O partido populista britânico Reform UK informou que dois assessores de alto escalão do líder Nigel Farage deixaram seus cargos nesta sexta-feira (4), após uma investigação sigilosa apontar que a legenda teria violado a legislação eleitoral ao providenciar que um doador estrangeiro pagasse por pesquisas de opinião política.
O Reform negou qualquer irregularidade e afirmou ter sido vítima de uma farsa arquitetada por ativistas climáticos.
O Partido Trabalhista, atualmente no governo, enviou um ofício à polícia pedindo a investigação de possíveis crimes, incluindo uma suposta proposta de canalizar uma doação estrangeira de alto valor por meio de um intermediário no Reino Unido.
Transmissão na véspera da conferência do Reform UK
A investigação, transmitida pelo Channel 4 justamente quando a conferência anual do Reform era aberta ao público, revelou que dois integrantes de alto escalão haviam articulado o pagamento, por uma empresa americana, de mais de 30 mil libras por três pesquisas de opinião encomendadas pelo partido.
O acordo poderia violar as leis britânicas de financiamento político, que proíbem doações estrangeiras.
Passando-se por doadores ricos dos Estados Unidos com conexões no Reino Unido, a equipe infiltrada do grupo investigativo Verbatim afirmou ter passado um ano conversando com dirigentes do Reform sobre possíveis doações, processo que culminou em um almoço com Farage.
O Channel 4 informou que a Verbatim é uma organização independente fundada por jornalistas do Centre for Climate Reporting, mas que a emissora verificou as conclusões do grupo, incluindo imagens de reuniões gravadas secretamente.
Farage, veterano defensor do Brexit que já é alvo de uma investigação parlamentar devido a doações anteriores, declarou à rádio LBC: “O partido não violou nenhuma lei. O partido não recebeu dinheiro de origem duvidosa nem nada do gênero.”
Liderança do partido nas pesquisas diminui
O Reform, que viu sua ampla liderança nas pesquisas de opinião diminuir em meio a alegações sobre doadores não declarados, anunciou uma investigação interna. O partido informou que os dois integrantes que aparecem nas gravações feitas com câmera oculta — o chefe de políticas James Orr e o braço direito de Farage, Dan Jukes — se afastaram de suas funções enquanto aguardam os resultados da apuração.
Orr, professor de filosofia da Universidade de Cambridge e amigo do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou em um vídeo publicado no X que o Reform não participou da encomenda da pesquisa.
“Não há absolutamente nenhuma maneira de isso ser considerado um benefício ou uma doação em espécie”, disse.
“Não foi uma pesquisa interna do partido. Não foi uma pesquisa do Reform UK. Foi uma pesquisa pública organizada por uma pessoa independente que pagou a um instituto de pesquisa independente, e os resultados foram publicados imediatamente para o público em geral.”
As mais recentes acusações sobre doações surgem no primeiro dia aberto ao público da conferência anual do partido — evento que Farage esperava que proporcionasse uma oportunidade de recomeço após um verão difícil.
Farage, de 62 anos, está sendo investigado por um órgão de fiscalização parlamentar devido a uma doação de 5 milhões de libras feita pelo bilionário do setor de criptomoedas Christopher Harborne em 2024.
Ele nega qualquer irregularidade, mas o apoio ao partido diminuiu nas últimas semanas.
Partido Trabalhista alega outras possíveis violações
Nesta sexta-feira (4), Farage afirmou que Jukes e Orr haviam “dito coisas que não deveriam ter sido ditas” em relação a doações supostamente provenientes dos Estados Unidos. Segundo ele, nenhuma doação desse tipo havia sido aceita pelo partido e os dois haviam caído em uma armadilha.
Em uma carta à Polícia Metropolitana, o Partido Trabalhista apontou que o documentário continha outras duas possíveis infrações: a discussão sobre o repasse de uma doação de um financiador sediado nos Estados Unidos por meio de seu filho residente no Reino Unido e a sugestão de que métodos semelhantes teriam sido utilizados no passado.
“O Reform UK foi alvo de uma farsa perpetrada por ativistas climáticos financiados por fontes estrangeiras, que se passaram por possíveis doadores do partido. O partido nega qualquer irregularidade”, declarou um porta-voz do partido.
“O Reform UK possui um processo robusto de verificação de potenciais doadores, aprovado pela Comissão Eleitoral”, completou.
A Polícia Metropolitana informou estar ciente das alegações apresentadas na reportagem e que analisaria quaisquer informações que lhe fossem fornecidas.
Isso não equivale à abertura formal de uma investigação.
A Comissão Eleitoral, órgão responsável pela supervisão e regulamentação do financiamento político no Reino Unido, declarou:
“Estamos analisando todas as informações relevantes, em conformidade com nossas atribuições regulatórias, e mantemos contato com a Polícia Metropolitana.”
“A Comissão Eleitoral não aprovou o processo de verificação de doadores do Reform, nem de qualquer outro partido. Cabe aos partidos garantir que seus processos e controles internos sejam adequados.”
Quem é Nigel Farage, representante da ultradireita de eleição do Reino Unido?

