O ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União Brasil), e outras 15 pessoas são alvos de mandado de prisão em uma operação contra a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no transporte público de São Paulo. A ação denominada como Operação Vectura Corrupta ocorre na manhã desta quinta-feira (17).

As investigações apontam que pelo menos 12 das 22 empresas que operam o transporte coletivo de passageiros na capital paulista seriam controladas direta ou indiretamente pela facção paulista. 

Até a última atualização, nove pessoas já tinham sido presas.

As empresas e o papel dos “laranjas”

Como forma de dominar o setor de transportes, o PCC teria usado empresários e “laranjas” como proprietários formais das empresas de ônibus.

As investigações revelaram um esquema estruturado em que as instituições eram geridas por “testas de ferro” que seguiam ordens diretas de lideranças do crime organizado ou de seus familiares. 

Em diálogos e mensagens interceptados pelas autoridades, investigados aparecem recebendo ordens de um “patrão”. Eles aparecem “prestando contas” a Carla de Paula Muller, conhecida como “titia”, esposa de Antônio José Muller Junior, o “Granada”.

O homem é apontado como um dos líderes da cúpula do PCC e está preso na Penitenciária Federal de Brasília.

A gestão englobava negociações de frotas inteiras, com comissões intermediadas por executivos e valores movimentados em contas bancárias de empresas ligadadas ao grupo.

A apuração cita ainda Milton Leite, apontado nominalmente por diversas vezes como responsável direto pela operação de empresas controladas pela facção e citado por policias militares como proprietário de fato da empresa Transwolff. 

A “Sintonia dos Gravatas”

Para manter a gestão financeira e operacional conectada aos líderes custodiados no sistema pricional, o PCC contava com a atuação de advogados investigados por extrapolar o exercício profissional, integrando núcleos conhecidos como “Sintonia Restrita” e “Sintonia dos Gravatas”. 

Advogados como Cécero José dos Santos Filho e Milton Mello Milreu usavam escruitórios como sedes de reuniões para faccionados e disponibilizavam contas bancárias para receber e repassar recursos das viações investigadas.

A engrenagem garantia a circulação de recados e diretrizes vindas de presídios de segurança máxima, como o de Presidente Bernardes e a Penitenciária Federal de Brasília, por meio fe familiares e emissários.

Infiltração política do PCC

De acordo com as investigações, a sustentação do esquema no transporte funcionaria também a partir do diálogo com agentes políticos e ex-gestores públicos para garantir facilidades administrativas e a manutenção de contratos. 

As apurações apontam que o ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, mantinha encontros periódicos com operadores do esquema para tratar dos intereses das empresas vinculadas à facção. 

O PCC também teria atuado no financiamento de campanhas eleitorais nas eleições municipais de 2024 e disputas estaduais. O objetivo da organização criminosa era eleger aliados ou garantir apoio político para o direcionamento de licitações futuras.

Quem é quem no esquema da facção

  • Carla de Paulo Muller – esposa de Antônio Jose Muller Junior, o Granada, um dos líderes do PCC, preso na Penitenciaria Federal de Brasília. É apontada como alguém que atua na transmissão de recados de interesse da facção a Granada e também na exploração do transporte público. Seria interlocutora direta de José Daniel Satilite;
  • Cicero Jose dos Santos Filho – é apontado como integrante do PCC e advogado atuante nos interesses da organização criminosa. Teria usado seu escritório como “sede” de reunião para os faccionados, bem como a conta bancária do escritório para recebimento de valores das empresas investigadas. É interlocutor direto de José Daniel;
  • Danilo Marco Morgado Silva – candidato derrotado à prefeitura de Praia Grande (2024), atualmente candidato a deputado estadual. Já era alvo da Operação Decurio, com mandado de busca e apreensão anterior. Investigações apontam forte vínculo com a organização e indícios de financiamento de sua candidatura via PCC;
  • Edivania Arruda Botelho Alves (“Lalinha”) – Teria servido de “ponte” para transmissão de recados de integrantes do PCC presos em Presidente Bernardes, onde seu marido (também do PCC) está preso;
  • Edson Antonio de Souza (“Peru”) – investigações apontam que o homem atua no intermédio de interesses da organização em procedimentos licitatórios de várias cidades;
  • Eduardo Medeiros (“Galo”) – Apontado como integrante do PCC e advogado pessoal de José Daniel Satilite, além de dono de empresas de transporte. Teria atuado junto aos faccionados no setor de transportes e em licitações;
  • José Ronaldo Alves de Sales (“Ronaldo Cuba”) – Seria atuante no meio político e no ramo de transportes; investigação aponta que ele interliga integrantes da facção a políticos, auxilia em trâmites licitatórios e corrupção de agentes públicos ainda não identificados. Atua com José Daniel e Eduardo;
  • Julio Salvador Filho – Apontado como Diretor da A2 Transportes, interlocutor de José Daniel. Ele seria responsável por decidir, junto com Paulo Korek, sobre liberação de pagamentos aos “laranjas” (José Daniel e Claudionor);
  • Levi dos Santos Oliveira – Ex-presidente da SPTrans. Embora não fosse interlocutor direto de José Daniel, teve encontros periódicos para tratar de interesses da facção em empresas de transporte, especialmente relacionados à Operação Fim da Linha, segundo as investigações;
  • Milton Leite da Silva – Ex-vereador, citado repetidamente como responsável direto pela operação de empresas controladas pelo PCC. Declarações de policiais militares (Tribunal de Justiça Militar) o apontam como dono de fato da empresa Transwolf;
  • Milton Mello Milreu – Advogado, membro da facção segundo a investigação, extrapolando o exercício regular da profissão. Ele é apontado como alguém que fazia pagamentos periódicos a José Daniel e atuava na captação de empresas para controle do PCC;
  • Paulo Sirqueira Korek Farias – Empresário, gestor de empresas de transporte (Translider, A2) e apontado como “testa de ferro” da facção no setor. Também é presidente do Esporte Clube Água Santa;
  • Sergio Luiz Gevaerd de Oliveira – Empresário, braço direito do advogado Milton Mello Milreu. Ele seria atuante como intermediário entre a organização e o advogado, participando ativamente de negociações do PCC.

