A proximidade das eleições e o cenário de juros elevados estão mudando a percepção dos investidores estrangeiros sobre o Brasil. Neste mês, a bolsa já registrou uma saída de cerca de R$ 18 bilhões em capital estrangeiro até a última sexta-feira (14), configurando o pior mês em termos de fluxo estrangeiro na B3 desde o início do ano até o momento. A editora e analista de Economia da CNN, Lucinda Pinto, comenta o tema ao Hora H.
Segundo Lucinda, o saldo acumulado no ano ainda permanece positivo, mas está diminuindo de forma acelerada. “Olhando para frente, a gente não vê razões para esse cenário se inverter tão cedo”, afirmou.
Empresas endividadas e mercado de crédito privado sob pressão
O movimento de cautela dos investidores não se restringe à bolsa de valores. Lucinda Pinto destacou que títulos de dívida privada emitidos no exterior por empresas brasileiras também estão sofrendo desvalorização no mercado secundário, inclusive papéis de companhias com a nota máxima de rating permitida para empresas do país.
“O investidor estrangeiro não dá mais o benefício da dúvida para as companhias brasileiras porque ele tomou muitos sustos, ele perdeu dinheiro na reestruturação da dívida de grandes empresas que também eram bem avaliadas”, explicou a analista.
Casos recentes de empresas em dificuldades financeiras, como Casas Bahia, que entrou em recuperação judicial, além de Raiz e Braskem, que também enfrentam crises, contribuíram para aumentar a desconfiança dos investidores estrangeiros.
A analista ressaltou que a situação reflete o estouro de um quadro crítico de companhias que vêm carregando alta alavancagem há muito tempo.
Cenário macroeconômico e incerteza eleitoral pesam sobre o humor do mercado
Além das dificuldades específicas das empresas, o ambiente macroeconômico agrava o quadro. Lucinda Pinto apontou que a combinação de juros que devem cair pouco, perspectiva de desaceleração da atividade econômica no próximo ano e incerteza sobre o cenário fiscal pós-eleitoral mantém os investidores na defensiva.
“A gente não sabe o que vai acontecer no ano que vem, a gente não sabe que programa fiscal nós vamos ter. Tudo isso deixa o investidor na retranca”, disse.
No fechamento do mercado, o Ibovespa registrou queda de 0,27%. O dólar subiu 0,44%, atingindo R$ 5,22. Lucinda Pinto alertou para possíveis movimentos mais instáveis no câmbio nos próximos dias.

