

Apesar de as eleições de 2026 não definirem cargos municipais, a votação irá eleger, também, os representantes dos governos dos diferentes estados do Brasil. Contudo, a relação entre as duas esferas é fundamental sobretudo para as cidades, visto que envolve repasses financeiros e cooperação em serviços públicos.
Desde a redemocratização do país, após a ditadura militar, Juiz de Fora contabiliza sete chefes do Poder Executivo local: Tarcísio Delgado (no então PMDB), Carlos Alberto Bejani (um mandato pelo antigo PRN e outro pelo PTB), Custódio Mattos (PSDB), José Eduardo Araújo (antigo PR), Bruno Siqueira (então no MDB) e Antônio Almas (PSDB), além da atual prefeita Margarida Salomão (PT). Durante esse período, cada um conviveu com diferentes governadores em Minas.
Nos mandatos, cada líder da administração municipal teve relações diferentes com os do Estado: desde entregas de obras até problemas envolvendo diferenças partidárias. Além disso, há um debate sobre uma questão: com o passar dos anos, Juiz de Fora tem sido abandonada pelo governo estadual? Confira, abaixo, as respostas de cada ex-prefeito.
O início da edição 2026 do Voto e Cidadania marca também a ampliação da cobertura eleitoral da Tribuna de Minas, como já ocorreu em eleições passadas.
Tarcísio Delgado
Primeiro prefeito após a redemocratização do país, Tarcísio Delgado exerceu três mandatos como chefe do Poder Executivo de Juiz de Fora: de 1983 a 1988, de 1997 a 2000 e de 2001 a 2004. Também atuou como vereador, deputado estadual e federal, permanecendo por 46 anos no MDB, antigo PMDB. Ele também atuou como diretor do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) e secretário de Estado do Trabalho e Ação Social de Minas Gerais.

Tarcísio morreu em setembro de 2025. Ele passou pelo fim do governo de Francelino Pereira (primeiro Arena e depois PDS), Tancredo Neves (então PMDB), Hélio Garcia (filiado ora no antigo PRS e depois no PTB), Newton Cardoso (então PMDB), Eduardo Azeredo (PSDB), Itamar Franco (então PMDB) e Aécio Neves (PSDB).
Carlos Alberto Bejani
Na avaliação de Carlos Alberto Bejani, a relação do Município com o Estado durante seus mandatos foi “muito boa”. No primeiro governo, a partir de 1989, conviveu com Newton Cardoso. Durante a campanha, relata ter feito críticas ao governador porque ainda não conhecia seu trabalho e era iniciante na política. Depois da posse, os dois estabeleceram uma boa relação. “Conseguiu asfalto e recursos para a construção da creche da Vila Ideal, do posto médico do Bairro Santos Dumont, do Centro de Educação do Menor e de outros postos de saúde, que ainda não eram chamados de UBS”, elenca.

Na área de desenvolvimento, cita a chegada a Juiz de Fora de lojas como Casas Bahia e C&A. Para Bejani, o trabalho era prioridade porque as pessoas empregadas ficam menos doentes, tornam-se mais produtivas e mantêm melhores relações familiares e com os vizinhos. Na avaliação dele, a falta de emprego produz o efeito contrário, com aumento de doenças, conflitos e criminalidade.
A parceria com Newton Cardoso também permitiu, conforme apontado por Bejani, a obtenção de material para a implantação de uma nova usina de asfalto. “A antiga unidade ficava na Vila São Benedito, no meio de uma mata, e era poluidora. O local dava acesso ao Bairro de Lourdes. Também foram construídas escolas e colégios. Tínhamos um bom relacionamento”, conta.
No segundo mandato, iniciado em 2005, já com a experiência de dois períodos como deputado, conviveu com Aécio Neves, que, ao olhar do ex-prefeito, ajudou na construção da nova Avenida Deusdedith Salgado. “A intenção era transformar a entrada da cidade em uma via semelhante à Avenida Raja Gabáglia, em Belo Horizonte. O projeto foi criticado porque previa levar concessionárias de veículos para uma área distante do Centro, quando a Avenida Brasil concentrava esse comércio”, diz. Bejani ainda cita a chegada dos hospitais Monte Sinai e Albert Sabin e a construção do HPS e as UPAs de Santa Luzia e São Pedro, além de várias UBS.
Sobre a afirmação de que Juiz de Fora foi esquecida, Bejani concorda e ressalta que a cidade atende municípios vizinhos e funciona como uma capital regional, principalmente na saúde, na educação e no comércio. “Está sendo esquecida tanto pelo governo estadual como pelo federal”, defende.
Custódio Mattos
Foi prefeito por dois mandatos (1993-1996 e 2009-2012) e conviveu, nesses oito anos, com quatro governadores: Hélio Garcia, Eduardo Azeredo, Aécio Neves e Antônio Anastasia (PSDB). “Mantive excelente relação administrativa com todos e obtive apoio indispensável para iniciativas e obras de maior vulto”, garante.
“Os recursos próprios do Município são muito modestos, e qualquer empreendimento mais significativo depende do apoio do Estado ou do Governo Federal. No meu caso, tive respaldo dos dois. A relação com o Estado é mais próxima e permitiu grande apoio aos programas criados pela Administração municipal, atendendo melhor às nossas prioridades”, complementa Custódio.
Segundo ele, no primeiro mandato, a cidade teve um programa de urbanização, com captação de águas pluviais, contenção de encostas e asfaltamento de bairros inteiros, financiado com recursos estaduais. Também foram realizadas obras como a duplicação e a iluminação da Avenida JK, bem como a construção do Acesso Norte.