Além dos 13, outros três homens, identificados como André Cassali, Claudionor Aparecido Sabino Tomaz e José Daniel Satilite são alvos dos mandados de prisão. As funções deles não foram detalhadas.

A identificação dos investigados

As descrições individuais dos 16 investigados vêm de uma síntese que o próprio relator do despacho judicial elaborou “a título de exemplo, sem pretensão de esgotar todo o conjunto de provas”, com base nos elementos apresentados pela polícia e MP.

A base probatória citada são diálogos extraídos de dispositivos eletrônicos apreendidos, documentos, informações financeiras e demais elementos reunidos ao longo da investigação.

O relator faz questão de frisar que tudo isso é analisado em “juízo de cognição sumária” e que “não se pretende, neste momento, antecipar juízo definitivo acerca da responsabilidade penal dos investigados”. Ou seja, são indícios e teses da investigação, ainda não fatos comprovados ou julgados.

Entre os 16 alvos, nove já foram presos nesta manhã. Eles são: Júlio Salvador Filho; Claudionor Aparecido Sabino Tomaz; Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans; Carla de Paula Muller, esposa de “Granada”, do PCC; Edivania Arruda Botelho Alves; André Cassali; José Ronaldo Alves de Sales; Edson Antonio de Souza; e Danilo Marco Morgado Silva, candidato a deputado estadual pelo PL (Partido Liberal).

São cumpridos 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão durante a ação. Milton Leite está entre os alvos de mandado de prisão. 

A operação é realizada pela Polícia Civil de São Paulo e pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo). 

Posicionamento de Milton Leite

O ex-vereador Milton Leite afirmou que não está foragido, mas sim em viagem. Ele ainda disse que se apresentará às autoridades em até 24 horas e provará inocência. Veja posicionamento na íntegra:

“Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas.

Vou provar minha inocência em todas as acusações.”

Posicionamento Danilo Morgado (PL)

“Meses atrás Danilo foi alvo de um processo onde se pedia sua prisão, movido pelo prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão.

Na época, o motivo do pedido de prisão foram vídeos publicados por Danilo, denunciando supostas licitações ligadas ao PCC dentro da prefeitura de Praia Grande, ou seja, Danilo trouxe a tona a mesma denuncia feita pelo delegado Dr. Ruy Ferraz Fontes.

Agora, em plena campanha eleitoral, e um dia antes da data que proíbe prisão de candidatos, Danilo é preso.

A sequência dos fatos fala por si.

O coronel nunca muda seu modo de agir: intimida e tenta calar quem não se curva.

Prenderam Danilo, mas despertaram milhares.

Esperamos que os fatos sejam apurados a fundo e tudo seja esclarecido em breve.

O que não dá pra engolir é a forma que aconteceu: às vésperas da eleição, numa prisão que temos motivo para considerar irregular.

Isso não é investigação, é perseguição.”

Posicionamento da Prefeitura de SP

“A intervenção determinada pela Prefeitura de São Paulo na Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida firme e decisiva para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, a administração municipal também determinou, por iniciativa própria, a intervenção na UPBus, mesmo sem qualquer solicitação da Justiça.

Desde o início das investigações, a Prefeitura agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.

A Prefeitura reforça que, na ocasião, também foi aberto um processo pela Controladoria Geral do Município contra a Transwolff e a UPBus e, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil no processo investigatório.

A operação realizada nesta quinta-feira (17) reforça a gravidade dos fatos que motivaram as providências adotadas pela Prefeitura. A administração colabora integralmente com o Ministério Público, fornecendo todos os documentos e esclarecimentos necessários.”

CNN Brasil tenta localizar a defesa dos outros citados. O espaço segue aberto.