A tensão entre Brasil e Argentina já é descrita pela imprensa argentina como “a pior crise diplomática em décadas“. Para a analista de Internacional Fernanda Magnotta, o conflito entre Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassou o campo das diferenças político-ideológicas.
“É uma crise de diversas camadas. É claro que existe um componente ideológico, que transborda e passa das fronteiras da Argentina, inclui os Estados Unidos e inclui uma articulação transnacional das forças políticas da direita e da esquerda”, afirmou Magnotta durante o CNN 360º desta segunda-feira (27).
A analista destacou que já não é possível separar o interesse doméstico, muitas vezes de natureza eleitoral, daquilo que seria, em tese, política de Estado e interesses estratégicos.
O episódio entre Brasil e Argentina, segundo ela, reafirma essa “porosidade entre a camada interna e a camada externa”.
A analista observou ainda que as ondas ideológicas à direita e à esquerda ao longo das últimas décadas têm dificultado a construção de agendas coletivas na América Latina e na América do Sul.
“Os grandes projetos regionais, que em dado momento da nossa história foram articulados, perderam muito espaço, praticamente deixaram de existir. Mesmo os arranjos mais institucionalizados, como o Mercosul, ficaram aquém das possibilidades”, destacou.
Segundo ela, as agendas políticas internas dos líderes dos países acabam gerando rupturas de continuidade aos projetos de política externa.
Separação política sem divórcio econômico
A analista apontou um paradoxo na relação entre os dois países: “Estamos falando de uma separação política, mas que não consegue ser acompanhada de um divórcio econômico“.
Magnotta lembrou que a Argentina tem o Brasil como principal destino de suas exportações, em uma relação pautada por produtos de alto valor agregado, como automóveis, máquinas, ferramentas e equipamentos industriais.
“A Argentina depende do Brasil mais do que o Brasil depende da Argentina. O Brasil diversificou mais os parceiros comerciais nos últimos anos que a Argentina”, destacou.
Essa assimetria, segundo a analista, faz com que a politização das agendas gere insegurança jurídica e incerteza no campo dos negócios. “É muito danoso do ponto de vista dos interesses nacionais mais amplos”, observou.
Alianças fora da região
Para Magnotta, um dos efeitos colaterais mais significativos desse processo é a tendência de os países latino-americanos buscarem alianças fora da região para resolver seus próprios problemas.
“A América Latina não só perde os seus próprios mecanismos de lidar com a sua realidade e vai recorrer a terceiros para fazer isso, como também cria uma tensão do pragmatismo, no campo material, por conta das agendas político-ideológicas”, disse a analista.
Nesse contexto, enquanto alguns países, como seria o caso da Argentina, se aproximam dos Estados Unidos, outros, como o Brasil, recorrem a parceiros extrarregionais.
Magnotta citou o aumento da parceria com a China como exemplo. “O fim de semana também ficou marcado pela conversa entre o presidente brasileiro e o presidente chinês para acelerar a aproximação entre o Mercosul e a China, para criar alternativas e diversificar parcerias.”
O Mercosul, segundo a analista, já sinalizou preocupação com o eventual acordo entre Argentina e Estados Unidos, que poderia ferir cláusulas do bloco, a depender de como fosse estruturado.

