ressalta que, por isso, é necessária uma perspectiva de segurança cidadã. “O território deve ser protegido, mas as pessoas que vivem naquele território também precisam se sentir protegidas”, finaliza. 

Ex-prefeito da cidade descartou guarda armada em 2018

Atualmente, mais de 20 municípios de Minas já incorporaram a guarda municipal armada. Além de Juiz de Fora aparecem nessa lista Alfenas, Andradas, Barbacena, Belo Horizonte, Betim, Cláudio, Contagem, Guaxupé, Ipatinga, Itabirito, Lagoa da Prata, Mariana, Nova Lima, Nova Serrana, Passos, Poços de Caldas, Ribeirão das Neves, Santa Luzia, São Gonçalo do Rio Abaixo, Sete Lagoas, Uberaba e Varginha que já tem o Termo de Adesão e Conduta (TAD) com a Polícia Federal.

Apesar disso, a discussão sobre armar a guarda municipal não vem de agora. Em 2015, durante o governo de Bruno Siqueira (MDB) foi sancionado o uso de equipamentos não letais pela Guarda. Em 2017, porém, emenda proposta pelo vereador José Fiorilo (PTC) alterou a Lei Orgânica do município para retirar a proibição ao porte de arma de fogo pelos guardas municipais.  

A mudança abriu caminho legal para o armamento da corporação, mas não significou, naquele momento, uma decisão da Prefeitura de armar os agentes com arma de fogo. À época, o então prefeito Bruno Siqueira afirmou ao jornalista Renato Salles que o Executivo não tinha planos de adotar a medida. O líder do Executivo destacou que já havia o uso de armas não letais e que serviam para a imobilização. Isso ocorreu em 2018. 

De lá pra cá, alguns aspectos mudaram. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, embora a segurança seja atribuição principal do Estado, há no país uma progressiva incorporação do setor à agenda local. 

A agenda da segurança municipal ganha um tom particular neste ano, que liga, em Juiz de Foram políticos considerados de espectros políticos opostos – e, desta vez, parte do Executivo a iniciativa de uso de armas letais. Um exemplo disso é que a política armamentista de Margarida (PT) chegou a ganhar uma emenda de R$ 35 mil para a compra de armas de menor potencial ofensivo do Sargento Mello Casal (PL). O recurso, que consta na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, publicada em 30 de janeiro deste ano, entretanto, não pôde ser utilizado para a finalidade inicialmente indicada, uma vez que a PJF adotou uma arma de uso restrito e de maior potencial letal do que esperava o vereador Sargento Mello Casal.