No campo do desenvolvimento econômico, Custódio comenta que a atração dos projetos da Mercedes-Benz e, no segundo mandato, da Codeme seria impossível sem o protagonismo do governo estadual. “No segundo mandato, destacaria a cooperação com o Estado para outro grande programa de urbanização de bairros, a reforma e a modernização da Avenida Rio Branco e o início das obras do Hospital Regional”, indica.
“Cito esses casos de memória para ilustrar a cooperação possível entre os três níveis de governo. Acredito que essas possibilidades continuam existindo, independentemente das filiações partidárias dos ocupantes dos mandatos. Essa convivência pressupõe respeito, qualidade técnica e senso de prioridade na formulação das propostas”, conclui.
José Eduardo Araújo
O vice de Carlos Alberto Bejani assumiu o Executivo em junho de 2008. Araújo governou apenas até o fim do mesmo ano, quando foram realizadas novas eleições.
À Tribuna de Minas, ele lembra que o terreno do Expominas pertencia à Prefeitura. “Renato Garcia, então secretário de Administração e Recursos Humanos, providenciou a doação da área, mas a escritura somente seria transferida quando a obra estivesse quase concluída. O investimento foi de R$ 70 milhões, cumprido pelo governador Aécio Neves. Itamar Franco havia planejado construir o empreendimento em módulos, mas o governador decidiu implantar uma estrutura semelhante à existente em Belo Horizonte. A obra foi inaugurada ainda durante aquela administração”, narra.
José Eduardo conta que quando assumiu a Prefeitura, Aécio quis conhecer o novo prefeito de Juiz de Fora. “Danilo de Castro, que havia sido superintendente da Caixa Econômica Federal na cidade, solicitou que eu fosse a Belo Horizonte”, relembra.
“Durante o período em que estive à frente do Executivo, o principal investimento de Aécio aqui foi a destinação de R$ 40 milhões, com aplicação vinculada à construção de uma estrada entre a Mercedes-Benz e o Aeroporto Regional. A via passaria fora da rodovia que liga Juiz de Fora a Ubá, sem atravessar Coronel Pacheco e Goianá, seguindo diretamente até a entrada do aeroporto. Aécio também destinou R$ 1 milhão para a conclusão da Avenida Deusdedith Salgado”, enumera José Eduardo.

Nos meses em que era prefeito, o governo estadual mantinha-se à disposição da Prefeitura, segundo Araújo. Quando havia necessidade de contato com representantes de áreas como a Saúde, o atendimento era imediato. “Existia um excelente relacionamento no mandato. Mas considero que faltou atuação dos deputados estaduais. Quando assumi a Prefeitura, nenhum deles procurou a administração para oferecer apoio ou perguntar quais eram as necessidades do Município. Os deputados federais também não fizeram isso”, desabafa.
Na visão do ex-prefeito, Juiz de Fora enfrenta há muito tempo um problema de representatividade, o que afasta os governos e impede um diálogo permanente. “Sem relacionamento institucional, as obras não chegam, e a Zona da Mata fica esquecida. Existem obras importantes em Muriaé e Ubá, mas não há investimentos de maior porte no entorno de Juiz de Fora. A situação é diferente da observada no Norte, no Sul e no Triângulo Mineiro. Isso pode ser percebido nas estradas”, defende.
“Na minha avaliação, Juiz de Fora perdeu muito quando Itamar Franco foi governador. Itamar participou da redemocratização do Brasil e da criação do real, mas o reconhecimento acabou atribuído a Fernando Henrique Cardoso, que considero o pior presidente que o país já teve. A região perdeu oportunidades devido ao conflito entre os dois. A disputa envolvendo a Cemig fez com que muitos recursos fossem direcionados ao Espírito Santo. Itamar era uma pessoa honesta e correta, mas deveria ter prestigiado mais a Zona da Mata”, opina José Araújo.
Em relação ao Governo de Minas, José Eduardo diz que não é possível saber se a situação melhorará ou ficará ainda pior. “A dívida do Estado com a União é muito elevada. Minas conseguiu autorização para não pagar os juros, o que liberou recursos para o desenvolvimento de parte do território mineiro. Apesar disso, a dívida continua aumentando e precisará ser paga, a menos que o Governo federal decida perdoar os débitos.” Ele finaliza destacando que “um prefeito que se afasta do governador do estado fica isolado”.
Bruno Siqueira
A relação com o Governo do Estado, durante os mandatos de Antônio Anastasia e Alberto Pinto Coelho (PP) foi muito positiva da perspectiva de Bruno Siqueira, eleito pela primeira vez em 2012 e reeleito em 2016. “Eles destinaram recursos importantes à Prefeitura, e as obras financiadas pelo Estado avançaram”, aponta Bruno. Por outro lado, quanto ao governo de Fernando Pimentel (PT), a opinião não se mantém. “O Estado não repassou aos Municípios os recursos do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o que criou problemas para diversas cidades de Minas Gerais”, avalia.

