

Embora sejam maioria entre o eleitorado apto a votar, as mulheres ainda ocupam espaço proporcionalmente menor entre as candidaturas e, sobretudo, entre os eleitos. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), elas somam 83.877.126 eleitoras, o equivalente a 52,84% do total nacional. Entre as 20.560 candidaturas consideradas pelo TSE nas eleições de 2026, porém, 7.165 são de mulheres, o que representa 34,85%.
Em relação às eleições gerais realizadas em 2022, o número de candidaturas à Câmara dos Deputados diminuiu: naquele ano, foram 10.620 inscrições para o cargo. Em 2026, são 7.685. Apesar da queda, a participação proporcional das mulheres entre os concorrentes aumentou de 35% para 36,7%.
Esse avanço percentual, no entanto, ainda contrasta com a presença feminina entre os eleitos. Nas eleições de 2022, as mulheres conquistaram 91 das 513 vagas disponíveis na Câmara dos Deputados, o equivalente a 17,7% do total.
Cientista política e professora da UFJF, Christiane Jalles, avalia que a redução no número de candidaturas é um dos efeitos das mudanças na legislação eleitoral destinadas a diminuir a fragmentação partidária. “No caso das candidaturas de mulheres, embora tenha havido uma diminuição em termos absolutos, há um crescimento percentual em razão da queda geral no número de candidaturas. O percentual de mulheres é maior que nas eleições de 2022. Isso mostra que os partidos estão cumprindo o percentual mínimo de candidaturas de mulheres.”
Para Christiane, ampliar a presença feminina entre as candidaturas não é suficiente para garantir maior representação nos cargos eletivos. Segundo ela, medidas como a fiscalização do cumprimento das cotas de gênero e o aperfeiçoamento dessa política, com a garantia de acesso das candidatas aos recursos de financiamento de campanha, podem contribuir para que mais mulheres sejam eleitas.
Outro fator que pode afastar mulheres da disputa eleitoral ou dificultar sua permanência na política, conforme a cientista política, é a violência de gênero. Christiane afirma que essas práticas fazem parte do cotidiano de muitas candidatas e estão relacionadas ao machismo e a mecanismos de exclusão e submissão das mulheres nos espaços políticos e públicos.
“As violências psicológicas, simbólicas e institucionais são as formas como a violência de gênero é perpetuada no cotidiano político-partidário. Violências como as “brincadeiras” que diminuem as mulheres e as barreiras para que ocupem os cargos nas hierarquias partidárias.”
Das restrições à luta pela presença das mulheres na política
Para a doutora em Comunicação pela UFJF Najla Passos, a baixa presença de mulheres nos espaços de poder e de decisão política está relacionada às estruturas históricas do patriarcado. Também professora do ensino superior, ela cita a teórica feminista italiana Silvia Federici ao abordar as transformações sociais e históricas que modificaram o papel atribuído às mulheres ao longo do tempo.
“Na Idade Média, elas tinham o conhecimento, dominavam a medicina e o tratamento com ervas, mas foram chamadas de bruxas e queimadas. A mulher tinha que ficar em casa e cuidar da família, um trabalho caro ao capitalismo.”
Ao ampliar a discussão para a realidade latino-americana, Najla também recorre à teórica feminista argentina Rita Segato. Segundo a professora, a colonização introduziu e intensificou estruturas de poder que restringiram ainda mais a participação das mulheres nos espaços públicos.
“Depois da colonização, vem esse modelo de patriarcado moderno colonial de alta intensidade, a imposição do valor cultural eurocêntrico, da figura do homem branco e heterossexual que chegava colonizando os povos selvagens.”
Na avaliação de Najla, a organização histórica da sociedade manteve as mulheres durante longos períodos vinculadas principalmente ao espaço privado, enquanto os movimentos feministas contribuíram para ampliar sua participação na vida pública e política.
“O feminismo surge para poder equilibrar essa correlação de forças. A primeira luta é conquistar o voto feminino, que no Brasil aconteceu há menos de 100 anos. As mulheres podem votar, mas são poucas as que conseguem se candidatar, porque ainda é um espaço masculino e porque fazem de tudo para nos deixar de fora desse espaço”, analisa Najla.
No Brasil, o direito das mulheres de votar e serem votadas foi reconhecido pelo Código Eleitoral de 1932. A primeira eleição nacional em que mulheres exerceram esses direitos ocorreu no ano seguinte, na votação para a Assembleia Nacional Constituinte.
Como exemplo de como os espaços institucionais foram historicamente estruturados para uma presença predominantemente masculina, Najla menciona o fato de que o Plenário do Senado Federal não tinha banheiro feminino destinado às senadoras até 2015.
“Ainda assim, as mulheres têm lutado muito por espaço, têm maior escolaridade e capacidade de luta. Agora essa estrutura está mudando, traz novos desafios, mas temos que continuar na luta e ocupar esses espaços.”
*Estagiária sob a supervisão da editora Carolina Leonel

