O jurista Ives Gandra, que votou em Flávio Bolsonaro (PL) para chefiar o Palácio do Planalto, defendeu o resultado das urnas eletrônicas após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas disse à CNN Brasil que o STF (Supremo Tribunal Eleitoral) interferiu nas eleições.

Na avaliação do advogado, a Corte tomou decisões monocráticas que cabiam ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e, com isso, violou a Constituição de 1988.

Uma das decisões diz respeito ao despacho do ministro Cristiano Zanin, que prorrogou o horário de votação das 17h para as 19h, após relatos de dificuldade no transporte público em capitais como São Paulo e Salvador.

“Houve uma interferência do Supremo Tribunal Federal […] quase sempre de forma monocrática e não colegiada, e, com essa interferência, não se sabe avaliar qual foi o impacto em relação às eleições”, afirmou à CNN Brasil.

Gandra ainda afirmou que Flávio Bolsonaro errou ao se autodeclarar presidente do Brasil após a derrota nas urnas. “Ele [Flávio] fez um erro em dizer que era o presidente eleito. […] O povo votou no presidente Lula, mas de rigor, depois ele corrigiu, o que fez bem”, completou.

Para o jurista, Flávio “acertou no sentido de sair do Brasil“, porque “vai continuar com a liberdade de poder dizer o que pensa sobre o que está acontecendo”.

Gandra, que é um opositor histórico do PT (Partido dos Trabalhadores) e foi um dos principais nomes a elaborar o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, também criticou o gasto das contas públicas de Lula.

“Resta saber se ele vai ou não encontrar um excepcional ministro da Fazenda que consiga corrigir todos os erros praticados durante [os últimos] quatro anos, ou esfrangalhar as contas públicas brasileiras”, concluiu.

Entenda o caso

O ex-candidato Flávio Bolsonaro fugiu do país após perder o segundo turno da eleição presidencial contra Lula. O senador foi para Miami, nos Estados Unidos, com a esposa, Fernanda, e as duas filhas na última terça-feira (27).

O sumiço de Flávio ocorreu depois de a PF (Polícia Federal) solicitar a entrega dos passaportes do senador na segunda-feira (26). O filho de Jair Bolsonaro (PL) teria até as 11h para fornecer os documentos à corporação, segundo determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, o que não ocorreu.

Com isso, a PF cancelou tanto o passaporte comum quanto o diplomático, destinado a autoridades, levando a uma restrição aos documentos nos portos e aeroportos ao redor do mundo nos sistemas de migração.

Mesmo assim, a apuração da CNN Brasil indica que Flávio entrou nos EUA com o passaporte diplomático que a PF cancelou. Na Argentina, ele teria entrado com a cidadania italiana.

A medida da PF se baseou no receio de fuga de Flávio do Brasil em meio ao inquérito contra o senador por lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

A abordagem também se baseou na fala do irmão Eduardo Bolsonaro, que disse numa entrevista apoiar a saída de Flávio do Brasil caso ele perdesse as eleições presidenciais, como ocorreu no domingo (25).

Flávio chegou aos EUA na quarta-feira (28), em um voo que saiu da Argentina e fez um pouso no Equador. Depois disso, o ex-candidato publicou uma carta com teor golpista, na qual se autodeclarava presidente do Brasil e questionava o resultado das eleições no país.