
O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, teve os bens bloqueados em até R$ 6 milhões pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo investigação da Polícia Federal (PF), Cunha atuava como uma “espécie de agente privado” dentro do Parlamento e teria conseguido, mesmo sem exercer nenhum mandato ou cargo público atualmente, destinar 21 emendas parlamentares a municípios de Minas Gerais, que totalizam o valor bloqueado pelo STF.
O bloqueio determinado por Dino aconteceu no âmbito da Operação Transparência. Conforme a PF, os repasses das emendas aos municípios mineiros eram feitos por meio de documentos fraudulentos que ocultavam o nome do ex-parlamentar. As apurações indicam que a operação funcionava por intermédio de uma ex-assessora de Cunha, que atua como servidora na Câmara dos Deputados.
Na decisão de Dino, aparecem diversas cidades da Zona da Mata envolvidas no esquema. Sobre Manhuaçu, por exemplo, a 289 quilômetros de Juiz de Fora, Cunha falou com a assessora: “Estou com um problema lá em uma das emendas de Manhuaçu que o pessoal lá é inimigo e estão dizendo que é do Nikolas. Como pôs no Gilberto Abramo, preciso de um ofício dele dizendo que essa emenda é de autoria dele, a pedido do Deputado estadual João Magalhães, senão vamos ter de trocar e não mandar para lá”.
Ele prossege, “Tem um segundo problema que Matias Barbosa (a 19 quilômetros de Juiz de Fora) que era 2 (milhões), só teve limite de 1,349 (milhões), vou precisar substituir a diferença”. Ele solicitou a substituição da diferença para os municípios de Pedrinópolis e Varjão de Minas.
Dino também cita Lajinha, município também da Zona da Mata a 345 quilômetros de Juiz de Fora. Conforme a decisão do ministro, “de início, Cunha fala em um valor de R$500.000 para o município de Lajinha. Logo em seguida, ele cita alguma condição que impediria o envio desse valor total, de modo que supostamente ele só conseguiria enviar R$330.970, conforme sua mensagem. Ainda, quando cita a diferença, Cunha menciona o valor de R$169.030. Todavia, no anexo encaminhado, que trata aparentemente da diferença mencionada, há explícito a cifra de R$169.070. Desse modo, os dados permitem inferir que há uma confusão na hora de referenciar esses valores”.
No dia 18 de novembro de 2025, Cunha envia para a ex-assessora uma planilha intitulada “Minas lista 2”. Ao abrir o documento, há uma lista de municípios, seguidos do campo “Ministério”, que está completamente preenchido com o nome “Saúde”, uma provável referência ao Ministério da Saúde. Por fim, o campo valor, em que há cifras relacionadas aos municípios listados.
No dia seguinte, o ex-deputado federal fala acerca das emendas em primeira pessoa, e cita outro município da região: “Um município que mandei, Goianá (a 41 quilômetros de Juiz de Fora) com montante de 150.000, na hora de cadastrar só teve de saldo 103.939, em função de ter entrado outra emenda da deputada Sheila lá”.
Dino traz uma tabela com um um cruzamento de informações entre as planilhas encontradas no celular da ex-assessora e os dados oficiais de empenho e pagamento extraídos do Portal da Transparência. Nela, aparecem outros 12 municípios da Zona da Mata:
- Raul Soares: R$ 472.980
- Piau: R$ 300.000
- São João Nepomuceno: R$ 250.000
- Santo Antônio do Aventureiro: R$ 250.000
- Guarani: R$ 250.000
- Belmiro Braga: R$ 200.000
- Rio Preto: R$ 200.000
- Paiva: R$ 200.000
- Espera Feliz: R$ 169.070
- Aracitaba: R$ 150.000
- Ewbank da Câmara: R$ 100.000
- Oliveira Fortes: R$ 46.061
Confira tabela completa

“Evidências reunidas até o momento indicam que Eduardo Cunha atuava como um agente privado com influência política equivalente ou até superior a dos parlamentares em exercício, direcionando recursos federais sem qualquer autorização institucional”, escreveu Dino na decisão.
Defesa desconhece irregularidade
À Agência Estado a defesa de Eduardo Cunha afirmou que “desconhece qualquer irregularidade na tramitação das emendas” e que ele “não exerce mandato parlamentar e, portanto, não apresentou, subscreveu ou formalizou nenhuma das emendas mencionadas”.
“Eduardo Cunha sempre pautou sua vida publica pelo compromisso ético e probidade, respeitando as normas legais, inclusive, enquanto exerceu seu mandato parlamentar”, diz a nota, completando que a defesa “rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar”.
A nota termina dizendo que a defesa buscará acesso integral à investigação “a fim de conhecer o contexto completo dos fatos, exercer o contraditório e impugnar as medidas decretadas”.
* Com informações da Agência Estado
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