O Senado dos Estados Unidos pode votar, nesta quinta-feira (6), a indicação do político republicano Daniel Perez para assumir a embaixada americana no Brasil.

Uma fonte republicana a par do assunto relatou à CNN Brasil que o nome de Perez deve ser analisado em bloco com outros indicados para diferentes cargos da diplomacia dos EUA.

Segundo a fonte, os senadores vão realizar uma votação processual, na tarde desta quarta-feira (5), para definir o cronograma e existe a possibilidade de o bloco ser aprovado já na quinta-feira.

Além de Perez, o bloco inclui nomes que foram indicados pelo governo Trump para cargos no Departamento de Estado e nas embaixadas americanas no Camboja e na Gâmbia.

Daniel Perez foi sabatinado no dia 16 de julho e teve o nome aprovado pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado no dia 22 do mesmo mês.

Durante a sabatina, ele destacou que os Estados Unidos enfrentam “desafios de segurança reais” no Brasil. Ele citou organizações criminosas transnacionais que ameaçam comunidades americanas e a “crescente presença de potências externas competindo por influência na região”, sem nomear a China.

Mesmo que seja aprovado pelo Senado americano, o deputado estadual da Flórida seguirá dependendo do aval do governo Lula antes de assumir o cargo em Brasília.

O Brasil ainda não concedeu o documento no qual afirma que avaliou e aceita formalmente o nome indicado pelos EUA para a embaixada – o chamado “agrément”.

“A partir daqui, não há como seguir com a indicação porque falta justamente a concessão do agrément”, explicou à CNN Brasil o professor da Temple University, Lucas de Souza Martins.

Ele acrescenta que, além do agrément, ainda restariam algumas formalidades previstas na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, como notificar o Itamaraty da chegada do embaixador ao Brasil e a entrega das cartas credenciais.

Na terça-feira (4), o governo Trump anunciou que revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, agravando a tensão diplomática entre os países.

Uma autoridade do Departamento de Estado americano argumentou que a revogação é uma “ação recíproca” ao que descreveu como a demora do Brasil em conceder o agrément para Daniel Perez.

Os EUA prometem restabelecer o visto da embaixadora brasileira imediatamente caso o aval seja concedido ao indicado de Trump.

O Palácio do Planalto reagiu à revogação afirmando que “o processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência”.

“O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de agrément ao governo brasileiro. O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise”, completou o governo brasileiro.

Quem é Daniel Perez, nomeado de Trump para ser embaixador no Brasil?

O potencial embaixador americano em Brasília é atualmente um deputado republicano no estado da Flórida e ocupa a cadeira de presidente da Câmara de Representantes estadual.

Segundo seu site oficial, ele nasceu em Nova York, mas se mudou com a família ainda na infância para a Flórida, na cidade de Westchester.

O site também destaca que Perez é filho de cubanos e, por isso, “aprendeu desde cedo a importância do trabalho árduo, do otimismo, do serviço público e da liderança”.

“Perez é um homem de família dedicado. Ele é casado com Stephanie Ann Perez e juntos são os orgulhosos pais de Camila Lucia, Matías Daniel e Paulina Andrea”, acrescenta a biografia.

Ele estudou na Florida State University e na Faculdade de Direito da Loyola University New Orleans e foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2017.

A campanha para o cargo, segundo sua equipe, foi focada em “responsabilidade, impostos mais baixos, menos intervenção governamental e proteção de nossas comunidades”.

O governador da Flórida, Ron DeSantis (à direita), discursa sobre o Estado da Flórida enquanto o presidente da Câmara dos Representantes da Flórida, Daniel Perez (republicano de Miami, ao centro), ouve durante o primeiro dia da sessão legislativa no Capitólio Estadual da Flórida, em 4 de março de 2025, em Tallahassee, Flórida.
O governador da Flórida, Ron DeSantis (à direita), discursa sobre o Estado da Flórida enquanto o presidente da Câmara dos Representantes da Flórida, Daniel Perez (republicano de Miami, ao centro), ouve durante o primeiro dia da sessão legislativa no Capitólio Estadual da Flórida, em 4 de março de 2025, em Tallahassee, Flórida. • Matias J. Ocner/Miami Herald/Tribune News Service via Getty Images

“Como presidente da Câmara, ele busca abordar questões críticas relacionadas à saúde, infraestrutura, moradia acessível e seguro imobiliário, mantendo-se fiel à sua missão de ser a voz de seus eleitores em Tallahassee”, afirma seu site oficial.

Nomeado para embaixador trava embate com rival de Trump

Desde o ano passado, Perez também tem sido destaque de reportagens do noticiário político americano pelo embate que sustenta com o governador da Flórida, Ron DeSantis – republicano que rivalizou com Trump na disputa pela candidatura do partido nas eleições de 2024 e perdeu.

Uma reportagem na edição de verão de 2025 da revista Governing escreveu: “Governadores que concorrem sem sucesso à presidência muitas vezes acabam menos populares em seus estados. Esse foi o caso de Ron DeSantis na Flórida. Depois de dominar a política estadual por anos, DeSantis agora enfrenta um antagonista surpreendente: o também republicano presidente da Câmara, Daniel Perez.”

“Os dois já discutiram sobre tudo, desde o ensino superior e a exploração de petróleo em alto-mar até o financiamento de serviços de apoio legislativo e normas de segurança para condomínios”, acrescentou a revista.

Presidente dos EUA, Donald Trump, e o governador da Flórida, Ron DeSantis, em comícios eleitorais • Gaelen Morse e Marco Bello/Reuters (07.nov.22)

No início de 2025, destaca a reportagem, os dois entraram em conflito por causa da imigração e uma investigação sobre uma organização sem fins lucrativos ligada à esposa do governador.

“Perez, um cubano-americano de 38 anos de Miami, não recuou nem por um minuto, acusando publicamente DeSantis de mentir, de ser emotivo e de ter ataques de raiva. “Ameaçar os outros para conseguir o que quer não é liderança, é imaturidade”, disse Perez no plenário da Câmara”, escreve a Governing.

O nomeado por Trump para ser embaixador no Brasil chegou a ser descrito como “a primeira oposição real que DeSantis enfrenta desde que assumiu o governo em 2019”.

O embate também foi pauta do jornal The New York Times, que escreveu em julho do ano passado: “A relação entre DeSantis e Perez tornou-se tão rancorosa que, em certo momento, DeSantis se referiu aos deputados como “traiçoeiros”. Perez rebateu dizendo que o governador “emocional” estava fazendo “birras”.”

No final do ano passado, ele chegou a ser cotado para concorrer – com apoio do governo Trump – ao cargo de procurador-geral da Flórida contra um aliado do governador, mas a candidatura não se concretizou e ele seguiu como presidente da Câmara.

Em abril deste ano, conforme reportou o site Politico, Perez voltou a confrontar DeSantis ao obstruir dois projetos de lei do governo, que tratavam de isenções de obrigatoriedade de vacinas e regulamentação da inteligência artificial.

Em maio, durante um evento na cidade de Madison, DeSantis fez novas críticas a Perez. Segundo o jornal local Florida Phoenix, o governador “fez um discurso inflamado por quase 10 minutos para expressar raiva e frustração com o republicano de Miami, alegando que ele [Perez] tem uma agenda pessoal”.

Filho de cubanos: Quem é o nomeado de Trump para ser embaixador no Brasil