PRONTO!
PRONTO!
Um dos objetivos anunciados pela Prefeitura com o PRONTO! era reduzir filas e agilizar o atendimento na rede de saúde (Foto: Felipe Couri)

Apresentado pela Prefeitura de Juiz de Fora, em abril de 2025, como ferramenta para modernizar a rede municipal de saúde, integrar informações e reduzir a burocracia enfrentada pelos pacientes, o “Pronto!” continua em processo de implantação mais de um ano depois do lançamento. Nesse período, o sistema de prontuário eletrônico passou a ser alvo de reclamações de profissionais, motivou audiências públicas na Câmara Municipal e segue em investigação do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) sobre sua contratação.

A plataforma foi contratada para reunir diferentes etapas da assistência, como prontuários, agendamentos, farmácia e vigilância em saúde, em ambiente integrado. Entre as mudanças anunciadas estava a possibilidade do próprio encaminhamento para consultas e procedimentos avançar pelo sistema, reduzindo a necessidade de deslocamento até as unidades para realizar marcações. Procurada pela Tribuna de Minas, a Prefeitura reafirma que a implantação está ocorrendo. 

Enquanto o Poder Executivo sustenta que o processo avança, problemas relacionados ao uso da ferramenta continuam sendo discutidos. Profissionais relataram à Câmara dificuldades para localizar históricos clínicos, lentidão, necessidade de utilização de sistemas paralelos e demora no suporte técnico.

O presidente da Comissão de Saúde Pública e Bem-Estar Social da Câmara, vereador Marcelo Condé (Avante), defende que a preocupação ultrapassa a questão tecnológica. Para ele, falhas no acesso ao histórico clínico ou em informações sobre exames e procedimentos podem gerar retrabalho, repetição de atendimentos e dificultar decisões dos profissionais.

“O sistema deve facilitar o trabalho da equipe de saúde, e não criar uma nova barreira”, disse à Tribuna.

É nesse contexto que aparece o relato da professora Maria Laura Muller, que acompanha a tia, Maria Cecília Muller, de 81 anos, nos atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em poucas semanas, ela conta ter recebido informações ambíguas sobre a marcação de exame, SMS com campos essenciais sem preenchimento e indicação incorreta do local de outro procedimento.

Os documentos enviados à Tribuna confirmam parte dessas situações. Em comprovante referente ao agendamento de uma endoscopia, data e horário apareciam em destaque, enquanto, no fim do texto, a orientação informava que a paciente deveria comparecer para receber instruções e realizar o agendamento. Maria Laura alega que outros pacientes também entenderam que fariam o exame naquele dia, portanto, havia uma fila formada principalmente por idosos que, segundo relata, estavam em jejum para realização dos exames. Ela narra que um homem teria havia saído de outra cidade ainda de madrugada sem comer desde a noite anterior, enquanto outra uma mulher chegou a desmaiar enquanto aguardava.

‘A população sofre por coisas fáceis de resolver’

Após o episódio envolvendo a endoscopia, Maria Laura procurou a ouvidoria e pediu revisão da maneira como as informações eram apresentadas. O retorno encaminhado à reportagem mostra “rejeição de registro da demanda”, com a justificativa “assunto não pertinente”.

Dias depois, em 21 de julho deste ano, outro aviso chegou em seu celular. No lugar dos dados que deveriam identificar paciente, solicitação e data, o SMS manteve instruções do modelo da mensagem: “{PrimeiroNomePaciente}”, “{NumeroSolicitacao}” e “{DataAgendamento}”. O texto informava que a solicitação havia sido agendada pela Secretaria de Saúde e orientava contato com a unidade de referência, mas não permitia saber a quem se referia nem quando ocorreria o atendimento.

Em outro procedimento da tia, Maria Laura relata que o endereço informado estava incorreto. Ao chegar ao local indicado, pacientes foram orientados a seguir para outro ponto de atendimento.