“A obra do Teatro Paschoal Carlos Magno começou com recursos do mandato de Alberto Pinto Coelho e foi concluída com verbas já garantidas durante a gestão de Fernando Pimentel. As intervenções de travessia na Vila Olavo Costa vieram da época de Anastasia e Alberto. As obras do Hospital Regional avançaram durante os mesmos governos, mas foram interrompidas pela falta de recursos com o Pimentel. O Estado também financiou intervenções em encostas e a construção de uma escola”, alega. Pimentel foi eleito governador em 2014, mas perdeu a tentativa de reeleição em 2018, quando Romeu Zema foi eleito para o primeiro mandato.
Bruno relembra que a relação com o governo estadual também havia sido positiva em períodos anteriores. “Itamar Franco destinou muitos recursos a Juiz de Fora e viabilizou diversas obras. Aécio Neves e Antônio Anastasia também ajudaram a cidade. O principal problema ocorreu no governo do Pimentel. A falta de repasse dos recursos do ICMS foi uma situação grave”, reforça.
Atualmente, Bruno afirma que não acompanho de perto a relação entre os governos estaduais e municipais. No entanto, acredita que a obra do Hospital Regional “não foi concluída por causa do governador”. “Existe uma divergência política relacionada aos partidos: a prefeita Margarida Salomão do PT e o governador Romeu Zema do Novo. O Hospital Regional é uma intervenção importante, financiada pelo Governo do Estado, que está paralisada exclusivamente pela falta de recursos estaduais desde 2016, há dez anos”, crê Bruno. Romeu Zema (Novo) se descompatibilizou do governo em março deste ano, visto a legislação eleitoral, com vistas a concorrer à Presidência da República pelo Partido Novo. Desde então, o governador de Minas Gerais é Mateus Simões (ex-filiado ao Novo, hoje, no PSD).
Antônio Almas
Quando Bruno se descompatibilizou, em 2018, da Prefeitura de Juiz de Fora para concorrer a um novo mandato, o então vice, Antônio Almas assumiu. A relação de Almas com o governo estadual nos primeiros meses, segundo o mesmo, foi marcada por grandes dificuldades. “Na época, o Estado enfrentava uma grave crise financeira e não cumpria sequer o repasse das transferências constitucionais. Na saúde, os valores não repassados causaram dificuldades ainda maiores, porque a demanda é crescente e os recursos são sempre escassos. No ano seguinte, após as eleições, o novo governo passou a atribuir seus problemas à administração anterior, que havia deixado um grande endividamento”, menciona. Empossado no cargo em 2018, ele não tentou a reeleição em 2020, convivendo, principalmente, com o governo do então governador, Romeu Zema.
No último ano (2020), a situação piorou devido à pandemia da Covid-19, o que, de acordo com Almas, “trouxe todas as dificuldades conhecidas e fez com que muitos projetos fossem arquivados em diferentes secretarias”. “Muitos dos possíveis interlocutores do Município concentraram-se apenas no processo eleitoral. Portanto, não foi um bom período”, afirma.

“A cidade ainda levará muito tempo para concluir sua reconstrução após as enchentes que marcaram este ano. É fundamental que as lideranças políticas, empresariais e populares abandonem as trincheiras eleitorais e trabalhem pela reconstrução da cidade. Esse esforço também deve envolver o governo estadual eleito”, acredita o ex-prefeito.
As promessas, para Antônio Almas, não podem continuar sendo “outdoors” instalados a cada ano eleitoral e esquecidos posteriormente. “Não há espaço para que a disputa eleitoral continue durante todo o mandato. A falta de alinhamento ideológico não pode dificultar a construção de um projeto de reconstrução da cidade. Também é necessário reconstruir a liderança política de Juiz de Fora e superar as disputas meramente paroquiais. As responsabilidades das lideranças locais são grandes”, reflete.
Sobre o suposto esquecimento de Juiz de Fora em relação ao Estado, Almas acredita que a situação está mais relacionado à perda de liderança política vivenciada pela cidade. “Porém, as lideranças não são únicas responsáveis. O setor empresarial também tem um papel a cumprir. É necessário somar esforços e evitar a simples participação em um jogo entre o bem e o mal. Apesar das diferenças ideológicas, é possível superar a polarização estéril e construir pontes que facilitem a circulação de ideias voltadas ao crescimento sustentável da cidade e da região”, finaliza o ex-prefeito.

