Em dois vídeos que somam quase 30 minutos, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) tornou público o desentendimento com o enteado Flávio Bolsonaro (PL), alegando ter sido alvo de uma postura “desrespeitosa” por parte dele. O episódio, que já era conhecido nos bastidores políticos, ganhou dimensão pública e preocupa a cúpula do PL.

“Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone. E eu não tinha feito nada contra ele”, afirmou Michelle nos vídeos.

“Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi”, disse a ex-primeira-dama.

Origem do conflito

O estopim da briga está relacionado à disputa pelo governo do Ceará. Flávio Bolsonaro e o PL apoiam uma aliança com Ciro Gomes (PSDB), enquanto Michelle defende que o partido deveria apoiar Eduardo Girão (Novo-CE) já no primeiro turno — não apenas por afinidade ideológica, mas também em respeito a uma orientação de Jair Bolsonaro.

Embora Flávio frequentemente visite a casa de Michelle para ver o pai, que está em prisão domiciliar há quase três meses, a ex-primeira-dama afirmou que não conversa com o enteado desde o final do ano passado.

Impacto eleitoral e preocupação no PL

Analistas ouvidos pela CNN apontam que o episódio tem potencial para atingir um dos principais pilares da estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL): a aproximação com evangélicos e mulheres, segmentos nos quais Michelle exerce grande influência.

O vice-presidente da Arko Advice, Cristiano Noronha, destacou que a situação é “muito delicada”, sobretudo porque Michelle é uma liderança importante do PL Mulher e o eleitorado feminino representa a maioria do eleitorado brasileiro.

“Esse episódio todo e a forma como a ex-primeira-dama narra esse diálogo com o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL), dizendo que foi humilhada, dizendo que foi maltratada por ele, isso pode acabar repercutindo muito mal”, avaliou.

A analista de Política da CNN Jussara Soares, que conversou com figuras importantes do PL após a publicação dos vídeos, relatou que a surpresa no partido não foi com a briga em si, mas com a forma como Michelle escolheu expô-la publicamente.

“Michele costuma falar pouco. Ela gravou dois vídeos de 26 minutos para dar detalhes desse atrito com o Flávio e usou palavras pesadas, que para o eleitorado feminino pega muito mal”, disse.

Segundo a analista, a orientação interna no partido é de “cabeça fria” para Flávio e paciência entre os dirigentes. A cúpula do PL, de modo geral, está ao lado de Flávio e avalia que Michelle busca um protagonismo que, na visão deles, ela não teria.

Subtom de machismo e disputa de poder

A âncora da CNN Thais Herédia levantou a questão de um possível subtom nos vídeos de Michelle, sugerindo que ela teria sido tratada de determinada forma por ser mulher. “É óbvio que a Michelle vai sofrer misoginia. Dizer para ela que ela não entende nada de política — eu acho que essa frase soa bastante carregada”, comentou.

“Ela não se coloca ali como a mulher vítima de um machismo, mas ela descreve uma história de quem está sendo pressionada pelo machismo e não necessariamente apenas por uma disputa de poder.”

Cristiano Noronha avaliou que Jair Bolsonaro (PL) deverá atuar como árbitro da situação, mas que qualquer solução passa também por uma articulação com Flávio e com o presidente do PL (Partido Liberal), Valdemar Costa Neto, que apostou no peso político de Michelle ao posicioná-la como candidata ao Senado por Brasília e à presidência do PL Mulher.

Não por acaso, também na mesma quarta-feira (24) em que os vídeos foram publicados, Flávio Bolsonaro (PL) ventilou o nome da deputada Bia Kicis (PL-DF) como possível vice em sua chapa, embora analistas considerem o nome ainda distante de ser o favorito.

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