Eu estava de carro e consegui levar minha tia. Mas tinha cadeirante, gente idosa, pessoas com dificuldade de locomoção. E quem tinha ido de ônibus? E se estivesse chovendo?”, questiona.

Para a professora, episódios como esses mostram como falhas de comunicação podem aumentar obstáculos no acesso aos serviços.

“A população sofre por coisas fáceis de resolver”, resume.

Quando apresentou o “Pronto!”, em abril de 2025, a Prefeitura anunciou mudança justamente nesse fluxo. Na ocasião, a administração municipal afirmou que o encaminhamento para consultas especializadas passaria a ser feito pelo profissional de saúde durante o atendimento e que o usuário deixaria de ser responsável por parte da marcação. A gestão também tinha anunciado que exames, laudos e histórico seriam futuramente disponibilizados pelo “BuscaSaúdeJF”.

Problemas são discutidos desde o início da implantação

O “Pronto!” começou a ser implementado nas Unidades Básicas de Saúde em abril de 2025 para substituir o “e-SUS APS”, ferramenta disponibilizada gratuitamente pelo Ministério da Saúde. A contratação da empresa Vivver Sistemas Ltda., por pregão eletrônico, foi divulgada à época no valor de aproximadamente R$ 6 milhões e provocou questionamentos de servidores e do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Juiz de Fora (Sinserpu-JF).

Naquele momento, profissionais ouvidos pela Tribuna apontaram preocupação com a troca de sistema, as condições de trabalho durante a mudança e a proteção dos dados dos pacientes. A Prefeitura havia defendido a contratação sob o argumento de que precisava de plataforma capaz de articular diferentes tipos de atendimento e afirmou que os dados pertenciam exclusivamente ao Município.

As dificuldades também chegaram à Câmara. Em setembro de 2025, audiência pública sobre filas para exames e consultas incluiu críticas ao “Pronto!”. Vereadores questionaram o desempenho da ferramenta, enquanto o coordenador do Departamento de Tecnologia e Planejamento em Saúde informou que prontuários e arquivos mantidos em papel estavam sendo inseridos gradualmente na plataforma.

O tema voltou à Casa Legislativa em julho deste ano. Em nova audiência, a Comissão de Saúde indicou ter recebido relatos de médicos, enfermeiros, técnicos, recepcionistas, agentes comunitários e gestores sobre dificuldades recorrentes no uso do sistema. Entre os problemas listados estavam lentidão, instabilidade de internet, demora no suporte, necessidade de trabalhar com mais de um sistema, dificuldade para localizar informações e falhas na migração de históricos clínicos.

Como encaminhamento, a Comissão propôs reforço do suporte técnico, investimentos em infraestrutura, capacitação permanente, conclusão da integração dos dados clínicos, criação de grupo permanente para acompanhar o “Pronto!” e divulgação de indicadores públicos sobre o desempenho da plataforma.

Comissão diz que acompanhamento ainda é necessário

Contactado pela Tribuna após a audiência, Marcelo Condé respondeu que os problemas não podem ficar restritos ao debate realizado na Câmara Municipal e defendeu acompanhamento contínuo das providências adotadas pelo Executivo.

O vereador não apontou medida específica já concluída pela Prefeitura em decorrência dos encaminhamentos de julho. Ele justificou que a Câmara precisa ter acesso às informações para verificar se os problemas estão, de fato, sendo solucionados e disse que a Comissão pretende continuar cobrando dados sobre a evolução da plataforma.

Entre as principais preocupações, Marcelo destaca a dificuldade de acesso ao histórico clínico, já que a ausência de informações pode representar obstáculo à tomada de decisões. O vereador também menciona necessidade de suporte mais humanizado e dados atualizados sobre exames, consultas e procedimentos.

Segundo ele, inconsistências podem gerar retrabalho, repetição desnecessária de procedimentos e dificuldade para compreender o histórico do paciente.

