Celso Amorim, assessor especial para assuntos internacionais do governo brasileiro, afirmou à CNN que o Brasil não acredita que receberá uma retratação formal do governo argentino após as declarações do presidente argentino, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. As ofensas foram proferidas durante a passagem de Milei pelo Brasil, na Convenção Nacional do PL. A apuração é da âncora da CNN Débora Bergamasco.
Segundo Amorim, apesar de não haver expectativa de pedido de desculpas, o objetivo do governo brasileiro é impedir que a crise entre os dois países continue a se aprofundar.
“A gente sabe que não haverá pedido de desculpa por parte do governo argentino, mas a ideia é que parem de escalar essa crise“, disse Amorim. O assessor também destacou a importância da relação bilateral: “O Brasil ama o povo argentino e damos muita importância às relações de Estado construídas desde a democracia.”
Mercosul e relações de Estado
Amorim ressaltou que as relações entre Brasil e Argentina devem transcender as diferenças ideológicas entre os governos. Para ele, a relação de Estado deve prevalecer independentemente de quem esteja no poder.
O assessor também defendeu a importância do bloco regional: “Nós queremos um Mercosul forte, com respeito, especialmente nesse momento em que o mundo está dilacerado por guerras e por medidas unilaterais.”
Questionado sobre o fato de Milei desprezar o Mercosul, Amorim respondeu que “ele desdenha do Mercosul, mas a maioria dos argentinos não”.
Repúdio na Argentina
A correspondente da CNN em Buenos Aires, Luciana Tadeu, informou que 33 deputados argentinos assinaram uma proposta de declaração de repúdio às falas de Milei.
O documento afirma que as declarações do líder argentino não apenas colocam em risco a política exterior do país, como também representam uma interferência nos assuntos políticos internos brasileiros.
A proposta foi apresentada pelo deputado kirchnerista Jorge Taiana e encaminhada à Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados argentina. Entre os signatários estão principalmente peronistas de diferentes correntes, sindicalistas e ex-ministros da administração de Alberto Fernández.
Luciana Tadeu alertou, no entanto, que os próprios signatários não esperam que o documento seja tratado em curto prazo, uma vez que a Comissão de Relações Exteriores é presidida por uma deputada do partido de Milei.
Embaixador e impacto comercial
Como resposta diplomática às declarações de Milei, o Brasil convocou o embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, de volta a Brasília, onde se reuniu com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Também foi solicitado ao embaixador argentino no Brasil que prestasse esclarecimentos sobre as falas de Milei. Apurações da CNN indicam que, por enquanto, o governo brasileiro não prevê nenhum impacto em turismo ou nas relações comerciais, independentemente de o embaixador retornar ou não ao posto.
Luciana Tadeu destacou que, apesar das tensões políticas, as relações comerciais entre os dois países se mantiveram estáveis desde o início do governo Milei. “O que os dois países afirmam nesse momento é que não querem alterar essa relação comercial, nem que gere um impacto turístico”, relatou a correspondente.
O porta-voz da Casa Rosada também declarou que a Argentina não tem intenção de deixar que as diferenças ideológicas afetem as relações comerciais entre os “dois povos irmãos”, ressaltando que o Brasil é o principal sócio comercial da Argentina.