“Não estamos tratando apenas de uma questão administrativa ou tecnológica. Estamos tratando de uma ferramenta que interfere diretamente na prestação do serviço de saúde”, elenca.

Sobre o grupo permanente de acompanhamento e a divulgação de indicadores, Marcelo diz que os mecanismos continuam necessários. Para ele, sem acompanhamento constante e dados objetivos, fica mais difícil avaliar se as medidas adotadas produzem resultados.

Marcelo pondera que a crítica não significa oposição à tecnologia. Segundo o vereador, sistema integrado pode melhorar a organização e a continuidade do atendimento, mas precisa cumprir a finalidade para a qual foi contratado.

“O nosso objetivo é muito claro: garantir que o investimento feito no ‘Pronto!’ se transforme em sistema que realmente funcione para quem mais importa, que é o paciente, e também para os profissionais que estão na ponta do atendimento”, observa.

Prefeitura detalha andamento do sistema

Em resposta à Tribuna, a Prefeitura garante que diferentes frentes do “Pronto!” já estão em funcionamento, enquanto outras ainda passam por implantação ou permanecem programadas. O Município acrescenta que a migração dos dados foi feita a partir da estrutura disponibilizada pelo “e-SUS” e que a equipe técnica segue trabalhando na consolidação dos históricos clínicos e na integração com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS).

A administração municipal afirma ainda que o “Pronto!” conta com suporte 24 horas realizado por 30 profissionais, além de canais digitais e atendimento presencial. A estrutura citada contrasta com a área criticada na audiência, quando trabalhadores relataram demora para obter suporte.

Sobre o monitoramento, a Prefeitura feisa que o desempenho é acompanhado por indicadores de gestão do SUS. A Câmara, por outro lado, havia proposto a divulgação de indicadores públicos do “Pronto!”, de forma a permitir acompanhamento pela sociedade e pelo Legislativo. Na resposta à Tribuna, o Poder Executivo local não apresenta os números nem informou se estão disponíveis publicamente.

Outro esclarecimento diz respeito ao custo. Embora a contratação tenha sido divulgada desde 2025 como projeto de aproximadamente R$ 6 milhões, a Prefeitura afirma que, até o momento, foram pagos R$ 1.294.142,96, conforme o avanço da implantação. O contrato permanece vigente até maio de 2028. 

Ministério Público mantém investigação

Além das cobranças no Legislativo, a contratação permanece sob apuração do Ministério Público de Minas Gerais. Em abril de 2025, a 22ª Promotoria de Justiça informou ter instaurado Procedimento Preparatório para apurar possíveis irregularidades na contratação do sistema privado em substituição ao “e-SUS APS”. Na época, o MP disse que já havia ouvido testemunhas e se reunido com representantes das secretarias municipais de Fazenda, Saúde e Licitações.

Agora, contactada novamente, a Promotoria informa que a apuração “ainda está em tramitação” e indica o Inquérito Civil Público de número 02.16.0145.0187736.2025-90. O órgão não apresenta, contudo, conclusão sobre eventual irregularidade, a investigação segue aberta. 

Mais de um ano depois da apresentação do “Pronto!” como marco de modernização da saúde municipal, a Prefeitura sustenta que a implantação avança, com módulos em funcionamento, suporte permanente e consolidação de dados. Profissionais e vereadores, por outro lado, relatam entraves que vão da lentidão à dificuldade de acessar históricos clínicos, enquanto usuários ainda enfrentam problemas básicos de comunicação.

Para Maria Laura, é justamente nessa distância entre tecnologia e rotina que está o problema. Depois de acompanhar a tia em sucessivos atendimentos, ela diz que o esforço para entender mensagens, confirmar orientações e corrigir informações recai sobre quem já depende da rede.

“Minha tia estava comigo e eu consegui resolver. Mas nem todo mundo tem quem faça isso. Quando a informação falha, quem sofre é o paciente”, finaliza.

*Estagiário sob supervisão do editor Arthur Raposo Gomes.